O Globo, Ciência, p. 48
18 de Dez de 2009
Uma noite para salvar o mundo
Reunião de emergência entre líderes de 25 países tenta evitar fracasso da convenção
Chico de Gois, Deborah Berlinck e Roberta Jansen
Enviados especiais Copenhague
Uma reunião de emergência entre chefes de Estado e governo de 25 economias ricas e emergentes foi convocada na noite de ontem para tentar salvar a Convenção das Nações Unidas para Mudanças Climáticas do que parecia ser um retumbante fracasso. A reunião foi costurada pelos presidentes Nicolas Sarkozy, da França, e Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil. Sarkozy propôs, com a adesão de Lula, que, após um jantar oferecido pela rainha Margaret II, os líderes mundiais se reunissem para buscar um consenso.
No início da madrugada de hoje, negociadores que participaram da reunião afirmaram que os países estariam muito perto de firmar um documento com força de lei. No encontro, foram discutidos os principais pontos do acordo climático - limite de aumento de temperatura, metas de redução de emissões, financiamento - que, mesmo depois de duas semanas de negociação, permaneciam em aberto antes do início oficial da reunião dos chefes de estado.
Após a reunião, ao chegar ao hotel onde está hospedado, Lula demonstrou bom humor: - Estou rindo para não chorar - disse, quando perguntado se tudo tinha corrido bem. - Estamos conversando (nas negociações) - completou o presidente.
Brasil e China fecham posição por metas legais
Lula admitiu que, até anteontem à noite, havia um grande pessimismo. Nas três conversas bilaterais que manteve, incluindo o telefonema trocado com Obama, Lula ouviu apelos para que o Brasil ajudasse a concluir as negociações.
- Seria imperdoável para a Humanidade se jogássemos fora (a conferência de) Copenhague - disse Lula. - Se não tivermos como reunir os líderes e tomar decisão, corremos o risco de sermos fotografados como os líderes que foram incompetentes para cuidar do clima.
Sarkozy minimizou o fato de Obama não estar presente na reunião da noite de ontem. O presidente americano chega hoje a Copenhague, onde ficará por, no máximo, nove horas:
- Ontem, Lula falou com Obama, e eu também falei. Conhecemos bem suas posições e sabemos em que pontos podemos solicitar maior esforço dos Estados Unidos.
Durante o dia, a secretária de Estado americana Hillary Clinton anunciou que os EUA iriam participar de um fundo de US$ 100 bilhões por ano até 2020 para ajudar os países pobres a lidar com o aquecimento global. Foi a primeira vez que os americanos mencionaram uma cifra para financiamento a longo prazo. Porém, além de anunciar uma quantia considerada pequena - os países em desenvolvimento pedem US$ 350 bilhões anuais - Hillary não especificou qual seria a participação americana no fundo.
E, ainda, a secretária dos EUA afirmou que a oferta teria como condição que o acordo em Copenhague tivesse "transparência". Foi uma menção à insistência americana para que os países em desenvolvimento aceitem verificação internacional de suas ações contra o aquecimento global, o que encontra resistência em China, Brasil e outros grandes emergentes.
O vice-ministro das Relações Exteriores da China, He Yafei, afirmou que o anúncio dos americanos era um "bom primeiro passo". Em Pequim, autoridades do governo chinês afirmaram que o país estava disposto a "dialogar e cooperar" sobre suas emissões "desde que não houvesse intromissão na soberania chinesa".
China e Brasil fecharam posição ontem, ao lado de Índia e África do Sul, para pressionarem os países ricos a assinarem, em Copenhague, um acordo legalmente vinculante - ou seja, um documento que, a exemplo do Protocolo de Kioto, tenha força de lei para seus signatários. O primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, reuniu-se com Lula pela manhã.
Segundo a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, chefe da delegação brasileira, China e Brasil concordam que é preciso ter "responsabilidades comuns, mas diferenciadas", ou seja, que cabe aos ricos um esforço maior. Mas Dilma disse também que isso vai se expressar em "ações concretas dos países em desenvolvimento". Segundo a ministra, China e Brasil concordaram em aceitar, em suas ações de combate ao aquecimento global que têm apoio internacional, o monitoramento externo - através de metas mensuráveis, reportáveis e verificáveis:
- Defendemos que, com base em critérios definidos internacionalmente, se façam monitoramentos e relatórios em níveis nacionais, e que esses documentos sejam encaminhados, por exemplo, a um painel intergovernamental de mudanças de clima da ONU.
O negociador-chefe da delegação brasileira, Luiz Alberto Figueiredo, afirmou que o país não tem medo da transparência.
- As ações apoiadas por recursos externos terão monitoramento. Mas, para ações voluntárias unilaterais, os países fazem por seus próprios meios.
Solução, agora, terá que ser política
Demonstrando otimismo diante da reunião prevista para ontem à noite, Lula disse acreditar que, apesar de não se obter um acordo perfeito, seria possível chegar a um consenso possível. O presidente francês, por sua vez, foi duro sobre a possibilidade de fracasso da conferência:
- Quem quer o fracasso que o assuma. Nós não vamos nos associar a eles.
De fato, se existe qualquer possibilidade de sucesso na reunião de Copenhague, ela está, agora, nas mãos dos chefes de Estado.
- Não sei que saída vão dar, mas, a essa altura, terá que ser política - afirmou a diretora de Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente, Branca Americano.
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, se mostrou otimista com a presença dos líderes mundiais:
- Os principias atores estão aqui. Se eles não puderem fechar um acordo, quem pode?
Quinta categoria
Opinião
A dupla bolivariana Evo Morales e Hugo Chávez apresentou seu número predileto no palco de Copenhague. Culpou o "capitalismo" e o "império" (leia-se, os Estados Unidos) pelos impasses na cúpula.
Cabe esclarecer: os dois vivem de vender poderosos emissores de carbono - gás e petróleo. Evo fatura junto ao Brasil; Chávez tenta executar seu projeto de "socialismo do século XXI" com os dólares do "império".
É para cenas como esta, de teatro de quinta categoria, que o Senado brasileiro decidiu abrir espaços no Mercosul.
O Globo, 18/12/2009, Ciência, p. 48
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