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Uma 'aldeia' diferente para a indiazinha

Folh de Londrina -Londrina -PR
25 de Nov de 2005

Ao lado, o berço da indiazinha caingangue Ana Paula. No detalhe, o diretorpresidente

Do Cari, Antônio Moreno: ''Ela chegou aqui pesando seis quilos'' Ela
não tem amiguinhos índios nem apreendeu a cultura de sua tribo na
Reserva Indígena Caingangue de São Jerônimo da Serra (78 km ao sul
de Cornélio Procópio). Vítima de paralisia cerebral provocada por
complicações decorrentes de uma meningite, a indiazinha caingangue
chamada Ana Paula, oito anos, vive há mais de quatro anos sob os
cuidados prestados pelo Centro de Apoio à Recuperação Infantil
(Cari) dr. Hugo Dehé, na Zona Oeste de Londrina.

Em setembro de 2001, com apenas quatro anos, ela contraiu meningite
na aldeia caingangue de São Jerônimo da Serra em virtude do contato
que tinha com o homem branco quando vinha para a cidade com a
família. Chegou a ficar internada no Hospital Universitário (HU) mas
a doença deixou sequelas cerebrais severas. ''Ela tinha quatro anos
quando chegou aqui pesando cerca de seis quilos e com todo tipo de
problema de pele'', recorda o diretor-presidente do Cari, engenheiro
Antônio Galindo Moreno.

Na instituição, ela passou a receber o tratamento que seu problema
de saúde exigia. Anfermeira da entidade, Fabiane Ikeda, explica que
Ana Paula é dependente de sonda para se alimentar e de remédios
importados caros. Alguns chegam a custar até US$ 75,00 a caixa.
Parte dos gastos é bancada pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa).
Ela recebe atenção continuada e, por vezes, precisa ser removida até
um hospital para um tratamento mais especializado. No caso de Ana
Paula, o retorno à sua família indígena não é possível justamente
porque, segundo a enfermeira, ela precisa de cuidados especiais que
dificilmente teria em sua aldeia.

Única entre as crianças internadas a ''morar'' na entidade as demais
permanecem apenas até se recuperarem e retornarem para suas
famílias , a indiazinha, mesmo sem esboçar reações concretas de
interação, acabou conquistando os funcionários com sua
serenidade. ''Ela é a rainha do Cari'', elogia a enfermeira.A
antropóloga e coordenadora do Programa de Atendimento ao Caingangue
da Secretaria Municipal de Ação Social, Marlene de Oliveira, explica
que o fato dela ter sido entregue a uma entidade para ser cuidada
não significa que foi simplesmente abandonada pela sua família
caingangue, como acontece com muitas crianças de rua que hoje
perambulam pelas ruas das grandes cidades.

A antropóloga esclarece que a cultura indígena entende de forma
diferente do homem branco as questões ligadas à saúde. ''As
explicações para as doenças remetem à cultura do índio, onde a
concepção de saúde e doença difere muito da nossa sociedade'',
aponta. Ela aponta que entre os índios uma doença nunca é fruto do
acaso. Normalmente é entendida como uma infração de padrões
culturais, das tradições, das crenças e costumes. ''A doença sempre
veio porque algumas regras deixaram de ser seguidas ou cumpridas'',
completa.

Marlene ressalta ainda que Ana Paula é uma criança de risco, que não
teria o atendimento que necessitaria na aldeia e, além disso, sua
família indígena já era numerosa quando ela adoesceu. Segundo a
antropóloga, em outras duas situações de crianças com retardo mental
em aldeias caingangues da região, as famílias passaram a ter um
carinho ainda mais especial pelos filhos.

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