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Uma aula de vida

OESP, Espaco Aberto, p.A2
Autor: NOVAES, Washington
21 de Jan de 2005

Uma aula de vida
Washington Novaes
O Brasil vive um momento singular, perplexo em meio à avalancha discursiva sobre os rumos que deveria tomar.
De um lado, os que acham que a única possibilidade é seguir com a política rígida de produção de superávits comerciais e fiscais para que se possa baixar o custo da rolagem da dívida e, se possível, reduzi-la em algum momento. Por esse caminho, em algum ponto da trajetória se conseguiria reverter o quadro de dificuldades e ter um crescimento econômico duradouro, com recuperação do mercado interno e da geração de empregos. Talvez até mesmo alguma redistribuição da renda, redução da mal chamada exclusão social.
De outro, os que apontam nesse caminho diretrizes já superadas. Nenhum país teria conseguido, por aí, reverter o quadro. Mesmo com taxas positivas de crescimento econômico não seria possível gerar sequer os empregos necessários para atender à demanda nova que chega ao mercado, quanto mais ao déficit de milhões de postos de trabalho já acumulado e às situações de miséria e pobreza. O crescimento fortemente baseado em exportações estaria sustentado principalmente nos chamados "fatores espúrios" (relatórios da ONU), custos ambientais e sociais (mão-de-obra com preço aviltado) absorvidos internamente, mas insustentáveis a prazo mais longo.
Por um terceiro ângulo, há os que apontam um estágio novo nas questões, com o mundo enfrentando o drama de limites que não deveriam ser superados - sob pena de gravíssimas conseqüências -, mas já foram ou estão sendo. Entre eles, as matrizes energéticas poluidoras que produzem mudanças climáticas e agravamento insuportável de "desastres naturais". Depois, a insustentabilidade dos padrões mundiais de produção e consumo (quase 80% concentrados nos países industrializados), já além da capacidade de reposição da biosfera terrestre.
Neste último cenário, o Brasil continuaria ocupando, como há quase seis séculos, a posição de fornecedor aos países mais ricos principalmente de bens primários, de pouco valor agregado, com a agravante de terem seus preços controlados fora do País, subordinados aos interesses dos compradores. E importando bens que agregam, em seus custos, todos os fatores de produção considerados valiosos pelos vendedores - custo da mão-de-obra educada, tecnologias, altas taxas de lucratividade. Por isso mesmo, apesar dos esforços e incentivos fiscais, continuaríamos hoje com pouco mais de 1% do comércio mundial, tal como há 40 anos.
É nesse cenário agitado que alguns pensadores têm insistido na necessidade de o País rever sua estratégia. Colocar no centro do pensamento e do planejamento as premissas que levem em conta o quadro planetário. Considerem a posição privilegiada de um país capaz de ter uma matriz energética relativamente limpa, baseada não em combustíveis fósseis, mas em energias renováveis (hidreletricidade, biomassa, eólica). Uma economia que aposte na conjugação de forte investimento em ciência com a presença, aqui, da mais rica biodiversidade do planeta, indicadora das sendas do futuro. Que faça do vasto contingente de mão-de-obra disponível a base de um forte mercado interno e seja capaz de conceber um desenvolvimento baseado no tripé biodiversidade-biomassas-biotecnologias, como tem proposto o professor Ignacy Sachs, diretor do Centro de Estudos Brasileiros na École des Hautes Études en Sciences Sociales, de Paris.
O número mais recente (52) da revista do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo traz uma extraordinária entrevista do professor Sachs, que vale a pena ser lida pelos formuladores de políticas públicas no País. Do alto de sua inigualável experiência de décadas acompanhando de perto teorias e práticas em quase todo o mundo - Índia, China, África, Brasil, América Latina, Polônia, Itália e França, entre muitos outros países e regiões -, o professor Sachs oferece uma visão abrangente e admirável. Adverte para problemas complicados de países e regiões que hoje nos fascinam, como a China (uma "tragédia grega" ambiental) e a Índia (onde o fascínio recente pela inserção no mercado globalizado, sem soluções para o desemprego e os dramas sociais, levou à derrota eleitoral dos detentores do poder, apesar das altas taxas de crescimento do PIB).
Ele lembra que "a discussão sobre a mudança nos padrões de consumo e nos estilos de vida deve levar em conta que o desenvolvimento é a construção de uma civilização do ser na partilha equalitária do ter, na definição lapidar do padre Lebret, e, portanto, é impossível apostar numa mudança da civilização do ser antes que essa partilha aconteça na realidade. Este é o impasse atual. A parte mais importante da revolução ambiental no pensamento que ocorreu nos anos de 1970 foi a percepção de que não se pode dissociar a problemática ambiental do social". Chega-se, assim, à dramática questão da distribuição da renda no mundo, hoje concentrada em quase 80% nos países industrializados - drama que se repete em cada país, inclusive no Brasil, com a diferença entre os estratos sociais.
O professor Sachs conhece muito nosso país, onde viveu muito tempo e para onde retorna sempre. Tem muitas propostas, parte delas reunida em seu mais recente livro publicado aqui (Desenvolvimento Humano e Trabalho Decente, edição Pnud/Sebrae). Seria extraordinário se conseguíssemos incorporar a experiência, as lições de vida e as alternativas que propõe. O Brasil merece. E precisa.

Washington Novaes é jornalista.

OESP, 21/01/2005, p. A2

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