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Vale do Ribeira retoma plantios

OESP, Agricola, p.G6-G7
02 de Mar de 2005

Vale do Ribeira retoma plantios
Virose que dizimou lavouras está sob controle e região parte para se tornar novamente a principal produtora
José Maria Tomazela
O Vale do Ribeira, no sul de São Paulo, ainda é o maior produtor de maracujá do Estado. É responsável por um quarto da produção estadual, de 2,8 milhões de caixas com 16 quilos. Entre as décadas de 80 e 90, no entanto, chegou a colher metade da produção paulista, então a segunda maior do Brasil, atrás apenas da Bahia. Nos últimos anos, porém, perdeu produção principalmente por causa de uma virose detectada em 2000, que infestou rapidamente as plantações e levou à erradicação de muitos pomares. O vírus, transmitido por um pulgão, era agressivo e não havia tratamento economicamente possível.
Milhares de plantas tiveram de ser arrancadas e exterminadas. A produção, que foi de 1,5 milhão de caixas em 1999, caiu mais de 50%, recuando para 700 mil caixas no ano passado. A área cultivada baixou de 1.300 hectares para 935. A queda afetou o volume da produção estadual. Mas, com o apoio de órgãos governamentais, os produtores decidiram dar a volta por cima.
Cinco anos depois, a região está com novos cultivos. E os produtores organizam-se para melhorar ainda mais a produção. Com o apoio de órgãos do governo estadual e das prefeituras, desde 2003 vem sendo desenvolvido um projeto de retomada da cultura em oito municípios do Vale.
O Projeto da Cultura do Maracujá Azedo e Doce está sendo realizado pela Casa da Agricultura de Jacupiranga, que é municipalizada, em parceria com o Instituto Biológico, o Instituto Agronômico de Campinas (IAC), o Programa Integrado de Frutas (PIF), do Ministério da Agricultura, e pesquisadores da Universidade Estadual Paulista.
INFRA-ESTRUTURA
Os produtores organizaram, no ano passado, a Associação de Fruticultores do Vale do Ribeira, com cerca de 200 integrantes. Por meio do Sebrae, eles estão sendo treinados para aprimorar o cultivo e a venda da fruta. Também esperam a construção de um galpão para a classificação, embalagem e comercialização, a ser instalado no distrito industrial de Jacupiranga. A virose também foi pesquisada e os produtores aprenderam a evitá-la ou, pelo menos, a reduzir seus efeitos. Os novos plantios são feitos com mudas sadias e em locais não contaminados. Os produtores já esperam uma safra acima de 700 mil caixas.
A engenheira agrônoma Maria do Socorro Fernandes, da Casa da Agricultura de Jacupiranga, conta que o cultivo do maracujá é feito, em sua maioria, por agricultores familiares. Eles obtêm cerca de 80% de sua renda anual da atividade, que envolve também cultivos como o palmito pupunha e a banana. Muitos, no entanto, têm até dois empregados permanentes, contribuindo para a geração de renda. "É uma cultura socialmente muito importante", diz.
SAIBA MAIS:
Casa da Agricultura de Jacupiranga, tel. (0--13) 3418-1089; Instituto Biológico, tel. (0--11) 5087-1766; IAC, tel. (0--19) 3241-5188

Poderes sedativo e calmante comprovados
O maracujá é fruta da família Passifloraceae, nativa do Brasil, e bastante conhecida por suas propriedades sedativas e calmantes. É cientificamente provado que a passiflorina, seu principal princípio ativo, encontrada em toda a planta (folhas, frutos e sementes) é depressora da porção motora da medula espinhal, ou seja, tem ação sedativa e tranqüilizante, conforme explica o médico homeopata Nilo Gardin, que é diretor-médico da Weleda, laboratório especializado na produção de fitoterápicos.
"Além desse efeito sedativo, o maracujá também é um hipotensor leve, ou seja, contribui para reduzir a pressão arterial, e é um diurético leve também", continua Gardin, acrescentando que o uso contínuo e medicinal do maracujá tem a vantagem de não ter contra-indicações, nem provocar dependência, como por exemplo sedativos à base de morfina. "Como, porém, não há nenhuma pesquisa em relação ao uso do maracujá durante a gravidez e a lactação, melhor é não utilizá-lo medicinalmente nesses períodos." Além disso, é bom evitar dirigir ou operar máquinas durante o tratamento. Ou seja, tomadas as devidas precauções, um bom chá das folhas ou suco da fruta de maracujá realmente servem para relaxar.

