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Um termômetro marinho para o aquecimento

O Globo, Ciência, p. 39
06 de Dez de 2009

Um termômetro marinho para o aquecimento
Alerta para risco de extinção das tartarugas

Tulio Brandão*

A tartaruga marinha, protegida e pesquisada há 30 anos na costa brasileira pelo Projeto Tamar/Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio), virou uma espécie de termômetro do aquecimento global, por ser muito suscetível à elevação da temperatura das praias e oceanos. Coordenadora-técnica do Tamar, Neca Marcovaldi explica que a temperatura da areia determina o sexo das tartarugas e, por isso, sua variação pode provocar a feminilização da produção da fêmea ou, em casos mais extremos, impedir totalmente o desenvolvimento embrionário.

Fora do ninho, o tempo também esquenta. As tartarugas sofrerão ainda as prováveis consequências do aquecimento: a inundação de áreas litorâneas reduzirá as áreas de desova, a mudança de padrão das correntes marinhas pode provocar a desorientação dos animais, que têm hábitos migratórios, e o enfraquecimento dos recifes de coral ameaça espécies que vivem nesse habitat.

Neca Marcovaldi é categórica ao falar da influência do calor na vida desses animais:
- Um grau a mais é um caos para as tartarugas. Várias instituições já estão usando esse animal como bandeira e indicador do aquecimento global.

O Projeto Tamar conseguiu determinar, através de uma série histórica de mais de 20 anos de dados coletados nos ninhos, que a temperatura pivotal da areia - em que nascem exatamente 50% de fêmeas e 50% de machos, o valor médio encontrado para as cinco espécies existentes no Brasil - é de cerca de 29 graus. Na sede do projeto da Praia do Forte, na Bahia, marcada pelo calor natural do Nordeste, as fêmeas predominam, com 90% do total de nascimentos. Já na base do Espírito Santo, de clima mais ameno, a proporção cai para 60%.

- A variação de um grau na temperatura de um ambiente naturalmente mais quente pode provocar uma total feminilização dos filhotes. Isso não impediria a reprodução com machos de outras regiões, mas um calor um pouco maior interromperia totalmente o desenvolvimento embrionário das espécies - diz Neca.

No Brasil, há cinco espécies, todas ainda ameaçadas de extinção: tartarugacabeçuda (Caretta caretta), tartaruga-depente (Eretmochelys imbricata), oliva (Lepidochelys olivacea), verde (Chelonia midas) e tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea). As duas em situação mais crítica são as tartarugas-de-couro e de pente.

A perda do habitat com a urbanização do litoral afeta todas as espécies.

Neca explica que as tartarugas podem encontrar áreas adjacentes, mas, com a ocupação das áreas costeiras, restam poucos trechos virgens disponíveis.

Um dos possíveis efeitos da esquizofrenia climática provocada pelo aquecimento global é a mudança das correntes marinhas. Como as tartarugas são animais migratórios por natureza, podem ter sérios problemas, revela Neca:

- Elas têm um período longo de migração até a maturidade, de 30 anos. A mudança no padrão de correntes marinhas pode provocar uma grave desorientação desses animais.

A ameaça de descoloração dos corais - devido ao provável aumento da temperatura da água - representa uma ameaça especialmente para as tartarugas-de-pente e verde, que se alimentam no habitat.

- As espécies correm o mesmo risco que as áreas em que se alimentam - diz Neca.

A preocupação com as tartarugas já chegou a grandes ONGs de meio ambiente.
A WWF criou o Programa da Tartaruga Marinha e das Mudanças Climáticas, especialmente voltado para a América Latina e o Caribe. O objetivo do projeto é reduzir significativamente os impactos do aquecimento global nas tartarugas marinhas, através de medidas de adaptação dessas espécies aos novos cenários e da luta pela redução das emissões de dióxido de carbono (CO2) no fórum internacional.

* O repórter viajou a convite da Petrobras e do Projeto Tamar

O Globo, 06/12/2009, Ciência, p. 39

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