VOLTAR

Uma revolução feminina na floresta

O Globo, Sociedade, p. 47-48
19 de out de 2014

Uma revolução feminina na floresta
Índia Yawanawá vence preconceito e faz revolução feminina na floresta
Rucharlo, de 35 anos, dá novo status às mulheres da etnia em aldeia distante sete horas de barco do município acriano mais próximo

Mariana Sanches

TARAUACÁ, Acre - A voz é mansa. O tom é baixo. A fala é pausada. Rucharlo Yawanawá, de 35 anos, conversa como se a tranquilidade a habitasse. Nunca encara o interlocutor nos olhos, não gesticula, não grita ou gargalha. Seus modos contrastam com a revolução que liderou em sua própria vida e na tribo Yawanawá. Em uma aldeia no meio da densa Floresta Amazônica e distante sete horas de barco do município acriano mais próximo, Rucharlo se tornou a primeira mulher pajé - líder espiritual - de seu povo e, talvez, do país. É um raríssimo caso de liderança espiritual indígena feminina no Brasil.
O xamã ou pajé é, ao lado do cacique, a maior autoridade de um grupo indígena. No caso dos Yawanawá, são eles os guardiões dos conhecimentos da tribo, desde a medicina até as artes. Acredita-se que tenham dons sobrenaturais - de adivinhação, de cura e até mesmo de matar inimigos telepaticamente. Fazem também a interlocução entre os vivos e os ancestrais. Segundo a sabedoria indígena, são os espíritos que ensinam ao pajé os segredos mágicos. Tais comunicações acontecem em rituais em que os líderes espirituais tomam ayahuasca (chamada por eles de uni) e inalam rapé (uma mistura de tabaco em pó e da casca moída de uma árvore amazônica chamada por eles de tsunu).
O efeito alucinógeno e estimulante das substâncias permitiria aos xamãs entrar no mundo dos mortos e nos sonhos das pessoas doentes. As doenças, segundo os Yawanawá, sempre têm explicação espiritual. E é o xamã quem descobre a causa do problema nessas incursões oníricas. Os pajés gozam de tanto respeito entre os Yawanawá que, com frequência, eles preferem fazer o tratamento religioso a recorrer à medicina convencional. Em caso de picada de jararaca, por exemplo, toda a família faz uma dieta, e a ferida é tratada com ervas, enquanto que, em hospitais convencionais, normalmente recorre-se à amputação do membro ferido. Dadas a escassez de recursos médicos e a distância entre a tribo e serviços hospitalares básicos, muitas vezes os ritos mágicos do pajé são a única opção.
PROCESSO AFUGENTOU OS HOMENS
Nesse contexto, é de se imaginar que muitos queiram se tornar pajés. Mas, além de vocação, o processo de formação de xamãs exige tantos sacrifícios e provações que, no começo dos anos 2000, a tribo enfrentou uma crise.
- Os pajés foram morrendo, e havia o risco de perdermos esse conhecimento. Os únicos que sobraram foram o Yawá e o Tatá - afirma Rucharlo, referindo-se a dois xamãs que, hoje, têm 102 e 97 anos, respectivamente.
O processo para se tornar líder espiritual é, assim como o uso da ayahuasca, milenar. Até 2005, era também exclusivamente masculino. Para que o conhecimento seja revelado, é preciso que o índio coma um tubérculo considerado sagrado (o mucá) e passe um ano isolado dentro da floresta, sem contato com ninguém além dos demais pajés. A dieta é rigorosa: ao longo de 12 meses, não se pode tomar água nem comer carne de grandes animais. A alimentação se restringe a pequenas quantidades de uma bebida de milho chamada caiçuma e de peixes menores do que a palma da mão, além de banana verde. O recluso não pode ter contato com alimento adocicado - nem mesmo frutas. Os aspirantes a pajé recebem doses diárias de ayahuasca e de rapé e têm que manter a pele coberta pela tinta preta extraída do jenipapo. Eventualmente, devem tomar pequenas quantidades da saliva de uma jiboia, considerada a dona da sabedoria entre os indígenas. São proibidos de ver ou mesmo ouvir a voz de filhos e companheiros. Sexo, nem pensar. De tão penoso, o processo afugentava os homens.
