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Uma cidade que se lixa para a reciclagem

O Globo, Rio, p. 16-17
18 de Mar de 2012

Uma cidade que se lixa para a reciclagem
Rio só reaproveita 3% das 8,4 mil toneladas de lixo geradas diariamente; Comlurb separa apenas 0,27%

Emanuel Alencar
emanuel.alencar@oglobo.com.br
Rogério Daflon
daflon@oglobo.com.br

A cidade que vai sediar em três meses a Rio+20, a conferência mundial sobre desenvolvimento sustentável, recicla apenas 3% de seu lixo (a média na Europa é de 40%). O desleixo contribui, por exemplo, para sobrecarregar aterros sanitários como o de Gramacho.

Rio só reaproveita 3% das 8,4 mil toneladas de lixo geradas diariamente; Comlurb separa apenas 0,27%. Coleta seletiva é feita em apenas 41 dos 160 bairros e, mesmo assim, parcialmente. Matéria de Emanuel Alencar e Rogério Daflon, em O Globo.

A cidade que vai sediar a Rio+20, conferência da ONU sobre desenvolvimento sustentável, em junho, recicla apenas 3% de seu lixo (252 toneladas das 8.403 geradas diariamente). A Comlurb tem participação mínima nesse percentual já diminuto: só separa 22,68 toneladas, ou 0,27%. Os outros 2,73% ficam a cargo de catadores autônomos ou de cooperativas. Com isso, o Rio - que há 20 anos foi anfitrião do maior encontro sobre meio ambiente da História - joga fora uma oportunidade de se equiparar a metrópoles como Berlim (Alemanha) e Tóquio (Japão), famosas por não desperdiçarem seus recursos naturais. Capitais europeias recuperam, em média, 40% de seus resíduos. Na série de reportagens "Desleixo insustentável", que se inicia hoje, O GLOBO mostra por que os cariocas ainda não têm seu lixo reciclado.

Os motivos são muitos, a começar pela incipiente coleta seletiva. Desde a sua implantação, em 2002, o serviço não deslancha. Poucos cariocas têm o privilégio de receber um caminhão de reciclagem da Comlurb em suas portas. Dos 160 bairros da cidade, apenas 41 são atendidos semanalmente, e, mesmo assim, de forma parcial - por falta de investimentos, a coleta só ocorre em algumas ruas. Hoje, ela apresenta um desequilíbrio entre as áreas do Rio. Está mais presente nas zonas Sul (40%) e Oeste (42%) e bem menos na Norte (18%). Segundo a Comlurb, não existe coleta seletiva em favelas, o que exclui da conta um contingente de cerca de um milhão de pessoas.

- A Comlurb nunca promoveu uma campanha para que a população faça a separação de seu lixo - diz Sérgio Besserman, presidente da Câmara Técnica de Desenvolvimento Sustentável do município.

Parceria de R$50 milhões

A maior esperança da prefeitura, por enquanto, está relacionada a um projeto que parece incapaz de resolver o problema. Assinado no ano passado, um acordo entre o município e o BNDES prevê a aplicação de R$50 milhões para a construção de seis galpões de triagem de materiais recicláveis. Em contrapartida, a prefeitura promete colocar mais 15 caminhões em circulação, expandindo o serviço dos atuais 41 para 120 bairros. Todos esses esforços, se bem-sucedidos, devem ampliar a coleta seletiva em apenas 2%, elevando para 5% o percentual de reciclagem na capital.

Para a presidente da Comlurb, Angela Fonti, a prefeitura precisa atacar as causas que levam aos baixos índices de reciclagem. Ela dá razão a Besserman, admitindo que a Comlurb nunca fez uma campanha de incentivo à coleta seletiva de lixo.

