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Um território para lá de cobiçado

CB, Brasil, p. 17
10 de Abr de 2005

Um território para lá de cobiçado
Documentos sigilosos da PF revelam que a guerrilha colombiana montou uma rede de suprimentos e de tráfico de drogas na fronteira brasileira, com o objetivo de criar a Nova Colômbia e chegar ao poder

Maria Clara Prates
Do Estado de Minas

O Brasil é território estratégico para que o grupo guerrilheiro Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) atinja o objetivo de criar seu Estado - a Nova Colômbia - e, finalmente, depois de 40 anos de luta, chegar ao poder. Relatórios da Polícia Federal relacionam mais de 40 ocorrências, nos últimos dez anos, que demonstram que a guerrilha montou no país uma importante rede de suprimentos que lhe possibilitam manter a sangrenta queda-de-braço com o governo colombiano. Em território brasileiro, as Farc têm uma infra-estrutura para o fornecimento de material de consumo, que vai desde aparelhos de raio-X portáteis, apropriados para a guerra, passando por remédios, armas, munições, e todos os tipos de gêneros alimentícios.O mais grave é que a moeda forte neste comércio na fronteira Norte do país é a cocaína, já produzida em abundância pelas Farc.
Além do inquérito instaurado no final do ano passado pela Polícia Federal para apurar o desvio, aos guerrilheiros colombianos, de mais de mil ampolas do medicamento glucantine, distribuído pelo Ministério da Saúde para o combate à leishmaniose, os federais apuram também a venda ilegal de 116 equipamentos norte-americanos de raio-X portáteis, de uso militar, para as Farc.
Os equipamentos foram enviados ao Brasil, como doação, por uma organização não-governamantal (ONG) para serem distribuídos às prefeituras do Amazonas, mas, em território nacional, foram revendidos numa transação de US$ 10 mil. O inquérito foi instaurado em 2000, mas esbarrou na recusa de autoridades norte-americanas em fornecer o nome da ONG que fez a doação. O que os federais já sabem é que a transação foi feita através da prefeitura de Fonte Boa (AM).
Segundo o relatório da PF, o município de Fonte Boa está localizado na calha do rio Solimões, nas proximidades de cursos d'água que dão acesso aos rios Caquetá e Putumayo, onde se concentram os maiores efetivos das Farc. Na verdade, explica o delegado federal Mauro Spósito, os aparelhos doados não tinham aplicação nas comunidades
a que se destinavam, porque o custo de operação é maior do que os dos aparelhos de raio-X tradicionais. Porém, são de grande utilidade para os guerrilheiros, que travam longa guerra civil com o exército colombiano.
Esta investigação revelou também que vários outros suprimentos como 19 mil kits de ferramentas, mais de um centena de computadores, além de diversos equipamentos de dedetização e um lote de vestimentas e uniformes chegaram ao Brasil da mesma forma.
Apoio
Estas apreensões, na verdade, estão traduzidas em documentos sigilosos, em forma de preocupação. A Polícia Federal diz que os efetivos das Farc são conhecidos, assim como suas divisões, territórios e lideranças. Entretanto, ainda são "desconhecidos osapoios políticos, interno e externo, que a guerrilha recebe e as posições que vão adotar". O documento foi redigido após fevereiro de 2002, quando o governo da Colômbia decidiu recuperar o território livre dado aos guerrilheiros durante tentativas de estabelecer a paz naquela país. No documento, os federais identificaram como rota de fuga de integrantes da guerrilha, em caso da investida do exército colombiano na área liberada, os rios Apapóris, Caquetá e Putumayo, que entram no território brasileiro.
Eles alertam ainda sobre aumento da produção de cocaína na Colômbia, responsável por 80% de toda droga que circula no mundo, sob o estímulo das Farc e a utilização "mais ativamente" deste produto como moeda de aquisição de munições e suprimentos. Nos primeiros dias de 2002, outra ocorrência reforça essas suspeitas, com o furto de três toneladas de explosivos dentro de um órgão da estrutura de comando da Aeronáutica , em Camacarí (RR). Parte desse material foi apreendido em julho, quando estava sendo levado para a Colômbia, onde seria trocado por cocaína. Segundo a PF, o intervalo de tempo entre o roubo e a apreensão revela "a existência de uma organização criminosa que orquestra suas ações no longo prazo e que dá suporte às ações de terrorismo perpetradas pelas Farc, armazenando, em território brasileiro, o produtor do crime".
A apreensão desse grande volume de explosivo aconteceu dias antes da posse do presidente da Colômbia, Álvaro Uribe Vélez. Durante sua campanha, Uribe prometeu não dar trégua à guerrilha, o que provocou reação das Farc que ameaçaram o governo com atentados em série.

