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Uma nova pandemia pode começar no Brasil

Envolverde - https://envolverde.cartacapital.com.br/uma-nova-pandemia-pode-comecar-no-brasil/
12 de mai de 2020

Uma nova pandemia pode começar no Brasil

Dal Marcondes 
Robson Rodrigues - 

Especialistas alertam que proximidade entre seres humanos e animais selvagens, degradação ambiental e mudanças climáticas podem dar início a outras grandes doenças infecciosas

Se o Brasil não reverter os danos aomeio ambiente, outras pandemias tão perigosas como a do novo coronavírus(Covid-19) poderão surgir aqui e se espalhar para o mundo. Por enquanto isso ésó um indicativo dos cientistas, porém a degradação ambiental em biomasbrasileiros reproduz padrões semelhantes aos que fizeram surgir a doença naChina.Até o momento não houve nenhuma pandemiaoriginária de florestas tropicais brasileiras, porém à medida que entramos emcontato com espécies silvestres, a possibilidade de zoonoses chegarem àspessoas por meio de variações de vírus antes hospedados em animais é cada vezmaior."É possível que uma nova pandemia comece no Brasil. Não temos ideia do contingente de espécies que não conhecemos e que estão na Amazônia e quais microrganismos essas espécies carregam", diz Nurit Bensusan, pesquisadora do Instituto Socioambiental (ISA). Nurit conta que esses microrganismos sempre estiveram presentes nas florestas ou em animais selvagens, os coronavírus possuem antepassados em morcegos e as cepas estão infestando o planeta. Não é possível afirmar com certeza que isso acontecerá, mas a intervenção humana no ambiente pode abrir brechas para doenças infecciosas. "É como brincar com fogo. Você pode nunca se queimar ou pode incendiar o mundo", diz a cientista. Com a chegada do período de estiagem, oBrasil pode entrar numa nova temporada de queimadas, garimpo ilegal edesmatamento pior do que ocorreu em 2019 quando uma área de 9.762 km2 daAmazônia Legal foi devastada, segundo dados do Instituto Nacional de PesquisasEspaciais (Inpe).Na análise de Ricardo Abramovay,professor sênior do Programa de Ciência Ambiental da USP, uma série depatologias se intensificaram nos últimos 40 anos - como HIV, Ebola, Sars e Mers- como resultado do desequilíbrio ambiental."Essas doenças infecciosas emergentestêm por origem vírus que partem de regiões florestais das quais as sociedadeshumanas acabaram se aproximando", diz.Caixa de PandoraNos últimos anos o Brasil avançou emprojetos agropecuários, mineração, construção de hidrelétricas, expandiu afronteira agrícola, abriu rodovias e facilitou o acesso a regiões até antes nãohabitadas, atendendo condições para emergência ou reemergência de moléstias.A malária e a febre amarela, porexemplo, reapareceram em regiões nas quais haviam sido supostamente erradicadase estão se espalhando para áreas não afetadas anteriormente. Esse aumento podeser atribuído à maneira pela qual foi ocupada a região da floresta amazônica eé acentuado pelas mudanças no clima."Uma série de doenças típicas de regiõestropicais que surgiram como epidemias no Brasil estão associadas às mudançasclimáticas", afirma Abramovay.O Congresso Europeu de MicrobiologiaClínica e Doenças Infecciosas (ECCMID)apresentou um estudo em 2019 mostrando que a distribuição geográfica deenfermidades transmitidas por vetores, como chicungunha, dengue, zika eleishmaniose, está se expandindo estimulada pelo aquecimento global. A pesquisaaponta que os casos devem aumentar nos próximos anos em decorrência do climamais quente e úmido, que favorece a reprodução de larvas dos mosquitos epossibilita a adaptação dos vetores a outras regiões.Isso deve piorar, pois mesmo que todosos países cumpram com o Acordodo Clima de Paris, a temperatura do planeta pode aumentar até 3,2 grausCelsius. O cólera depois de décadas reapareceu favorecido pelo aquecimento daságuas. O vibrião chegou ao Brasil trazido em navios com água de lastro e oesgoto favoreceu a propagação da doença.Novo habitatCientistas alertam que à medida quepopulações avançam sobre as florestas, aumenta o risco de microrganismosmigrarem para o cotidiano humano. Essa redistribuição de vetores para novoslocais de propagação pode abrir caminho para que as enfermidades ganhem novasfaces."O Ebola era um vírus que surgia nasaldeias e matava localmente. Nesta última epidemia de Ebola as pessoas nãoestavam mais concentradas em aldeias, a doença foi para a periferia do grandecentro numa condição sanitária péssima e se espalhou dentro da cidade grande efoi muito mais difícil de conter", diz Flávia Trench, médica infectologista edocente da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila).Trench explica que as condições depermanência e circulação dos patógenos estão fortemente associadas com a formade organização dos centros urbanos, com o modo de vida das pessoas, com acrescente densidade populacional e a mobilidade extrema, que criam condiçõespropícias para a proliferação dos vetores."Se a sociedade continuar mantendo osmesmos comportamentos que temos hoje, existe a possibilidade de aumento dopotencial pandêmico de vírus respiratórios", prevê a infectologista.Perda da biodiversidadeA devastação das florestas já causou aextinção de inúmeras espécies e consequentemente um desequilíbrio ecológico. Naanálise do presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental, CarlosBocuhy, a floresta amazônica é um grande centro de biodiversidade, temimportância na transposição hídrica continental e equilíbrio climático."A floresta é fundamental para aregulação climática e manutenção de carbono, nesse sentido a Amazônia tem umafunção social e ecológica planetária".O alerta que o especialista faz é que seas queimadas e incêndios continuarem, o sistema amazônico pode atingir um pontode inflexão, ou seja, chegar a um limite irreversível em que ela não pode maisse recuperar.Destruir a natureza empurra insetos epragas para perto de populações humanas e alteraram os padrões de transmissãode doenças infecciosas. Uma pesquisa do Instituto de Pesquisa EconômicaAplicada (Ipea)nos municípios da Amazônia mostrou que o aumento de casos de malária e deleishmaniose está relacionado com o número de hectares desmatados. Os vetoresdessas doenças dependem de ambientes mais iluminados e à medida que vamosabrindo mais áreas teremos cada vez mais casos.Outros biomas brasileiros, como Cerrado,Caatinga e Mata Atlântica seguem o mesmo caminho de devastação.Uma perspectiva sombriaNeste início de milênio, o principalreceio dos estudiosos é que a humanidade seja vítima de uma pandemia quecombine alta capacidade de contaminação com enorme poder para matar um grandenúmero de infectados.Isso porque muitas doenças ressurgiramno mundo com novas identidades e com novos padrões de comportamento. Exemplodisso é o vírus influenza A, da gripe H1N1, que tem uma grande capacidade derecombinação genética.O Brasil é referência em produção deproteína animal e tem uma vigilância sanitária considerada eficiente a ponto deconter novas zoonoses. O problema, na avaliação de Ricardo Abramovay, podeestar no uso excessivo de antibióticos em criações de animais e peixes emcativeiro."Cerca de 70% dos antibióticos daindústria farmacêutica são oferecidos para animais. Os dejetos desses animaisvão para o ambiente e consequentemente nós acabamos ingerindo. Esse é um dosfatores que produzem resistência de bactérias a antibióticos".A consequência dessa seleção e mutaçãode patógenos é que em uma epidemia de natureza não viral, o combate debactérias por meio desta conquista científica pode ser reduzido.

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