- A primeira causa é a própria falta de uma campanha maciça em prol da reciclagem, algo que faremos com recursos do BNDES. A nossa coleta precisa ser bem mais abrangente também. A maioria das pessoas quer reciclar seu lixo, mas nossos caminhões não passam em boa parte das ruas. E precisamos tornar o mercado legal. Às vezes, moradores de um prédio separam seu lixo e, quando o nosso caminhão passa para pegá-lo, o lixo reciclável já foi roubado. Os atravessadores ilegais precisam ser eliminados - diz Angela. - E há uma corresponsabilidade nessa história. As empresas, por exemplo, como determina a Política Nacional de Resíduos Sólidos, precisam se engajar nesse processo.

Envolvimento este que, na avaliação de Angela Fonti, pode ser reforçado por medidas mais simples:

- Nosso cronograma inclui pegar o lixo orgânico e reciclável dentro das casas e dos prédios. Os galpões vão melhorar as condições de trabalho e dar um fim aos atravessadores, que diminuem o ganho dos catadores.

Hoje, o reaproveitamento do lixo acaba dependendo fundamentalmente da figura do catador. Muitos trabalham em condições precárias, inclusive na Comlurb - repórteres do GLOBO flagraram trabalhadores sem luvas dentro da usina do Caju.

Situações como essa levaram o governo federal a cobrar uma ação concreta dos municípios, exigindo que apresentem, até agosto, uma proposta de adequação à lei 12.305, que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos, aprovada em agosto de 2010. A cidade que não se enquadrar deixará de receber investimentos da União.

- À semelhança de São Paulo e Brasília, o Rio precisa dar uma resposta à questão da reciclagem, porque ela terá um grande poder multiplicador no país. No caso do Rio, essa necessidade aumenta por causa dos grandes eventos que vêm por aí: a Rio+20, a Copa do Mundo e as Olimpíadas. A prefeitura tem até agosto para estabelecer metas concretas de reciclagem - afirma Nabil Bonduki, secretário de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano do Ministério do Meio Ambiente.

O prefeito Eduardo Paes concorda que o Rio tem de dar o exemplo, mas admite que o caminho é longo:

- Tivemos que sair do abaixo de zero na questão dos resíduos. Antes, tínhamos um aterro (de Gramacho) que poluía a Baía de Guanabara. Inauguramos o de Seropédica e implementamos outras ações importantes, como o decreto que exige reaproveitamento dos resíduos de todas as obras. Só agora poderemos começar a cobrar uma postura mais participativa dos cidadãos.

O envolvimento da população europeia com o tema inspirou a nova legislação nacional de resíduos. A lei determina que os municípios brasileiros joguem em aterros somente o lixo orgânico, ou seja, não reciclável. A meta deve ser atingida até 2014.

O engenheiro químico José Carlos Pinto, professor da Coppe/UFRJ, diz que a lei 12.305 traz avanços em termos de conscientização. Mas defende que é preciso ir além:

- O Rio, por exemplo, é um dos grandes produtores de plástico do país. Mas as empresas daqui, ao contrário do que ocorre na Europa, não se responsabilizam pelo destino final desse material.

Para ele, sem um compromisso das empresas, é impossível fazer uma reciclagem à altura dos atuais desafios de sustentabilidade.

- Hoje, esse mercado existe por iniciativas individuais, em que o serviço do catador é feito longe das condições ideais. Mercado cuja base é sustentada por uma relação de trabalho ligada à exploração - diz José Carlos. - Em países como Japão, Canadá e Alemanha, existe a figura do catador, mas a logística da coleta é tão melhor, que o catador, com boas condições de trabalho, tem um peso muito menor na cadeia. Sem as grandes empresas envolvidas nesse processo, não há como implementar um sistema eficiente.

"O caminhão desapareceu"

A falta de eficiência, na avaliação do chefe da Diretoria Técnica e Industrial da Comlurb, José Henrique Penido, é explicada pela ausência de investimentos maciços dos três níveis de governo.

