OESP, Economia, p. B6
13 de Ago de 2010
Usinas tiram 'campos santos' do Madeira
Empreiteiras já descobriram 32 cemitérios feitos por famílias à beira do Rio Madeira e fizeram a transferência de 110 sepulturas para Porto Velho
Leonardo Goy
Enviado especial Porto Velho
A construção da usina hidrelétrica de Santo Antônio, no Rio Madeira (RO), segue em ritmo acelerado e deve ser concluída no fim de 2011, um ano antes do previsto. Mas, hoje, à margem da correria do canteiro de obras, um trabalho peculiar vem sendo desenvolvido pelos concessionários da usina: a remoção de corpos enterrados nas proximidades do rio pela população ribeirinha.
Conhecidos como "campos santos", esses cemitérios informais são um hábito local, estimulado, em parte, pela falta de recursos que impede que essas famílias consigam pagar por um funeral formal.
Segundo o coordenador de Reassentamentos da Santo Antônio Energia, consórcio que constrói a usina, Luiz Zoccal, já foram localizados 32 desses "campos santos" nas duas margens do Rio Madeira. Cada um deles pertence a uma ou a várias famílias, agrupadas em pequenas comunidades.
Ao todo, 110 sepulturas já foram removidas, mas o trabalho não acabou. A empresa estima que ainda existam pelo menos mais 90 covas a serem abertas nas margens do rio.
Esse trabalho de exumação e recolocação dos corpos no cemitério municipal de Porto Velho exigiu investimento pesado, cerca de R$ 1 milhão. O dinheiro foi usado na fase de pesquisa, para descobrir onde estavam as sepulturas, e cobre também as escavações e o trâmite legal para conseguir a autorização das exumações.
A empresa também se responsabiliza pelo transporte dos restos mortais, em urnas de plástico, e pelo sepultamento em columbários no cemitério de Porto Velho. Na prática, o que acontece também é a formalização desses sepultamentos.
A remoção dos corpos atende a uma exigência legal, já que esses pequenos cemitérios, que se espalham ao longo de uma área de 70 quilômetros a partir da futura barragem, serão alagados a partir de setembro do ano que vem, quando as obras da usina estarão quase prontas. ''Mas é também uma obrigação cidadã'', pontuou Zoccal.
"Temos a autorização das famílias, que inclusive ajudam na identificação dos corpos", explicou o coordenador de Reassentamentos da Santo Antônio Energia. Segundo ele, em média as covas têm 40 ou 50 anos de idade.
Mas na comunidade de Paredão, ma margem esquerda do Madeira, o pescador Raimundo Nonato Alves Silva assegura que algumas sepulturas têm cerca de 80 anos.
Neto do fundador da comunidade, Silva disse que está negociando com a empresa sua remoção para outro local. "Eles ofereceram uma nova casa ou dinheiro. Mas a gente cresceu aqui. Vai dar saudade", disse.
Tradição. Todos os corpos sepultados nos "campos santos" têm uma característica comum, fruto da tradição local: estão enterrados com os pés virados para o lado do Rio. "É uma lenda do povo. Não pode enterrar com os pés virados para a mata", explicou Silva.
Segundo Zoccal, da Santo Antonio Energia, apenas parte dos corpos enterrados estavam dentro de caixões. "Caixões somente nos mais recentes, os mais antigos estavam embrulhados em lençóis ou em redes", disse.
OESP, 13/08/2010, Economia, p. B6
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