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Um Rio mais verde para debater o clima

O Globo, Economia, p. 42
20 de Mar de 2011

Um Rio mais verde para debater o clima
Reflorestamento e projeto para reduzir pobreza antecedem reunião da ONU

Liana Melo e Emanuel Alencar

Foi a falta d"água que levou Dom Pedro II a encomendar o replantio de praticamente toda a Floresta da Tijuca. Eram meados do século XIX quando a crise ambiental se apresentava como um temor tão improvável quanto distante. A ousadia fez do Brasil um dos primeiros países a protagonizar um reflorestamento de tal proporção com espécies nativas. Em pleno século XXI, o Rio de Janeiro tenta reprisar a sua própria história, com o reflorestamento de 1.300 hectares do Parque Estadual da Pedra Branca, considerado a maior reserva florestal urbana do mundo. Só que agora, ao contrário da época de Dom Pedro II, não mais com ajuda de meia dúzia de escravos, que fizeram o replantio da Floresta da Tijuca junto com o major Archer, o seu primeiro administrador - sucedido pelo Barão Gastão d"Escragnolle. Hoje, o reflorestamento virou negócio e vai envolver investimentos de R$22 milhões ao ano, até as Olimpíadas de 2016.

Batizado com o sugestivo nome de Parque de Carbono - numa alusão à construção de uma economia de baixas emissões de gases de efeito estufa -, o projeto será apresentado na conferência ambiental das Nações Unidas, a Rio + 20, que vai ocorrer em junho de 2012. Seu reflorestamento se enquadra perfeitamente no tema da conferência: "Economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e erradicação da pobreza". Seja porque vai amortizar as emissões de gases de efeito estufa dos campos de teste do pré-sal ou porque vai incorporar mão de obra carente do Morro da Babilônia, no Leme, na Zona Sul do Rio.

Encontro terá 50 mil pessoas e movimentará R$80 milhões

Ainda que não esteja sendo convocada como uma reunião de chefes de Estado, como a Rio 92 - a primeira conferência mundial da ONU que tratou especificamente dos problemas de biodiversidade e mudanças climáticas -, o encontro ocorre num momento em que a crise ambiental só se agrava. Mesmo que não consiga juntar 112 presidentes, como há 20 anos, o presidente da Câmara Técnica de Desenvolvimento Sustentável da Prefeitura do Rio de Janeiro, Sérgio Besserman, aposta antecipadamente num sucesso. Sua expectativa é de que a Rio + 20 atraia 50 mil pessoas e movimente R$80 milhões. A prefeitura do Rio já manifestou o interesse em levar a conferência para o Cais do Porto. Mas a ONU ainda não bateu o martelo.

- Espero que seja uma reunião que influencie o pensamento da civilização - filosofa Besserman, ao admitir que o mundo não está conseguindo responder à altura os desafios que a crise ambiental vem impondo nas últimas duas décadas. - Seja por carência de instituições, seja por um sistema decisório que tenha condições de proteger as populações mais carentes e vulneráveis, que, no fundo, tornam-se as mais atingidas pela crise ambiental.

Economista de formação, mas ambientalista por autodefinição, Besserman está convencido de que o Rio é a melhor tradução do "desafio" que a Humanidade está enfrentando para lidar com o tripé desenvolvimento social, econômico e ambiental:

- O Rio é visto como capital ecológica do planeta, ainda que os cariocas emporcalhem as lagoas e façam ocupação irregular e desmatamento - ressalta Besserman, admitindo, no entanto, que a cidade é dona de "ativos naturais" de valor incalculável. - O Rio é a própria expressão do desafio da Humanidade, porque, ao mesmo tempo que a cidade é um cartão postal de lagoas e florestas, é uma metrópole de 12 milhões de habitantes.

Mudas e redução da miséria no Parque da Pedra Branca

Ação coordenada pela prefeitura e pelo governo do estado, o Parque de Carbono consiste no reflorestamento de 1.300 hectares, de um total de 12.500 do Parque da Pedra Branca, que corta bairros pobres da Zona Oeste da cidade. Ambientalistas cariocas enxergam no projeto um resumo do escopo da Rio + 20, ao aliar reflorestamento à inclusão social.

De acordo com o diretor de Biodiversidade e Áreas Protegidas do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), André Ilha, a meta é reflorestar a vertente norte da unidade de conservação - que vai de Vila Valqueire a Bangu - em cinco anos. A primeira etapa, já em curso, consiste no plantio de 204 hectares pela Petrobras, uma medida de compensação pelas emissões em campos de testes do pré-sal.

A segunda fase, a ser custeada pelo BNDES, deverá abarcar mais 300 hectates. Outros 600 hectares ficarão sob responsabilidade do Arco Metropolitano, já que a exigência foi incluída como condicionante para licenciar as obras. Os hectares restantes estão sendo reflorestados com a ajuda de 42 moradores do Morro da Babilônia. O salário vai variar de R$600 a R$1.400.

- Vamos chegar a 24 milhões de mudas, o que é uma meta perfeitamente exequível - afirma Ilha.

UPP Verde: Babilônia terá projeto-piloto

Sinônimo de florestas, o desmatamento será inevitavelmente debatido na Rio + 20, assim como alternativas econômicas para a região. Às vésperas do Dia Internacional da Árvore, comemorado amanhã, o consenso entre ambientalistas e até mesmo economistas, como Besserman, é que a Amazônia tem tudo para se transformar na "primeira área tropical do mundo com vocação econômica, baseada na riqueza da sua biodiversidade".

