O Globo, Opinião, p. 6
22 de Nov de 2011
Vazamento requer investigação séria
Os maiores acidentes ambientais envolvendo o setor de petróleo ocorreram no mar, seja nos campos de exploração e produção ou no transporte de hidrocarbonetos. O Brasil tem quase 90% de sua produção de petróleo oriundos de campos marítimos, sendo que os principais situados na costa do Rio de Janeiro. Por isso mesmo, o litoral fluminense (e cada vez mais também o de São Paulo) está permeado de instalações petrolíferas, que tendem a se multiplicar com a exploração dos campos marítimos descobertos na camada do pré-sal.
O vazamento de óleo ocorrido durante a perfuração de um poço exploratório no Campo de Frade (Bacia de Campos), sob responsabilidade de uma destacada companhia americana, a Chevron - terceira na relação mundial das empresas do setor -, levanta várias questões. A principal delas é que, por mais avançada que seja a tecnologia no processo de exploração e produção, as circunstâncias envolvendo poços em campos marítimos elevam consideravelmente o grau de risco da indústria e dos transportadores de hidrocarbonetos.
Nesse sentido, mesmo que os campos estejam longe da costa, acidentes e vazamentos podem ter sérias consequências ambientais, o que exige cuidado redobrado com os procedimentos de segurança para evitá-los. E, se por uma fatalidade ocorrerem, as empresas devem estar preparadas para agir rapidamente com iniciativas de mitigação do impacto ambiental .
A população, especialmente aquela que pode ser mais atingida pelo vazamento, precisa ser informada do problema o quanto antes, se possível com as explicações necessárias para se dimensionar o risco.
O vazamento no campo de Frade foi marcado por um desencontro de informações. Não se sabe até agora, ao certo, se o vazamento poderia ter sido evitado, se as iniciativas de mitigação foram as corretas e qual a responsabilidade direta da Chevron, a operadora do campo. Em face desse desencontro, surgiu até uma polêmica que põe em dúvida a capacidade técnica da companhia no Brasil, o que, aparentemente, é uma conclusão precipitada, pois o fato ainda não foi devidamente investigado. Não falta, também, exploração política do caso.
O vazamento não pode ser usado como pretexto para se paralisar a atividade da indústria petrolífera. Nas bacias de Campos e Santos são hoje produzidos mais de 1,9 milhão de barris de petróleo por dia. Qualquer derramamento de óleo é grave e merece ser apurado com vigor, para se identificar as falhas e exigir que a indústria adote procedimentos de segurança que evitem outros acidentes no futuro. Mas a reação das autoridades não pode ser um jogo para a plateia.
O acidente põe por terra os argumentos que tentam minimizar os riscos das regiões próximas às áreas produtoras de petróleo no mar. Na prática, está provado que são falsas as premissas usadas pelos que defendem o fim das compensações financeiras (royalties e participações especiais) para estados e municípios dessas regiões, sejam classificados como produtores ou simples confrontantes (não importa o conceito). O risco é real, o que justifica as compensações. O acidente é um sinal de alerta ao país, que, no pré-sal, explorará em águas mais profundas, e tendo a Petrobras como operadora monopolista. O momento é de reflexão.
O Globo, 22/11/2011, Opinião, p. 6
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