- Em 1994, chegamos a ter 20 cooperativas de catadores nos bairros. Não restou nenhuma. Reciclagem só dá algum dinheiro para catador de rua. E ferro-velho só sobrevive porque tem gato de água e de luz. O preço do produto reciclado acaba saindo mais caro do que a matéria-prima virgem. Sem pesados subsídios do governo, o sistema não vai funcionar - afirma Penido. - Não há mágica. A Alemanha gasta cinco bilhões de euros por ano para implementar um sistema eficiente. O povo alemão está muito satisfeito. E quanto ao Brasil? O país está disposto a investir?

A advogada Leonor Amaral não percebe esta disposição por parte do poder público. Ela lembra que a Comlurb chegou a fazer um "excelente serviço" de coleta seletiva em sua rua, na Praça Seca, em Jacarepaguá:

- Há quatro anos, o caminhão chegava à nossa rua, e os vizinhos, ao verem esse serviço, também se animaram. Começou a faltar e passou a vir só de vez em quando, até desaparecer por completo em dezembro do ano passado. Liguei para a Comlurb, e me informaram que estavam à espera de recursos para reimplantar o serviço em algumas ruas e expandi-lo. Mas o próprio funcionário da ouvidoria me disse que a coleta seletiva é o patinho feio.

Ineficientes, usinas jogam dinheiro fora
Unidades de separação de recicláveis, que custaram R$ 79 milhões, estão desativadas ou operam precariamente

Emanuel Alencar
emanuel.alencar@oglobo.com.br
Rogério Daflon
daflon@oglobo.com.br

Mesmo se toda a população do Rio participasse da cruzada pela reciclagem, a Comlurb não estaria estruturada para tanta demanda.
Das três usinas de separação de lixo, que custaram aos cofres públicos R$79 milhões, uma foi desativada, outra funciona com um terço de sua capacidade e a terceira opera precariamente.
Inaugurada durante a Rio-92, com pompa e circunstância, a usina de triagem do Caju sempre foi uma dor de cabeça para os gestores ambientais da prefeitura. Segundo a atual administração da Comlurb, o Rio comprou gato por lebre: a tecnologia francesa já estava defasada.
Usina do Caju, uma constante dor de cabeça A usina do Caju teria dupla função: a de compostagem (processo de transformação da matéria orgânica em fertilizante) e a de separação do material reciclável, para ser devolvido ao setor produtivo. Mas não foi o que aconteceu.
- Compraram em 1992 (no governo Marcello Alencar) uma tecnologia totalmente ultrapassada. A usina então não fez nem a compostagem nem a reciclagem da maneira adequada. Tanto que, dois anos depois, fechou as portas. Em 2000, por força de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) exigido pelo Ministério Público estadual, a usina voltou a funcionar. Só que ela tem capacidade de processar mil toneladas por dia, metade para o orgânico e a outra metade para o reciclável. Hoje processa em torno de 300 toneladas, sendo apenas 10% de material reciclável. Na verdade, a usina não tem uma manutenção constante - diz o gerente da usina do Caju, José Emídio de Araújo Neto, acrescentando que a Comlurb já negocia para que a iniciativa privada assuma a unidade.
Secretário municipal de Obras na gestão de Marcello Alencar entre 1989 e 1992, o atual deputado Luiz Paulo Corrêa da Rocha (PSDB) argumenta que o problema não foi a tecnologia ultrapassada das usinas:
- A tecnologia era francesa e considerada de ponta. O problema foi falta de manutenção ao longo do tempo. Ajustes teriam de ter sido feitos.
A falta de cuidados técnicos indispensáveis à operação da usina do Caju é facilmente observável. Apenas uma das duas unidades de separação funciona. E o lixo domiciliar orgânico é jogado no mesmo fosso do reciclado, não havendo divisão entre eles.
- É claro que seria melhor se houvesse um fosso só para lixo reciclável - disse um funcionário, sem se identificar.
A 31 quilômetros do Caju, a Usina de Jacarepaguá, inaugurada em 1993, mantém galpões vazios, onde deveria haver a separação do lixo. A estrutura chama a atenção pela grandiosidade, em contraste com a falta de atividade. De acordo com a presidente da Comlurb, Angela Fonti, com o surgimento de condomínios de classe média alta no entorno da usina - localizada numa área residencial - houve muitos protestos contra a presença das instalações, levando a empresa a desativá-las.
Na usina de Irajá, em operação desde 1977, sequer há esteiras para a separação do lixo. Nesse quadro, o percentual de 0,27% de reciclagem parece até muito.