- Vários deles já tinham tentado fazer a dieta e não tinham conseguido terminar. Por isso, quando Rucharlo resolveu se candidatar para a missão, esses homens se sentiram humilhados. O povo inteiro se revoltou, a vontade dela soava como um insulto para os espíritos dos velhos ancestrais. Nunca se havia visto nada parecido - afirma Júlia Yawanawá, irmã da agora pajé.
Até então, as mulheres eram proibidas até de se sentar ao lado das autoridades religiosas máximas, de tomar a ayahuasca, de participar dos rituais, de cantar as músicas tradicionais do povo.
- Havia muita resistência da tribo porque todo mundo tinha essa ideia de que a mulher não seria capaz de ser pajé - admite Shaneiru Yawanawá, filho do principal cacique Yawanawá.
Até então, a sina de Rucharlo era semelhante à de muitas mulheres da tribo. Casada aos 10 anos, aos 11 ela pariu o primeiro filho, com apenas sete meses de gestação, porque a barriga de criança não comportou o bebê até o fim. Mãe de família tão jovem, ela não pôde estudar. Relata que sofria espancamentos do marido com frequência. Mas ninguém na tribo intervinha diante das marcas arroxeadas no corpo e no rosto de Rucharlo:
- Quando resolvi fazer a dieta, meu marido disse que me largaria, mas para mim isso já não importava. Minha mãe ficou desesperada, achava que eu ia morrer. Os pajés riram de mim. Virei piada, mas fui em frente.
DESENHOS EXPOSTOS NO RIO E EM MINAS
No período da reclusão, começou a desenhar as revelações que recebia. Sem conhecer as letras, ela se fazia entender e registrava seu aprendizado por rabiscos. De tão bonitos, seus quadros já foram expostos em museus no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. Com o tempo também descobriu que tinha o dom de "sentir o cheiro das doenças", como descreve - habilidade fundamental para qualquer curandeiro. Mas, no processo, também chegou muito perto da morte. Aos nove meses de isolamento, acabou sendo levada a um hospital em Rio Branco com anemia severa. Mal se levantava. Recusou-se a fazer qualquer tratamento:
- Eu tinha que provar que era capaz. Sabia que era minha missão colocar as mulheres em um novo patamar, eu tinha que resistir - afirma Rucharlo, que foi se recuperando aos poucos, com um reforço da alimentação na própria tribo.
Depois que ela se formou, outras cinco mulheres passaram pelo ritual. Quando a reportagem do GLOBO visitou a aldeia, Mariazinha Yawanawá, de 45 anos, que já é cacique por lá, completava sete meses de reclusão no processo para se tornar também pajé. Suas bochechas macilentas e seu tom de pele pálido denunciavam o sacrifício do corpo. Ela perdera cerca de 20 quilos no período. E já sabia possuir o dom da premonição.
- No ritual, a gente sente falta das coisas mais básicas. Eu sinto muita falta de água. Ao mesmo tempo, não encontro barreiras para o conhecimento. O mundo todo é diferente depois da experiência - disse Mariazinha, em tom quase inaudível e ainda mais lento que o de Rucharlo, em uma entrevista breve e que teve que ser autorizada, segundo os índios, pelos espíritos.
Na crença indígena, pajés são seres evoluídos, a meio caminho entre os vivos e os mortos. Por isso falam vagarosamente e não encaram um olhar. Se o mundo de Rucharlo mudou depois de sua experiência, ela também mudou a tribo e o mundo das demais mulheres da aldeia.

