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Uma guerreira no comando da Casa do Índio

O Globo, Rio, p. 29
10 de Jun de 2007

Uma guerreira no comando da Casa do Índio
Eunice Cariry batalha há 39 anos para manter a instituição, que acolhe nativos portadores de deficiências

Paula Autran

Filha de um índio cariri e viúva de um xerente, Eunice Alves Cariry Serominé é uma guerreira urbana. Advogada de 72 anos, com vasto currículo no Serviço de Proteção ao Índio, desde 1959 ela briga pela causa.

Há 39 anos, a razão principal dessa luta é a Casa do Índio, um imóvel de 400 metros quadrados na Ilha do Governador onde vivem 33 índios de tribos de todo o país, todos portadores de deficiência física ou mental grave, que foram rejeitados por suas comunidades.

A casa fundada e dirigida por Eunice - cujo terreno ela descobriu, convenceu a Fundação Nacional do Índio (Funai) a alugar e, depois, comprar - foi reformada em mutirão na década de 80 e, desde o fim da década de 90, integra o organograma da Fundação Nacional de Saúde (Funasa). Mas, por suas características pouco convencionais, não é bem aceita pela direção do órgão federal. E, desde janeiro de 2006, vive de doações.

Falta café, farinha, carne, fralda... - enumera Maria Helena, índia acolhida pela casa.

- Sou especialista em administrar miséria. Já contei os dentes numa cabeça de alho para dividir pelo maior número de dias - diz Eunice, carinhosamente chamada de Eunice, acrescentando que as compras estariam garantidas se chegassem à instituição os R$ 130 mil anuais aprovados no Plano Plurianual 2004-2007, da Funai. - Para isso, falta eles reativarem nossa atividade gestora e transformarem a casa em centro especial de assistência. Não somos casa de saúde. Os doentes são atendidos pelo SUS.

Os alojamentos, divididos em masculinos e femininos, lembram ocas por sua organização.

Num dos maiores, em cujo centro está uma foto do marechal Rondon, um cantinho está reservado para a própria Eunice, que dorme lá quase todos as noites, ao lado das pessoas com quem há anos convive como em família. Seu único filho, inclusive, é enfermeiro pós-graduado em psiquiatria social e dá expediente na casa. Ao todo, são 13 pessoas revezando-se em dois turnos para atender a verdadeira e entrosada tribo.

Se tiver que cozinhar e fazer a faxina, eu mesmo faço.

Preciso apenas de funcionários para serviços gerais. Há índios que estão aqui há 38 anos e me ajudaram a cuidar dos mais novos diz Eunice.

O Globo, 10/06/2007, Rio, p. 29

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