O passo a passo de uma coleta que ainda engatinha
De Santa Teresa a Benfica, caminhão percorre 27km e chega ao destino final com apenas 25% de sua capacidade

O carioca que quiser participar da coleta seletiva de lixo precisa de zelo e disciplina. Em primeiro lugar, o caminhão só passa uma vez por semana em cada rua. E só recolhe os recicláveis - plásticos, papéis/papelão, alumínio e vidro - depositados em sacos transparentes, medida que visa a garantir que restos de comida não estão misturados ao material que vai virar insumo para indústrias.
Ao acompanharem a coleta seletiva no dia 2 de março, repórteres do GLOBO observaram apenas alguns poucos desses sacos dispostos nas ruas de Santa Teresa. Às 8h30m, o caminhão saiu da gerência da Comlurb em Botafogo. Já na Rua Progresso, o gari Luiz Carlos dos Santos, de 55 anos, recebeu um caloroso abraço da aposentada Miriam Fontenele, de 74.
- Faço a separação do material com muito cuidado. Desde cedo espero a turma da Comlurb - conta a moradora.
Depois de oferecer água gelada aos garis, Miriam se despede. A viagem segue pelas ruas Monte Alegre, Riachuelo, Almirante Alexandrino e Dr. Júlio Otoni. Às 11h, o caminhão, com cerca de 2 toneladas de recicláveis (um quarto da capacidade) entra na Usina do Caju, para pesar.
- O caminhão está vazio. Na Tijuca, por exemplo, a quantidade de material que a gente pega é bem maior - diz o motorista do caminhão, Marcelo Bonomeddi, de 39 anos.
Depois de 150 minutos e 27 quilômetros, a máquina despeja o material num galpão da Associação Beneficente Padre Navarro, em Benfica. Lá funciona uma cooperativa, com 25 pessoas. Célia Ferreira Godinho, de 54 anos, é uma delas. Ela conta que construiu a casa dos filhos, na Penha, com o dinheiro do trabalho. Todos os dias, chega ao galpão às 7h e só vai embora às 17h. Ela recebe de R$ 400 a R$ 600 por mês.
- Agora estou fazendo um quarto para mim na Mangueira. Só saio daqui no dia que isso acabar - afirma.
Se do lado de fora os termômetros marcavam quase 40 graus, dentro do galpão o calor parecia ainda maior. Alheia ao desconforto causado pelo telhado de amianto, Deise Silva, de 45 anos, moradora do Caju, comentou, um tanto sem jeito, que prefere ser catadora a ficar em casa.
- Tenho dois filhos e um neto para criar. Aqui a gente ganha por produção: quem separa mais, ganha mais - explica. - Não vou ficar em casa recebendo ordem de marido.
Do galpão da Associação Padre Navarro, imóvel que pertence à Marinha, os recicláveis são vendidos a empresas. O quilo de papel vale 70 centavos; o de garrafas PET, R$ 1,60 e o de alumínio, R$ 2,20. O destino final é bem longe dali, em usinas de Minais Gerais, São Paulo e Paraná.
- Já houve fila aqui na porta em busca de emprego. Hoje há mais dificuldade de se conseguir mão de obra. As pessoas estão atrás de melhores oportunidades - afirma o encarregado da cooperativa, José Divaldo de Metos.
Apesar dos poucos avanços, a legislação é severa com os moradores e comerciantes que ignoram a separação do lixo: A lei 3.273/2001 diz que depositar resíduos diferentes daqueles a que se destinam os recipientes de coleta seletiva constitui infração punida com multa inicial de R$ 50. Mas, até hoje, a penalidade nunca foi aplicada a pessoas físicas ou jurídicas.

O Globo, 18/03/2012, Rio, p. 16-17

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