CB, Gabarito, p.4
09 de Mar de 2004
PROGRAMA DE COTAVagas para índiosEstudantes de origem indígena vão ingressar neste semestre na UnB. A medida faz parte do programa de ação afirmativa da instituição. A intenção é receber em dez anos cerca de 200 alunos
Priscilla BorgesDa equipe do Correio
A população indígena no Brasil não passa de 400 mil habitantes de 215 etnias diferentes. Falam 180 línguas distintas. Não possuem tradição de ingressar no ensino superior. No entanto, a população mais jovem está mudando essa realidade. Cerca de 1,3 mil indígenas estão atualmente matriculados no ensino superior. Eles querem lutar pelos direitos de seu povo. E, para isso, sentem necessidade de se formar. A partir deste mês, estudantes das aldeias receberão uma mãozinha da Universidade de Brasília (UnB). Em dez anos, 200 índios se formarão em um dos cursos da universidade. O convênio será assinado sexta-feira entre a UnB e a Fundação Nacional do Índio (Funai). O projeto é uma das ações do Plano de Metas para a Integração Social, Étnica e Racial da instituição. Para o vice-reitor da UnB, Timothy Mulholland, ainda é tímida a participação da comunidade indígena na universidade e falta investimento da própria instituição nesse sentido. Eles são parte do Brasil, têm necessidades e é natural que existam programas para atender essas carências. Vamos dar a formação que eles precisam, afirma. De acordo com o vice-reitor, serão criadas vagas específicas para eles. O vestibular não terá a oferta reduzida. Vale lembrar que, a partir do próximo concurso, 20% das vagas serão destinadas aos candidatos negros. Todos passarão por provas de conhecimentos semelhantes às aplicadas no processo seletivo. Timothy ressalta que haverá uma comissão para acompanhar de perto o cotidiano desses jovens na graduação. Neide Martins Siqueira, coordenadora de Apoio Pedagógico da Coordenação de Educação da Funai, destaca que cada aldeia escolherá representantes para participar da seleção. O primeiro passo será dado ainda neste semestre. A UnB deve receber os 16 índios que estudam em faculdades particulares do Distrito Federal. Eles serão submetidos a avaliações no dia 13 e, se aprovados, começarão a estudar no próximo dia 15. Hoje, a Funai paga mensalidades para os estudantes que sonham com um diploma, consegue moradia, dinheiro para transporte e alimentação. Sem recursos, não há como mantê-los nessas condições, nem atender a mais solicitações. Por isso, a iniciativa da UnB foi comemorada pela Funai. Neide espera que outras federais sigam esse exemplo. Compromisso social A coordenadora da Funai conta que a luta da Coordenação de Educação do órgão é antiga. Ela ressalta que facilitar o acesso dos estudantes indígenas ao ensino superior é de extrema importância para suas comunidades. Com isso, eles ganham autonomia e independência, afirma. As comunidades escolherão os jovens que desejam ver na faculdade. No futuro, os escolhidos retornarão às aldeias para devolver o benefício que receberam ao seu povo. O acordo será feito sob essa condição. Hivson Leonardo do Povo Wassu, de 28 anos, saiu de Alagoas em 2001. Veio à capital do país lutar pelo espaço da aldeia Wassu Cocal nas terras alagoanas. Em 1993, ele perdeu o pai por causa de brigas pela demarcação das terras indígenas. O cacique Hibs Menino foi assassinado. Quando chegou aqui, Hivson teve a certeza de que a formação universitária daria condições mais favoráveis para conseguir proteger a cultura das 2,5 mil pessoas que moram na sua aldeia. Não há políticas eficientes para a graduação do indígena em nível superior. O Ministério da Educação tem essa obrigação, mas demonstra despreparo, lamenta. Rafael Wederoowa Wéréé, de 21 anos, e Acari Maluá Karajá, de 38 anos, também vão participar da seleção na UnB. Estão animados com a idéia. Temiam não conseguir terminar o curso por causa dos preços das mensalidades. Rafael, que é xavante, tem a missão de cuidar dos seis irmãos quando terminar o curso de Relações Internacionais. Acari, que é karajá, não quer que brancos levem o conhecimento que ele mesmo pode repassar aos seus. Quer ser doutor na sua própria língua. E, para isso, pretende se formar em Letras. Estou ansioso. Espero que dê tudo certo, diz Rafael.
CB, 09/03/2004, p. 4
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.