Veja, Especial, p. 68-71
Autor: SILVA, Marina
22 de Dez de 2010
Uma evolução silenciosa
Marina Silva
O século XX, o meio ambiente despontou como a grande questão estratégica desafiando os cânones da economia da vida em sociedade e da cultura. No século XXI, a questão permanece no topo de nossos desafios, porém em outra dimensão e escalas meio ambiente não está mais na defensiva contra a corrente. Faz parte de escolhas cujo núcleo é um amálgama indissociável de soluças ao mesmo tempo econômicas, sociais, ambientais e culturais. Não há mais tempo para insistir no equivocado antagonismo entre crescimento econômico e proteção ambiental ou mesmo na sua versão amenizada de "conciliar meio ambiente e produção" como se fossem opostos buscando a convivência possível. Agora o que temos pela frente é a tarefa histórica de pensar todos esses termos como modelo de desenvolvimento, e não mais como retalhos dos diferentes interesses existentes na sociedade.
O século XXI é o tempo de procurar o que há de comum na diversidade de interesses e a partir daí, sem deixar de conservar o que precisa ser conservado, construir o novo inescapável. Nada pode representar mais fielmente o que nos é comum do que a nossa própria sobrevivência e a de nosso planeta, diante da gravíssima crise configurada pelo aquecimento global. A capacidade de adaptação e de rever conceitos é igualmente importante para países, instituições, empresas, indivíduos. Não tê-la (ou, no mínimo, não buscá-la) é praticamente uma autocondenação à obsolescência. As economias sustentáveis, com tecnologias limpas, sepultarão antigas estruturas firmadas em modelos predatórios. Isso deve significar o fim de impérios insustentáveis que, assim como os megabancos tragados logo no início da crise financeira internacional, tendem a desaparecer. Nessa "seleção natural", o poder de decisão estará com a consciência globalizada de uma população cada vez mais atenta, que quer saber a origem do produto, questiona a forma como ele é produzido e descartado, conhece os danos que pode causar ao meio ambiente. E exige ética do mercado e do poder político.
No atual jogo geopolítico, a preservação dos biomas e de sua diversidade é um dos maiores ativos. É isso que decidirá quem vai adiante, adaptando-se aos novos tempos, e quem fica para trás, na poeira da história. O Brasil, detentor de imensa biodiversidade, tem uma responsabilidade específica e pode colaborar fortemente para apontar as saídas, desde que ouça a voz de sua própria população e aposte em educação, inovação, pesquisa científica e integração dos saberes tradicionais associados à natureza. Estamos vivendo a era dos limites e das incertezas, como já foi apontado por inúmeros e respeitados cientistas. Diante disso, é preciso -saber distinguir onde estão nossas verdadeiras riquezas e oportunidades.
É da sociedade que vem a pressão para mudar a lógica destrutiva do modelo de desenvolvimento ainda hegemônico e dar início a novo ciclo, com base na sustentabilidade. Tanto quem vive no campo como nas cidades já entendeu que preservar o meio ambiente não é mero romantismo. O que está em jogo é a qualidade de vida e, claro, a própria vida, como bem o sabem aqueles atingidos por eventos climáticos extremos que muitos ainda teimam em atribuir simplesmente à natureza, absolvendo a intervenção humana. Tal consciência empurra o poder público e as grandes empresas a pôr a mão na massa, repensando seus processos produtivos e suas fontes de energia, abrindo caminho para um desenvolvimento sustentável.
No Brasil, essa silenciosa evolução pode ser vista na pesquisa "O que os brasileiros pensam do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável", uma série histórica que vem sendo realizada desde 1992 pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) em conjunto com o Iser e outras organizações. Os dados da pesquisa feita pelo Instituto Synovate, em setembro e outubro deste ano, em onze capitais, com 1 100 pessoas, mostram que nove entre dez brasileiros acreditam que, "da forma como usamos a água, dentro de pouco tempo não teremos água para beber", e apenas um em cinco concorda que "a preocupação com o meio ambiente no Brasil é exagerada". Há o entendimento de que o preço que se paga pelo crescimento econômico não pode ser o da destruição de nossas riquezas ambientais.
