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Vazamento na Bacia de Campos pode afetar migração de animais marinhos

OESP, Vida, p. A22
20 de Nov de 2011

Vazamento na Bacia de Campos pode afetar migração de animais marinhos

Clarissa Thomé / Rio

No meio do caminho, havia óleo. Obstáculo difícil de superar por baleias como jubarte, minke-antártica, baleia-de-bryde e entre 20 e 25 espécies de golfinhos e pequenos cetáceos que usam a Bacia de Campos como rota migratória. O óleo que vazou por pelo menos seis dias pelo poço no Campo de Frade, operado pela Chevron Brasil, chegou a cobrir uma superfície de 163 quilômetros quadrados - ou 16,3 mil campos de futebol.
E o dano ambiental é difícil de mensurar. No acidente provocado por uma explosão na plataforma de perfuração da British Petroleum, no Golfo do México, em abril do ano passado, 800 milhões de litros de óleo vazaram por 87 dias.
Somente 2% das carcaças dos animais atingidos chegaram ao litoral, aponta o biólogo Salvatore Siciliano, coordenador do Grupo de Estudos de Mamíferos Marinhos da Região dos Lagos (GEMM-Lagos), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
"A nossa informação sobre o impacto do acidente sempre vai ser muito limitada. A maior parte das carcaças vai afundar. O que vai chegar na praia é o piche, que suja o pé. Mas o que está por trás disso é de uma escala enorme. As empresas têm de estar preparadas para esse risco. O ônus não pode caber a todo mundo. Elas têm de monitorar e sanar o problema", afirma.
As baleias jubarte, por exemplo, estão retornando para o Polo Sul. Depois de se alimentar durante o verão, no inverno elas nadaram em direção à linha do Equador, em busca de águas mais quentes para se reproduzir. Agora, voltam para a Antártica acompanhadas de seus filhotes.
O secretário de Estado do Ambiente, Carlos Minc, viu três delas nadando perto da mancha - uma a menos de 300 metros de distância.
"Elas ainda não voltaram a se alimentar. Estão frágeis e mais suscetíveis à contaminação. Esses animais precisam vir à tona para respirar e podem ingerir esse óleo. O contato com a pele também pode interferir no isolamento térmico, afetar os filhotes, que têm ainda menos proteção", afirma o oceanógrafo David Zee, professor da Universidade do Estado do Rio (Uerj).
Além dos mamíferos, o dano para as aves é agudo. Acredita-se que elas confundam a mancha de óleo com cardumes e, por isso, mergulhem no petróleo.
"Para as aves, esse encontro com a mancha é fatal. A pena absorve o óleo. Elas agonizam porque tentam limpar as penas com o bico e acabam ingerindo o petróleo. O quadro piora por causa do dano no aparelho digestivo", explica Siciliano.
Ele conta que algumas têm o comportamento migratório dos cetáceos, como albatrozes e petreis. Outras são residentes daquela região. É o exemplo de atobás, fragatas e algumas gaivotas.
Pequenos. Mesmo os organismos microscópicos são atingidos pela poluição. Na superfície, o óleo se espalha e impede a troca gasosa entre o mar e a atmosfera. Também não permite a passagem da luz solar. Nessa camada estão os fitoplânctons, base da cadeia alimentar marinha.
"Há o impacto agudo, mas o que nos preocupa é essa exposição crônica aos compostos de petróleo, que são carcinogênicos. Parte desse óleo evapora e é inalado. Outra parte afunda, vai ficar no sedimento, na coluna d'água, vai ser assimilado pelo peixe. O golfinho ingere esse peixe. É o que a gente chama de bioacumulação", afirma Siciliano.
Ele critica a falta de planos de contingência e salvamento das espécies depois dos vazamentos. "Estamos às vésperas do Rio +20 e o Brasil está seguindo na contramão ambiental muito séria. Voltamos ao tempo do desenvolvimento a qualquer custo. Estamos pensando no pré-sal mas ainda não conseguimos lidar com vazamentos", afirma o coordenador do Grupo de Estudos de Mamíferos Marinhos da Região dos Lagos.

