OESP, Economia, p. B9
Autor: KI-MOON, Ban
03 de Jul de 2009
Vamos chegar a um acordo agora
Ban Ki-moon
International Herald Tribune
O mundo está enfrentando diversas crises. Crise alimentar, energética, de gripe, crise financeira. Estamos lutando para vencer a pior crise econômica e financeira desde a fundação das Nações Unidas, ao mesmo tempo que os efeitos das mudanças climáticas e a pobreza extrema se tornam cada vez vez mais cruéis. O real impacto da crise pode se estender por anos. Outras milhões de famílias estão sendo empurradas para a pobreza. Cerca de 50 milhões de empregos podem ser perdidos em apenas um ano.
Esse é o pano de fundo do encontro do Grupo dos 8 (G-8), na Itália, na próxima semana. Raras vezes os líderes das nações mais ricas do mundo se reuniram num momento tão grave como este.
Precisamos de uma solidariedade internacional. É por isso que venho me expressando sistematicamente sobre as necessidades dos mais vulneráveis - os menos responsáveis pela crise e menos capacitados a reagir a ela.
Tem havido avanços. Antes da reunião do G-20 em Londres, insisti muito num pacote de estímulo realmente global. Os líderes do G-20 concordaram com um pacote substancial de apoio financeiro, totalizando US$ 1,1 trilhão, a maior parte desse dinheiro sendo disponibilizada por intermédio do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Mundial e de outras agências multilaterais de desenvolvimento.
É apenas o início. Nos próximos meses, vamos ter inúmeras oportunidades para fortalecer o crescimento global, adotar medidas para combater a mudança climática e lutar contra a pobreza extrema.
Acabei de enviar uma carta aos líderes do G-8, insistindo para assumirem compromissos concretos e ações específicas para renovar essa nossa determinação. Sublinhei a necessidade de se empenhar recursos para ajudar os mais pobres e mais vulneráveis a fazerem frente às mudanças climáticas, e se firmar um acordo em Copenhague em dezembro.
Destaquei a importância de serem cumpridas as promessas de ajuda para alcançarmos as Metas de Desenvolvimento do Milênio.
Apresentei três áreas específicas em que uma ação é necessária. Primeiro, precisamos mobilizar toda a nossa força para a obtenção de melhores dados em tempo real sobre o impacto da crise econômica nos países mais pobres.
Sobre isso, o que temos é uma visão geral: países com poucas reservas financeiras; países que viram uma queda dos investimentos estrangeiros, da ajuda externa e das remessas de dinheiro para o país; países cujas exportações diminuíram. Mas precisamos de lentes mais nítidas, com melhor resolução, para conhecermos mais a fundo os problemas.
Estou dispondo recursos das Nações Unidas para monitorar o impacto da crise em tempo real. Vamos lançar um Sistema de Alerta de Vulnerabilidade e Impacto Global nos próximos meses. E estou mobilizando também todo o sistema das Nações Unidas para amparar os países no campo da segurança alimentar, comércio, com vistas a uma economia mais ecológica, redes de segurança mais vigorosas e um pacto global para geração de empregos. A criação de postos de trabalho decentes não é somente o resultado que se espera da recuperação econômica, mas um ingrediente essencial para essa mesma recuperação.
Em segundo lugar, precisamos assumir compromissos globais para ajudar homens e mulheres a saírem da vulnerabilidade e ter mais oportunidades.
Em crises econômicas passadas, essa ajuda foi cortada no momento exato em que era mais necessária. A crise atual não pode ser uma desculpa para abandonarmos as promessas feitas. E aqui vai um exemplo: segundo alguns cálculos, a ajuda anual para a África está no mínimo US$ 20 bilhões abaixo do prometido em Gleneagles, em 2005. Com certeza, se o mundo consegue mobilizar mais de US$ 18 trilhões para manter o setor financeiro à tona, pode conseguir mais de US$ 18 bilhões para atender aos seus compromissos na África.
E evidências nos mostram onde exatamente mais recursos vão transformar vidas, aumentar as possibilidades e expandir o potencial humano. Isso pode ser feito ajudando aqueles que praticam a agricultura de subsistência a aumentar sua produtividade, ter acesso aos mercados e melhorar a segurança alimentar; financiando o acesso universal à educação de base; investindo na saúde global e na saúde maternal; e ajudando os países em desenvolvimento a promoverem uma energia mais limpa e empregos "verdes" (funções voltadas para a área ambiental e de responsabilidade social).
Em terceiro lugar, precisamos trabalhar para preparar as instituições internacionais para o século 21. As estruturas multilaterais, criadas há gerações, precisam se tornar mais responsáveis, mais representativas e mais eficientes.
A crise econômica global mostra por que necessitamos de um multilateralismo renovado. Verificamos que, sem uma regulamentação adequada, o colapso de uma parte do sistema tem profundas repercussões em todas as partes. Os desafios estão ligados. Também ligadas devem ser nossas soluções.
Ban Ki-moon é secretário-geral das Organizações das Nações Unidas
OESP, 03/07/2009, Economia, p. B9
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