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US$ 144 milhões para salvar mata atlântica

OESP
Autor: José Maria Tomazela
15 de jul de 2001

Verba internacional é metade da liberada para a Amazônia, mas mostra importância da área.
Os governos e entidades internacionais que financiam o Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais do Brasil (PPG7) pretendem investir US$ 114 milhões em projetos de conservação dos 100 mil quilômetros quadrados de mata atlântica que restam no País. A verba, embora bastante inferior aos quase US$ 300 milhões que o programa já destinou à região amazônica, representa o maior volume de recursos oferecido por organismos mundiais a esse ecossistema. A primeira parcela, cerca de US$ 10 milhões, foi doada pela Alemanha e deve ser liberada no próximo ano. O Grupo Consultivo Internacional (IAG) percorreu esta semana os trechos mais representativos da mata atlântica e vai recomendar os investimentos ao PPG7. "Estamos dando apenas o empurrão inicial, pois o Brasil tem dinheiro e deve investir mais em política ambiental", afirma o vice-presidente do IAG, o francês Hervé Théry. Para o ambientalista João Paulo Capobianco, presidente do Instituto Socioambiental (ISA), a importância da mata atlântica finalmente começa a ser reconhecida lá fora. "Isso fica claro pelo redirecionamento dos recursos PPG7, que antes tinha repassado apenas US$ 6 milhões a projetos nesse bioma." Parte do dinheiro está sendo negociada com a Finlândia, Islândia, Noruega e Espanha. O PPG7 quer que o governo brasileiro dobre sua contrapartida, que é de 10%. "O Brasil é a nona potência econômica mundial e os investidores sentem-se tentados a investir na África e em outras regiões mais pobres", pondera Théry. O Subprograma de Projetos Demonstrativos (PDA) contemplado com a verba foi aprovado pela comissão conjunta, integrada por representantes dos investidores e do governo brasileiro. De acordo com Théry, partiu do ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, a decisão de dar atenção especial à mata atlântica nesta fase. "O enfoque principal é melhorar a estrutura e garantir as unidades de conservação já existentes", afirma o secretário técnico-adjunto do PDA, Wigold Schaffer. Ecoturismo - Projetos de ecoturismo, de interligação de fragmentos e matas e de criação de parques municipais podem ser contemplados com recursos. Muitas propostas já foram encaminhadas à comissão, mas ainda há prazo para novos projetos. As negociações interministeriais para a definição dos recursos ocorrem entre outubro e novembro. Os integrantes do IAG visitaram quatro Estados nos últimos dias para ver de perto a situação da floresta. No Rio Grande do Sul, receberam uma boa notícia: levantamento realizado pela Universidade Federal de Santa Maria mostrou que, nos últimos oito anos, a área coberta pela mata cresceu 33 mil quilômetros quadrados. "É verdade que 11 mil quilômetros ainda são de capoeiras, mas não deixa de ser um sinal importante", disse o presidente do IAG, o inglês Anthony Hall. Indícios de recuperação foram observados também em Santa Catarina e no Paraná. Nesse Estado, o grupo visitou um projeto ambiental privado e o Parque Nacional de Iguaçu. O maior interesse dos consultores era verificar a estrutura das reservas e ter contato com as populações que vivem nas matas. Isso foi possível no Vale do Ribeira, região sul de São Paulo, onde se concentram oito unidades de conservação administradas pelo Estado e cerca de 50 comunidades quilombolas. O ISA e o Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica coordenaram visitas aos parques estaduais de Jacupiranga e da Ilha de Cardoso, e contatos com moradores do quilombo de Ivaporunduva, no município de Eldorado, e com extratores de ostras, em Cananéia. Quilombolas e extratores de ostras já receberam verbas do PPG7. No quilombo, os 60 moradores têm ajuda para melhorar a produção de bananas orgânicas e preservar a área de 3,1 mil hectares, praticamente intocada. Conservação - Em Cananéia, o trabalho começou há três anos com a criação de uma reserva extrativista no manguezal na tentativa de disciplinar uma atividade que se tornava predatória. Os 43 cooperados adquiriram equipamentos, veículos e construíram uma estação depuradora de ostras. Também montaram viveiros de engorda dos moluscos. O roteiro incluiu um encontro com gerentes de parques estaduais em Iporanga. De acordo com Théry, o grupo ficou convencido da necessidade de investir na conservação de um ecossistema que se mantém quase íntegro numa área de intensa pressão humana, como o trecho entre os Estado de São Paulo e Curitiba. O problema é que os investidores estrangeiros não conhecem a mata atlântica. "Para eles, no Brasil só existe a Amazônia."
Situação dos parques impressiona grupo A falta de investimento nos parques estaduais de mata atlântica do Vale do Ribeira causou má impressão nos integrantes da comitiva do PPG7. No Parque Estadual do Jacupiranga eles encontraram a Caverna do Diabo sem monitores próprios, apenas voluntários, e com sérios problemas de iluminação. A gruta, uma das maiores e mais conhecidas do Brasil, é a única iluminada, mas as luzes são inadequadas. Nos pontos iluminados artificialmente crescem musgos, líquens e samambaias que não ocorreriam de forma natural. A iluminação causou o desaparecimento do bagre cego. Segundo a gerente Gina Guerra de Andrade, um novo projeto de iluminação foi aprovado há três anos, mas a verba de R$ 35 mil não foi repassada. O vice-presidente do Grupo Consultivo Internacional (IAG), Hervé Théry, não deixou de notar o gado que pastava em área desmatada em encosta de morro, no interior do parque. O holandês Derk de Groot, um dos consultores, observou que no Brasil havia muito desperdício. No Parque Estadual da Ilha do Cardoso chamou a atenção dos visitantes a estrutura de quatro prédios amplos sem uso. "É mesmo um elefante branco, mas recuperamos os prédios que estavam abandonados", avaliou o gerente Marcos Campolim. A falta de funcionários e de guarda-parques compromete os projetos nos entornos e a fiscalização contra os palmiteiros nos parques da região. "Estamos no bico do corvo", disse o gerente do Intervales, Rinaldo Campanhã, resumindo a situação das unidades de conservação.
(JOSÉ MARIA TOMAZELA-Estado de S. Paulo-SP-15/07/01)

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