OESP, Agrícola, p. 6
28 de Fev de 2007
Usineiro paulista vai para o Acre
Grupo recupera usina abandonada e começa moer a primeira safra em maio, para produzir 36 milhões de litros de álcool
Moacyr Castro
No ano que vem entra em operação a primeira usina de álcool do Acre, iniciativa de empresários, pecuaristas, assentados e do governo local. O empreendimento dá início a um processo que poderá reverter a antiga dependência energética do Estado, por meio da substituição do óleo diesel pelo bagaço de cana, viável em três safras. Especialistas dizem que nesse período estará pavimentado o último trecho da saída para o Oceano Pacífico, via Peru: a Ásia receberá o álcool e o açúcar mais baratos do mundo. E o Acre poderá começar uma nova revolução.
A lavoura da cana irá, pela primeira vez, organizar a produção agrícola, com o plantio de feijão, arroz, milho e soja para rotação. A soja pode estimular a produção de óleo e biodiesel. 'Tudo isso ocupando áreas de pastagens, onde não há nem roça', garante Rodrigo Biagi, da Maubisa Agricultura, de Ribeirão Preto (SP), um dos envolvidos na empreitada. A cultura poderá ainda gerar 200 quilos de créditos de carbono por tonelada plantada, que valem de US$ 5 a US$ 20 (uma tonelada de cana no campo resgata 800 quilos de carbono e o seu processamento e uso emite 600 quilos de carbono).
As primeiras mudas de cana viajaram de avião de São Paulo e Mato Grosso a Rio Branco e de caminhão até Capixaba, a 60 quilômetros, onde está a Usina Álcool Verde, recuperada no ano passado pelo usineiro perbambucano Eduardo Farias, seu colega paulista Maurílio Biagi Filho e pelo ex-governador Jorge Vianna, que comprou do Banco do Brasil a sucata da antiga usina Brasálcool, abandonada em 1979, antes de ficar pronta. O empreendedor fugiu com o dinheiro do financiamento.
Para rebater a argumentação de que a cana degrada o ambiente, os empreendedores citam um estudo sobre presevarção do solo, em que a cultura aparece como a mais eficiente (Veja tabela). O grupo já implantou 600 hectares para multiplicação de mudas e a primeira safra, que começa em maio, será de pelo menos 500 mil toneladas.
CANA GORDA
Com seis meses, em dezembro, o pé de cana já ostentava três metros. Em São Paulo teria pouco mais de um. Na seca que castigou a Amazônia no ano passado, a cana mais nova cresceu menos, mas resistiu. A previsão de rendimento é de 110 toneladas por hectare, ante 90 na região de Ribeirão e 78 da média nacional. O desempenho das próximas safras é uma incógnita - não é possível, por exemplo, prever quantos cortes renderão os canaviais acreanos.
Rodrigo Biagi diz que aqueles 600 hectares pioneiros são, na verdade, um grande laboratório. 'No Acre tudo, de máquinas a insumos, tem de vir de fora. Só os trabalhadores são do lugar. A usina emprega um em cada mil acreanos.' Hoje, o álcool consumido no Acre é produzido no Mato Grosso, viaja dois mil quilômetros em caminhão-tanque e chega aos postos, quando chega, a R$ 2,10 o litro. A gasolina custa R$ 2,90 e o diesel, R$ 2,20. O Estado todo, calcula Biagi, consome 70 milhões de litros de álcool por ano. Na primeira safra a Álcool Verde já garantirá 36 milhões de litros.
Brasil investe pouco em pesquisa
O Brasil, maior produtor de cana, açúcar e álcool do mundo e a despeito da excelência em tecnologia de cana, está em último lugar na tabela de investimentos em pesquisa no setor. Perde até da Argentina. 'Enquanto aplicamos US$ 1,2 por hectare, na Argentina são US$ 3, na Austrália US$ 10, e em Barbados, no Caribe, US$ 14', compara o cientista Marcos Landell, chefe do Centro de Pesquisa de Cana do Instituto Agronômico (IAC), em Ribeirão Preto (SP).
'Precisamos de uma entidade nacional para superar nossas falhas', defende Maurílio Biagi Filho, que alerta: 'Os EUA estão aumentando a superfície plantada com milho em 4 milhões de hectares; logo chegarão a 36 milhões. Produzem mais do que há 70 anos numa área 12 milhões de hectares menor, graças a muita pesquisa, genética e tecnologia'. Ele conta que usinas australianas cobram pela visita. 'Deveríamos cobrar também. É o melhor para eliminar pára-quedistas'.
Mas tanto o Centro de Pesquisa de Cana, quanto o de Tecnologia Canavieira (CTC) acreditam na retomada. Landell aposta na continuidade 'dos primeiros frutos', que surgem de convênios com empresas, fundações, cooperativas e associações de produtores. 'Embora cientistas, aprendemos a fazer gestão de negócio. Apesar de investir menos que há 20 anos, a agroindústria canavieira é a que mais investe, se comparada a outras culturas.'
Saiba mais: CTC tel. (0--19) 3429-8327
OESP, 28/02/2007, Agrícola, p. 6
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