Retratos de uma cultura em transformação
Mulheres de diferentes idades coprotagonizam evolução nos costumes dos Yawanawá
Apesar da recente emancipação feminina, vários aspectos do modo de vida antigo permanecem intocados

Mariana Sanches

TARAUACÁ, Acre - "Foi uma nova era para as mulheres, como se elas tivessem finalmente levantado a cabeça depois de séculos. Saíram de debaixo do fogão a lenha". A frase de Julia Yawanawá, de 33 anos, casada e mãe de oito filhos, descreve o resultado provocado pela vontade individual de Rucharlo Yawanawá de se tornar uma pajé. Ao obter um título e um reconhecimento que antes eram restritos aos homens, Rucharlo foi capaz de equiparar a posição feminina à masculina. E abriu caminho para que Mariazinha se tornasse a primeira cacique de uma das oito tribos Yawanawá, antes de começar seu processo para também virar pajé. Sem jamais ter lido nenhuma das obras das feministas europeias da década de 1960, que tanto influenciaram as sociedades ocidentais, Rucharlo iniciou uma revolução de gênero.
Historicamente, às mulheres sempre couberam os cuidados com as crianças, a casa e o trabalho pesado na roça. Aos homens, a organização política, a caça, a pesca, as artes da guerra, da medicina tradicional e da religião e a defesa da tribo. Das mulheres também sempre se esperou obediência aos homens.
- Quando éramos crianças, na época do meu avô, os maridos podiam até mesmo matar suas mulheres sem nenhuma punição. Elas eram como animais para eles. Quando iniciei a reclusão para ser pajé, fui querendo quebrar esse tabu. Via o quanto as mulheres apanhavam. Quando saísse de lá, prometi a mim mesma que nunca mais ia querer ver um homem bater numa mulher - afirma a pajé, ela mesma vítima de violência doméstica em várias ocasiões.
CACIQUE AINDA COME PRIMEIRO
As índias contam entre risos alguns episódios em que Rucharlo interveio em brigas de casais.
- Uma vez meu marido estava me puxando pelos cabelos, e ela apareceu com um pedaço de pau e o ameaçou. Ele teve que me soltar. Nos últimos anos, os homens entenderam que não poderiam mais bater nas mulheres - conta Júlia, que, mesmo tendo uma caçula de apenas 2 anos entre seus filhos, quer cursar o mestrado na Universidade Federal do Acre, com o apoio do marido.
Apesar dessa emancipação feminina recente, vários aspectos do modo de vida antigo seguem intocados. Enquanto descreve com orgulho o empenho de uma de suas filhas para se formar em medicina em uma universidade de Cuba, o cacique Biracy Yawanawá toma café da manhã. À mesa, há apenas uma mulher entre dez presentes: a repórter. As mulheres se apressam em servi-lo com esmero e fartura. Comerão depois que os homens terminarem, junto das crianças. Outra das filhas do cacique, de apenas 14 anos, embala a filha de dois meses nos braços, próxima à mesa. O assunto é delicado. O cacique preferia que a filha tivesse se dedicado a estudar em vez de formar família prematuramente. Mas, diante da gravidez inesperada, aceitou que ela casasse com um primo, 16 anos mais velho. Apesar da diferença de idade, esse tipo de união costuma ser aceita pelos indígenas. Outra particularidade dos Yawanawá é que o cacique pode ter quantas mulheres quiser. Biracy chegou a ter cinco, habitando a mesma casa. Com elas, teve 32 filhos.
Um aspecto tradicional da vida das mulheres está prestes a desaparecer. Há dois anos nasceu a última criança na aldeia, de parto natural. Desde então, todas as crianças foram paridas em hospitais, muitas por meio de cesarianas. As parteiras da tribo estão ficando velhas e dizem que nenhuma mulher jovem quis aprender como realizar um parto de acordo com a medicina tradicional.
- Elas todas dizem ter medo de fazer o parto, não aguentam nem olhar. E também não querem ter os filhos aqui. Temem sofrer demais, como eu, que passei nove dias em trabalho de parto até que minha filha nascesse - conta Juliana Yawanawá, de 60 anos, que diz ter auxiliado no nascimento de mais de 50 bebês na tribo.
Alguns homens indígenas que hoje trabalham como agentes de saúde na aldeia até mostraram interesse em aprender as técnicas tradicionais, mas o esforço foi em vão: as indígenas só aceitam ser tocadas por parteiras. Se as mulheres conseguiram quebrar o tabu e descobrir os segredos dos pajés, os homens não conseguiram fazer o caminho inverso e conhecer os segredos delas.

O Globo, 19/10/2014, Sociedade, p. 47

http://oglobo.globo.com/sociedade/india-yawanawa-vence-preconceito-faz-…

http://oglobo.globo.com/sociedade/mulheres-de-diferentes-idades-coprota…

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.