OESP, Vida, p. A26
Autor: CORRÊA, Marcos Sá
08 de Out de 2010
Um vendaval após o outro
Marcos Sá Corrêa
Até aqui, tudo bem. O furacão da semana saiu barato. Despejou a maior parte de sua fúria na Argentina e chegou ao Brasil de madrugada, a 95 quilômetros por hora. Caíram no Iguaçu as vítimas de praxe: árvores, ninhos, orquídeas, aguaceiro e, como não poderia deixar de ser nessas ocasiões, eletricidade. Mas a luz voltou antes do amanhecer. E a quinta-feira começou no parque, pelo menos para os pássaros, como um dia qualquer de primavera. Ou seja, de estrepitosa cantoria nupcial.
Mais pesado deve ser o impacto do vendaval humano previsto para domingo. Alinham-se no feriadão festas religiosas, cívicas e pagãs, com força de sobra para jogar em seus portões pelo menos 25 mil pessoas. Se for como anunciam as estimativas mais cautelosas, vem aí mais um recorde histórico neste ano de recordes históricos, que começou com 5 mil visitas diárias nas férias do verão. A cada feriadão a maré sobe. Tende a fechar dezembro com a marca de 1,2 milhão de ingressos vendidos.
Isso para ficar com os cálculos conservadores - e conservacionistas. Os agentes de turismo em Foz do Iguaçu apostam em 1 milhão e 300 mil visitantes. Número ambíguo, que aponta ao mesmo tempo para o sucesso das cataratas e o malogro do parque nacional, onde os planos de manejo, os relatórios de pesquisa e os dossiês da Unesco, que reavaliam periodicamente seus trunfos como sítio do patrimônio natural da humanidade, torcem os narizes para esse excesso de gente zanzando lá dentro desde 1979, quando a conta bateu em 712.327 pessoas.
Não podendo barrar a enchente turística, o remédio foi tentar espalhar os visitantes por programas menos batidos. Senão, elas marcham em fila indiana pela trilha das cataratas, largando na pressa garrafas PET, latas de refrigerante e pacotes de biscoito pelo quilômetro e meio do caminho.
Um dos desvios é a Macuco Safári. A empresa tem nome de ave esquiva e solitária. Mas movimenta, só no parque, sete barcos, dois botes de rafting, nove carros elétricos, dois jipes Willys - autênticas relíquias da indústria automobilística brasileira, convertidas ao etanol e outro que agora roda por ali com motor elétrico. A maior parte do equipamento nasceu ou renasceu na oficina da Macuco.
Sua operação, só no Iguaçu, emprega mais de 60 motoristas, barqueiros, guias e monitores. Inclui uma bióloga. E recruta com frequência caçadores clandestinos e ladrões de palmito, porque eles conhecem a floresta melhor do que ninguém e, trocando de lado, aprendem a defendê-la. Quem quiser ver a fauna e a flora da região no meio da mata, se encharcar nas quedas d"água dentro do rio ou descer os 70 metros do cânion por rapel terá de procurar um de seus serviços.
Dessa base, a Macuco se lançou ultimamente por mares nunca dantes navegados, como os do Rio de Janeiro e do Nordeste. Mas sua origem não poderia ser mais local. Ela pertence a Ademir dos Santos, um ex-balseiro que herdou do pai o timão do transporte fluvial dos colonos que cruzavam o Iguaçu para atravessar o parque via Estrada do Colono. A família trabalhava com balsa em Chapecó, Santa Catarina. Daí a navegar nas cataratas foi um pulo. E um tremendo salto qualitativo.
Menos de 10% dos turistas que vão ao Iguaçu tomam os desvios de programação propostos pela Macuco. Parece pouco. Mas isso dá, por baixo, mais de 100 mil fregueses. Parece bom negócio, porque a firma acaba de renovar seu contrato de concessão por mais dez anos. E Ademir dos Santos, vindo de um ramal auxiliar da saga de invasão da floresta, acha que acabou tão perto da conservação "que até as onças preferem nossas trilhas". E prova que o perigo nem sempre é o turismo e sim o que se faz com ele.
OESP, 08/10/2010, Vida, p. A26
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101008/not_imp622179,0.php
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