Problema semelhante causou acidente no Golfo

Irany Tereza / Rio

Um erro semelhante à falha no revestimento do poço de Frade, operado pela Chevron, provocou o megavazamento no Golfo do México, operado pela BP.
Descobriu-se lá que o revestimento do poço havia sido cimentado com pasta nitrogenada e não com a solução convencional. A etapa de cementação de poços de petróleo é um dos cuidados mais básicos da indústria petrolífera. Sem a proteção adequada, uma sapata (espécie de alicerce na estrutura do poço) teria sofrido fissura durante uma pressão excessiva.
Três diferentes fontes que acompanham o processo de investigação das causas e de mitigação das consequências do acidente, informaram que, ao que tudo indica, houve erro técnico por parte da Chevron.
O campo de Frade está em operação desde outubro de 2009, com dois poços produtores. Na atividade de petróleo, além dos poços que efetivamente extraem o óleo, são perfurados também poços injetores, para introduzir água, gás ou uma lama especial na jazida e empurrar o óleo para fora do reservatório. Foi num desses poços injetores que ocorreu o acidente.
Inicialmente, os dois poços produtores operavam em conjunto com um poço injetor de água. Como a produção teria diminuído - o que é comum após algum tempo de operação -, a Chevron perfurou um segundo poço injetor, mas sem cumprir à risca os cuidados com o revestimento. Só uma parte dele teria recebido a camada protetora.
Durante uma pressão elevada do reservatório, parte do óleo teria escapado para o poço injetor, que, sem o isolamento necessário, teria vazado o óleo pela fissura. Por esse buraco, o óleo passou para uma fenda geológica e contaminou o mar.
O poço está sendo cimentado e sairá de operação. A obstrução total levará mais de quatro dias, pois é feita em etapas em diferentes profundidades e cada cementação leva de 20 e 24 horas para secar completamente. Depois a vez de a fenda ser concretada.

Perfurações simultâneas ajudam a reduzir custos

Sérgio Torres / Rio

O fato de a Chevron estar utilizando apenas uma sonda, a SEDCO 706, para trabalhar nos três poços da empresa que estão em fase de perfuração é tido no setor de petróleo como uma forma de economizar gastos. A sonda realizaria os trabalhos simultaneamente, para que os custos se mantenham em um mesmo nível, o que não ocorreria se um poço só começasse a ser aberto após a conclusão de um outro.
A sonda é considerada obsoleta pelo setor, pois foi construída em 1976 e em muitos países já deixou de ser usada. Mas seu aluguel custa em torno da metade do das sondas modernas.
Se a empresa americana adotou no Campo de Frade uma linha de trabalho voltada à redução de despesas, o que é legal e comum entre as petroleiras, pode também ter dispensado testes de segurança de perfurações, segundo o que vem sendo levantado pela ANP. Um dos testes é o de certificação da resistência do cimento injetado para revestir o poço. A parede formada pela carga de cimento deve ser apropriada para resistir à pressão exercida pelo oceano, ainda mais em águas profundas.
A investigação feita nos EUA sobre as causas do vazamento gigante ocorrido em 2010 no Golfo do México mostrou que no poço de Macondo, de onde escapou o petróleo, a companhia BP havia dispensado o teste.
Ex-presidente da Associação Brasileira dos Geólogos de Petróleo, Nilo Azambuja afirma que as conjecturas não podem ser consideradas definitivas. Segundo ele, a Chevron poderia estar tentando alcançar o pré-sal, sem que isso seja uma irregularidade. "A área é dela, pode ir ao Japão", afirmou ele, acrescentando que a empresa deve avisar a ANP sobre seus planos de perfuração com 20 dias de antecedência.

OESP, 20/11/2011, Vida, p. A22

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