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Uma flora em alerta vermelho

CB, Brasil, p. 13
24 de mar de 2006

Uma flora em alerta vermelho

Documento destaca que pode subir de 107 para 1.538 o número de espécies de plantas que correm o risco de extinção no país. Lista mostra que oito delas já desapareceram e cinco só existem em jardins ou coleções

As notícias não são nada boas em relação à flora brasileira. Nova lista vermelha elaborada pela comunidade científica, a pedido do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), mostra que o número de espécies de plantas oficialmente ameaçadas de extinção no Brasil poderá saltar de 107 para 1.538. O levantamento, coordenado pela organização Biodiversitas, foi efetuado com a participação de quase 300 pesquisadores ao longo dos últimos dois anos. O documento final foi entregue ao Ministério do Meio Ambiente (MMA) em dezembro e aguarda a aprovação do governo para ser oficializada. A lista atual é de 1992.

"Esse é o quadro real. É a lista apresentada pela comunidade científica", disse Glaucia Drummond, superintendente técnica da Biodiversitas, que está em Curitiba participando da 8ª Conferência das Partes (COP 8) da Convenção sobre Diversidade Biológica das Nações Unidas.

A lista, entretanto, ainda pode ser alterada pelo ministério. Foi o que ocorreu com a divulgação da última relação de fauna ameaçada, em 2004, quando o governo adiou a homologação das listas de peixes e crustáceos por acreditar que a inclusão de algumas espécies poderia causar prejuízos econômicos e sociais às atividades de pesca, que ficariam proibidas com a nova classificação.

A seleção das espécies foi feita de acordo com os critérios internacionais da União Mundial paraa Natureza (IUCN), organização que coordena a elaboração de listas vermelhas (como são chamadas as relações de espécies em risco) em escala global.

Vulnerabilidade

Cerca de 20% das espécies brasileiras (619) entraram para as categorias mais graves de ameaça, consideradas "em perigo" ou "criticamente em perigo". Outras 60% (919) foram consideradas "vulneráveis" - também ameaçadas, mas sem risco imediato de extinção. Oito espécies foram consideradas completamente extintas. Outras cinco, extintas na natureza, com exemplares sobreviventes apenas em jardins botânicos ou outras coleções de flora.

Mais de 80% das espécies de plantas ameaçadas estão na mata atlântica (45,59%) e no cerrado (35,25%), o que confirma a posição desses dois biomas como os mais ameaçados do país. Em seguida vêm caatinga (10,33%), pampas (4,13%), Amazônia (4,07%) e pantanal (0,63%).

Ao todo, foram analisadas mais de 5 mil espécies, das cerca de 65 mil conhecidas no país. Para 2.526 delas, apesar da suspeita inicial de ameaça, não houve informações suficientes para se fazer uma classificação (categoria conhecida como "dados insuficientes"). Uma indicação clara, segundo os pesquisadores, de que o número real de espécies ameaçadas pode ser muito maior.

União contra os "invasores"

No terceiro dia da COP 8, em Curitiba, o Brasil assinou ontem sua ficha de inscrição para uma iniciativa internacional de combate a espécies invasoras, consideradas a segunda maior ameaça à biodiversidade do planeta
depois da destruição de habitats. O esforço é comandado pelo Programa Global de Espécies Invasoras (Gisp), que divulgou ontem o primeiro relatório consolidado sobre o problema na América do Sul. Apenas no Brasil são mais de 500 espécies invasoras, que podem acarretar prejuízos anuais de US$ 50 bilhões, segundo as estimativas mais recentes do Ministério do Meio Ambiente (MMA).

O relatório América do Sul Invadida foi um dos destaques hoje na COP 8, em Curitiba. Segundo Sílvia Ziller, coordenadora do Programa de Espécies Invasoras da organização The Nature Conservancy para a América do Sul, não é possível calcular o número total de espécies invasoras para a região, por causa de falta de conhecimento e monitoramento. "Alguns países têm informações coletadas, mas não de uma forma organizada", disse. A única certeza, segundo ela, é que são muitas, e que o impacto sobre o meio ambiente é significativo.

As espécies invasoras são animais, plantas, insetos e outras pragas introduzidas em ecossistemas ao qual não pertencem mas nos quais consegue se desenvolver à custa das espécies nativas. Sem predadores naturais, elas se espalham pelo ambiente atacando espécies locais e competindo com elas por recursos como água, alimento e luz. "Não é que ela vai ser uma espécie a mais; ela vai fazer com outras espécies desapareçam", esclareceu Sílvia.

Exemplos no Brasil incluem plantas e animais conhecidos, como tilápia, carpa, bagre, pinus, camarão da malásia, caramujo africano e o mexilhão
dourado, além de vários tipos exóticos de capim. "Mais de 75% das espécies invasoras no Brasil foram introduzidas intencionalmente para atividades econômicas", ressaltou Sílvia.

O tema é uma das prioridadesdo MMA, segundo o coordenador do Programa de Recursos Genéticos do ministério, Lídio Coradin. "Vamos atacar o problema", garante. Os prejuízos bilionários, segundo ele, referem- se tanto aos custos de combate às espécies invasoras quanto os danos causados por elas ao meio ambiente, à saúde à cadeia produtiva. A participação no projeto do Gisp, chamado Iniciativa dos Dez Países, deverá ser oficializada ainda em Curitiba pela ministra do Meio Ambiente, Marina Silva.

CB, 24/03/2006, Brasil, p. 13

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