Uma fruta viável para pequenos
Produtor de Pariquera-Açu sustentou a família apenas com a renda do maracujá
José Maria Tomazela
O maracujá sustenta há 19 anos a família do agricultor Joaquim Pereira, de Pariquera-Açu (SP). Ele conta que a fruta lhe deu condições para criar os três filhos, manter e ampliar o pequeno sítio de 34 hectares. "Muitos vizinhos venderam a propriedade, mas nós conseguimos nos manter", diz. Dos três filhos, apenas a única mulher, Maria Cristina, casou-se e foi morar na cidade. Os dois homens, Cláudio, de 28 anos, e Jair Pereira, de 27, constituíram família e continuam no sítio. "Graças ao maracujá", afirma Pereira.
Até 2000, quando a doença se instalou nos pomares, Pereira cultivava 6 mil plantas e colhia 750 caixas por semana no período de safra. A produção anual chegava a 25 mil caixas, proporcionando uma renda de R$ 100 mil por ano. Foi dinheiro suficiente para que Joaquim e a mulher, Glória, investissem na propriedade. Construíram um galpão com estrutura pré-moldada, compraram um trator e mais um pedaço de terra.
Entre 2002 e 2003, os pomares foram infestados e tiveram de ser erradicados. No ano passado, a família voltou a plantar mudas sadias. Este ano, plantou mais. Já são 3 mil pés em produção. Para evitar a virose, Pereira mudou o manejo. Agora, não usa tesouras para podar as plantas. Como o vírus fica na seiva, as lâminas o passam de uma planta para outra. Por isso, os galhos excessivos são arrancados manualmente. Mesmo assim, a doença apareceu em algumas plantas. Mas a família espera colher 3 mil caixas nesta chamada primeira safra, que começa em março e vai até julho. A segunda, mais produtiva, vai de dezembro a abril, quando o rendimento por planta dobra.
Com a redução na produção, o preço do maracujá também subiu. "Estamos vendendo entre R$ 8 e R$ 10 a caixa", diz Joaquim. Ele conta que, em anos anteriores, no pico da safra, a caixa chegou a ser cotada por R$ 1,50. A família gastou R$ 10 por planta para refazer o pomar. Foram aproveitados os mourões e arames já existentes para a condução do maracujazeiro. Se tivessem que começar do zero, gastariam entre R$ 20 e R$ 25.
Na colheita, os frutos são recolhidos um a um, ainda verdes. Postos em sacos plásticos lisos, para não ferir a pele, ficam à espera do trator com carreta, que faz a coleta. Numa bancada, são separados e classificados pelo tamanho. A comercialização é feita com intermediários. Uma parte vai a Ceagesp, em São Paulo, e o restante é repassado para a indústria de sucos e alimentos.
VARIEDADE DOCE
O produtor Valcídio Ferreira também cultiva o maracujá tradicional - o azedo -, mas gosta especialmente da variedade doce. Ele plantou 100 pés em seu sítio, em Jacupiranga, e colhe cerca de 88 caixetas com até seis frutos/mês. A renda é muito boa: cada caixa é vendida entre R$ 5 e R$ 10. Ou seja, cada fruto vale pelo menos R$ 1. Mas Ferreira diz que as plantas são muito sensíveis e exigentes. "É uma lavoura para aposentado, que tem tempo para ficar cuidando", brinca. As plantas, dispostas no sistema de latada, como parreiras de uva, exigem irrigação e cuidados com as flores. "Abelhas de arapuá costumam comer o pólen, por isso precisam ser afastadas."
Por se tratar de fruta de mesa, com formato que lembra o do mamão papaia, o embalamento é cuidadoso. Os frutos são colocados um por um nas caixetas de papelão, envoltos em papel guardanapo para evitar que a fricção de um com outro fira a casca. O maracujá doce é consumido in natura e tem um sabor suave. Sua produção é mais uma alternativa de renda, segundo a agrônoma Maria do Socorro. Não é, porém, produção de larga escala, pois o mercado ainda é muito restrito."

Pesquisador do IAC ensina como conviver com o vírus
O pesquisador Valdir Atsushi Iuki, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), que participa do Projeto da Cultura do Maracujá, disse que os produtores estão sendo orientados para conviver com a virose que ataca as plantas. Ele explica que o pulgão vetor do vírus se reproduz em ervas daninhas, capoeiras e matas da região, não se fixando no maracujazeiro. "Ele suga a planta, transmite o vírus e segue em frente." Uma vez contaminada pelo pulgão, a planta passa a apresentar os sintomas da doença: as folhas ficam com placas amareladas e enrugam, os frutos endurecem e caem.
Como a ação não é muito rápida, é possível obter produção de uma lavoura moderadamente infestada. "Recomendamos que o produtor reduza o ciclo da planta para cerca de um ano e meio." Nesse período, segundo ele, serão colhidas duas safras, sendo a segunda a mais produtiva. O produtor deve, então, arrancar as plantas, incluindo a raiz, e descansar a terra por três meses, iniciando o novo pomar. "Como o vírus precisa da planta para se alimentar, ele morre quando esta é arrancada." A redução no ciclo encontra certa resistência dos produtores, acostumados a explorar a produção das mesmas plantas durante quatro ou cinco anos. Mas é uma das formas mais eficazes para reduzir a incidência do mal, explica.
Nas contas de Iuki, é possível obter lucro, mesmo com redução na produção, pois os preços têm se mantido em bom patamar. Em termos de competição com outras regiões produtoras, a alteração não representa desvantagem, pois a virose está presente
i em quase todo o Brasil. No Vale do Ribeira, alguns municípios, como Sete Barras e Eldorado, ainda não apresentaram o vírus.
i Em outros, a presença foi detectada apenas em alguns bairros. Por isso, o pesquisador recomenda o isolamento das culturas e o cuidado com a origem das mudas. "O ideal é obter semente de origem certificada e fazer as próprias mudas." J.M.T.

OESP, 02/03/2005, p. G6-G7

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