A pesquisa mostra ainda que quase um quinto da população tem lixo eletrônico em casa por não saber o que fazer com ele. Os brasileiros querem soluções para o lixo, a ponto de guardá-lo em casa, esperando por medidas que demoram tanto. A Lei da Política Nacional de Resíduos Sólidos ficou quase vinte anos tramitando no Congresso Nacional. E agora é hora de colocá-la em prática. Outra recente pesquisa, realizada para o Guia Exame de Sustentabilidade 2010, com 143 empresas brasileiras, indicou que 89 % delas incluíram o compromisso com o desenvolvimento sustentável em seu planejamento estratégico. Não apenas por consciência ecológica, mas por perceberem que, sem sustentabilidade, o lucro não será o mesmo. Um novo código de inserção social e, ambiental é garantia de futuro para a empresa. A visão que desconsidera a natureza, as comunidades e o destino do país e do mundo não é uma boa estratégia empresarial. O empresário sabe que está lidando com um consumidor mais consciente, em todos os segmentos sociais.
O avanço da posição do Brasil em 2009, na convenção do clima, a COP 15, em Copenhague, e a formulação de uma política nacional de mudanças climáticas foram fruto dessa pressão da sociedade. Não cabia mais ao governo brasileiro jogar a responsabilidade somente para os países desenvolvidos, eximindo-se de assumir compromissos importantes em relação ao desmatamento e ao incentivo à economia de baixo carbono.
Na COP16, em Cancún, no México, as expectativas são bem menores. Sabe-se que é pequena a possibilidade de amplo acordo global em torno de metas que de fato limitem as emissões de gases do efeito estufa (quando fui convidada a escrever este artigo, a conferência ainda não havia começado). Também não sabemos se irá se repetir a façanha de reunir mais de 100 chefes de estado. Não que a presença deles seja garantia de sucesso, mas dá um sinal simbólico de que se importam. O que vale, no fim das contas, são os acordos assinados.
É interessante verificar que a maior resistência a dar curso a mudanças estruturais está na esfera do poder político. Há um claro lapso entre o desejo popular e a velocidade com que governos respondem a ele. Muitas vezes, em nome de crescimento rápido e fácil, os compromissos são rasgados sem nenhum pudor. Os números imediatos falam mais alto do que a promessa de riqueza e desenvolvimento inteligente que está no horizonte. Como consequência, o discurso mantém o verniz da retórica em favor da preservação da natureza. Mas, na prática, há sempre o risco de retrocesso. É o que vemos agora, no Congresso Nacional. Sob o argumento de atualizar o Código Florestal Brasileiro, vemos ideias atrasadas ganharem força, impondo a lógica do confronto entre meio ambiente e produção agropecuária. Como se fossem inimigos, como se a sustentabilidade de nossa produção não estivesse intimamente ligada à preservação do patrimônio ambiental.
Mais uma vez, é preciso que a consciência da população leve os políticos a rever seus conceitos, a frear o ímpeto de desconstruir os avanços da legislação ambiental, fruto do esforço de diversos segmentos da sociedade brasileira ao longo de anos. O país tem milhões de hectares de área agricultável, em condições de aumentar em muito sua produção agrícola sem destruir o que nos resta de cobertura vegetal nativa, seja no cerrado, na caatinga, na Mata Atlântica ou na Amazônia.
O resultado da última eleição não pode ser ignorado. A "Agenda por um Brasil justo e sustentável" teve imensa aceitação. Não há como desconsiderar isso, despolitizando o voto de quase 20% do eleitorado, que forçou um segundo turno nas eleições presidenciais. Uma parte considerável da sociedade brasileira sinaliza de forma contundente que acolhe sem preconceito o desafio político da sustentabilidade. O país precisa investir fortemente na economia de baixo carbono. Tendo a visão, podemos estabelecer os processos. Tendo a visão e os processos, podemos criar as novas estruturas, sem desprezar o que já se construiu do ponto de vista da legislação e das instituições. O Brasil dispõe de enorme vantagem, em termos globais, no que diz respeito à riqueza ambiental. Não podemos jogá-la fora, pois representa os melhores ativos para a economia do século XXI.
Marina Silva é senadora pelo Partido Verde
Veja, 22/12/2010, Especial, p. 68-71
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