Armas e munições pagas com cocaína
Os indícios de que a cocaína é a moeda forte das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) para o pagamento de armas e munições no Brasil não são novidade para a Polícia Federal, mas se tornaram mais evidentes com a prisão dos traficantes Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, e Leonardo Dias Mendonça. Já em abril de 1998, a polícia da Holanda, que apurava a participação do ex-presidente do Suriname Desire Delano Bouterse na liderança do cartel da droga daquele país, localizou uma testemunha que revelou que, próspero fazendeiro do Pará, o mineiro Leonardo negociara um carregamento de armas roubadas do exército surinamês com o filho do ex-presidente Dino Bouterse, para serem vendidas para as Farc. Ele contou que Leonardo pagou o armamento com quatro entregas de cocaína, cada uma, com 200 a 250 quilos da droga, repassadas pela guerrilha colombiana.
Segundo o delegado da Polícia Federal Mauro Spósito, durante vários anos, tanto Leonardo como Fernando Beira-Mar usaram deste expediente para conseguir a droga. Leonardo comprava as armas no Suriname, mas o carioca Beira-Mar, preferia fazer a aquisição de armamento no Paraguai, onde tinha importante base de operação de seus negócios sujos. Mas Beira-Mar foi mais longe e, além de receber cocaína como pagamento, comprou a proteção da Frente 16 das Farc, sob o comando de Negro Acácio, depois que se tornou um foragido da Justiça brasileira. O traficante fugiu do Departamento de Operações Especiais da Polícia Civil, em Belo Horizonte, em março de 1997. Ele foi preso em abril de 2004, numa investida do exército colombiano contra um acampamento das Farc.
De acordo com as investigações da PF, depois das prisões de Leonardo e Beira-Mar, os guerrilheiros colombianos têm optado por fazer a compra diretamente dos cartéis paraguaios, cabendo a brasileiros apenas o transporte até suas frentes, operação que obrigatoriamente atravessa todo o país. No entanto, o pagamento permanece sendo feito em droga. Além deste comércio, desde 1998, foram localizadas também pela PF outro tipo de infra-estrutura fundamental para a transação, que são as pistas de aterrisagem clandestina. Em julho daquele ano, foi localizada uma delas dentro do território brasileiro que dava suporte à pista principal para recebimento de suprimento pelas Farcs, na Colômbia.
Laboratório
A destruição pela Força Aérea da Colômbia de um acampamento e de um laboratório de cocaína da Frente 40 das Farcs, no departamento de Meta, em 16 de março último, confirmam as suspeitas de que parte da droga produzida pelo grupo foi entregue no Brasil, no final do mês passado. No dia 30 passado, a Polícia Federal apreendeu, em Manaus, 600 quilos de cocaína pura, que tinha a marca "logo 40", indicativo de que pertencia às Farc. Parte dela seria embarcada para São Paulo e o restante estava em um barco pesqueiro no Porto de São Raimundo, em Manaus, para ser transportada até Belém e, de lá, posteriormente, embarcada para Europa ou Estados Unidos.
Para isso, no entanto, seria necessário que a guerrilha contasse com uma rede de apoio no território brasileiro. Segundo a PF, foram presos na embarcação os tripulantes Francisley Ramos Pissango e Arlindo Abreu dos Santos. (M.C.P)

CB, 10/04/2005, Brasil, p. 17

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