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Uma disputa saudável

O Globo, Economia Verde, p. 21
Autor: VIEIRA, Agostinho
02 de Mai de 2013

Uma disputa saudável

Agostinho Vieira
oglobo.globo.com/blogs/economiaverde

Para alguns cariocas, a melhor parte de uma viagem a São Paulo é a hora de voltar para o Rio. Já certos paulistas acham que este é um balneário decadente e caro, onde não vale mais a pena passar nem um fim de semana. As provocações envolvendo as duas maiores cidades do país são antigas e vão do futebol aos restaurantes. Agora, um novo tema vem ganhando espaço nos debates: qual delas é a mais sustentável?
Um morador do Rio apressado pode dizer que essa comparação não faz sentido. É claro que vivemos numa cidade mais verde e menos poluída. Temos as praias e a Floresta da Tijuca. E eles? Carros, prédios. Não é bem assim. Considerando dez indicadores, o carioca pode se contentar com um honroso empate. Se não for muito apaixonado dá até para admitir uma ligeira vantagem dos paulistas.
Vamos começar pelo trânsito. São Paulo tem mais gente e mais carros. São 11 milhões de pessoas e mais de cinco milhões de carros. O Rio tem seis milhões de habitantes e cerca de 2,6 milhões de carros. A proporção é parecida, pouco mais de duas pessoas para cada carro. O tempo indo de casa para o trabalho também é semelhante: 44 minutos e 18 segundos para nós e 44 minutos e 42 segundos para eles.
Uma vantagem para quem mora em São Paulo é a extensão do metrô. São 74,3 quilômetros de trilhos contra apenas 42 quilômetros do Rio. É verdade que se comparado com cidades como Paris, Londres e Nova York, o tamanho dos nossos metrôs é ridiculamente pequeno. Mas neste item, o ponto é de São Paulo. Por outro lado, 30% dos paulistas vão de carro para o trabalho e só 13% dos cariocas fazem isso.
Já no quesito ciclovias, damos um banho. O Rio tem 300 km de áreas demarcadas para o uso de bicicletas, uma das maiores redes do mundo. São Paulo tem apenas 36 km. Ponto para nós. De acordo com dados da ONG Mobilize Brasil, o Rio também aparece melhor quando falamos de mortes no trânsito. Por aqui, para cada 100 mil habitantes, 5,4 morrem em acidentes deste tipo. Em São Paulo são 12,1 pessoas.
Um dos resultados mais surpreendentes é o da poluição. Segundo a OMS, o ar do Rio apresenta, em média, 64 microgramas de poluentes por metro cúbico. O padrão considerado ideal pela organização seria de 20 microgramas por metro cúbico. Em São Paulo foram registrados 38 microgramas. Não é um número bom, mas é melhor que o do Rio.
Com relação às emissões de gases de efeito estufa, não deveria haver dúvida. Mas há. Em 2005, São Paulo emitia 15,7 milhões de toneladas de carbono. Até 2010 deveria ter reduzido esse número em 20%. Não reduziu. Aumentou. Em 2011 foram 16,4 milhões de toneladas. Os dados de 2011 do Rio só vão ser conhecidos no meio do ano. Em 2005, emitíamos 11,3 milhões de toneladas de CO2. O novo número virá muito parecido com o de São Paulo, porque vai incluir as quase sete milhões de toneladas emitidas pela CSA. Vamos torcer para que fique num empate.
Agora só falta dizer que São Paulo tem mais árvores que o Rio. Tem? Não. Somos muito bons em árvores e ciclovias, apesar da falta de respeito com os ciclistas. O Rio tem 56,28 metros quadrados de área verde por habitante. São Paulo tem apenas 12,5 metros quadrados. Bem perto do padrão sugerido pela ONU, que é de 12 metros. Mas já fomos melhores nisso. Nos anos 80 tínhamos 76 metros quadrados.
É fato que São Paulo gera mais lixo do que o Rio. São 18 mil toneladas de resíduos por dia. Contra pouco mais de nove mil toneladas daqui. Mas lá há uma lixeira na rua para cada 58 habitantes. O Rio tem uma para cada 213 pessoas. O volume de material reciclado é uma vergonha para as duas cidades. Menos de 1% no Rio e quase 2% em São Paulo. O governo de lá promete reciclar 10% até 2016. O nosso promete reciclar 25% até 2016. Um bom concurso de bravatas.
Por falar em promessas, há anos as duas metrópoles falam em despoluir suas águas. As da nossa Baía de Guanabara e as do Rio Tietê. Bilhões já foram investidos nos dois projetos, mas limpar mesmo, nada.
Lá, pelo menos, a mancha de poluição já teria sido reduzida em quase 200 quilômetros. Nos dois casos há uma relação direta com o saneamento básico. E aqui os paulistas também aparecem melhor.
De acordo com o Instituto Trata Brasil, o fornecimento de água na cidade de São Paulo atinge 100% das casas. O esgoto é coletado em 96% das residências e 54% do que é gerado recebe tratamento. No Rio, a água chega à torneira de 91% das casas, 70% do esgoto são coletados e 53% são tratados. Essa é uma boa e saudável disputa. Do tipo que deveríamos fazer questão de ganhar até 2016.

56,2 m²
É a parcela de área verde por habitante no Rio. Quando o tema é sustentabilidade, a quantidade de árvores e de ciclovias são duas vantagens que a cidade tem em relação a São Paulo. Os paulistas têm números melhores em saneamento, reciclagem de lixo e extensão do metrô.

E-mail: economiaverde@oglobo.com.br

O Globo, 02/05/2013, Economia Verde, p. 21

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