Em 2012, o Rio quer mostrar ao mundo que já desenvolve projetos verdes de inclusão social. Chamado informalmente pelo secretário estadual do Ambiente, Carlos Minc, de "UPP Verde", o programa ecológico das Unidades de Polícia Pacificadora terá seu projeto-piloto na Babilônia. As intervenções no morro - que vão da instalação de lâmpadas LED, que consomem menos energia, à implementação de um horto comunitário - começam no próximo semestre.

A favela foi a escolhida por algumas razões. Além de ser uma comunidade pequena, de cerca de quatro mil moradores, foi a pioneira em um bem-sucedido programa de replantio de mudas da Mata Atlântica, e já possui uma turma engajada em projetos ambientais - a Cooperativa de Trabalhadores em Reflorestamento e Prestação em Serviços da Babilônia (CoopBabilônia), que existe há dez anos. Até mesmo um telhado verde já foi instalado em cima de um colégio.

- A Rio + 20 será a oportunidade de discutirmos os empregos verdes. Vamos mostrar que o Rio está na dianteira de várias iniciativas. Na Babilônia, teremos asfalto-borracha, iluminação ecológica, horto comunitário e programa de reuso do óleo de cozinha - planeja Minc. - A coleta de óleo de cozinha no estado é um sucesso. Por ano, recolhemos seis milhões de litros, que vão para fábricas de sabão e biodiesel. Cada uma das 30 cooperativas ganham cerca de R$200 mil anualmente. É uma pequena revolução verde.

Afiliada da Michelin, a Reciclanip participará da UPP Verde da Babilônia fornecendo asfalto-borracha para as ruas da comunidade. A novidade é que a nova pavimentação, feita a partir da trituração de pneus inservíveis, tem uma camada com metade da espessura normal e dura 40% mais que o tradicional, embora as emissões de carbono no processo de fabricação dos dois tipos seja a mesma.

- O asfalto-borracha reduz o ruído e tem durabilidade de 20 anos, o dobro do convencional - diz Glauce Ferman, responsável por Relações Institucionais para a Michelin América do Sul.

Encarregado da manutenção do telhado verde da Babilônia, o marceneiro Jorge Ricardo Santos, de 47 anos, afirma que o reaproveitamento de água já é uma realidade:

- Além de tornar o refeitório da escola menos quente, o telhado verde armazena a água que usamos para lavar louças, regar plantas. É uma alternativa ao amianto, nocivo à saúde. A água entra na terra, é filtrada, e vai para uma caixa d"água. Aprendemos toda a tecnologia com o Instituto Tibá (em Bom Jardim, Região Serrana) e agora caminhamos com nossas próprias pernas - comemora.

Corpo a Corpo
'Não existe qualquer tipo de penalidade'
Luiz Alberto Figueiredo Machado

Liana Melo

Se dependesse apenas dos europeus, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) seria elevado à categoria de agência internacional da ONU. Só que os países em desenvolvimento, com exceção do Brasil, são contrários a uma mudança de status do Pnuma. O tema já virou assunto recorrente nas reuniões preparatórias da Rio + 20, que estão ocorrendo em Nova York. O diretor-geral do Departamento de Meio Ambiente do Ministério das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo Machado, admitiu também que o encontro será o momento oportuno para discutir uma nova governança internacional.

Lá se vão quase duas décadas desde a Rio-92. Como o senhor avalia a evolução do tema nesses 20 anos?

Luiz Alberto Figueiredo Machado: A Rio-92 foi um grande marco conceitual na evolução do debate internacional sobre meio ambiente. Foi a primeira vez que a questão ambiental se encontrou com o desenvolvimento econômico e social. Desde a conferência de Estocolmo, que ocorreu nos idos dos anos 70, até a Rio-92, o tema ambiental vinha sendo discutido isoladamente. Foi na conferência do Rio que se deu a ruptura, propiciando a sinergia desses três pilares.

O objetivo é fazer um balanço de 20 anos?

Machado: Vamos olhar para frente com base na compreensão das lições do passado. O que significa que novos temas entrarão no debate, porque, nos últimos anos, passaram a ter relevância. Não só a questão da água, da segurança alimentar e a questão energética, mas a própria mudança climática mudou de status na discussão ambiental. Vamos olhar retrospectivamente, mas não faremos um exercício de recriminação.
Além do tema central da conferência, que será "Economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e erradicação da pobreza", quais outros temas estarão no centro das atenções?

Machado: Os europeus defendem a substituição do Pnuma por uma agência internacional. Os países em desenvolvimento não concordam. O Brasil tem uma posição flexível nesta questão, ainda que considere que a criação de uma agência resolve única e exclusivamente a questão ambiental. Defendemos a sinergia entre os três pilares do desenvolvimento sustentável. Outro tema central é a questão da governança internacional. A governança precisa urgentemente ser aprimorada, seja com a criação de algo novo ou com a reestruturação dos órgãos existentes. É que não existe hoje qualquer tipo de penalidade. O tempo mostrou que a Comissão de Desenvolvimento Sustentável, órgão criado na Rio-92, não funciona, assim como vários outros órgãos da ONU.

Sucessos e fracassos desde a Rio 92

Ainda que não esteja sendo convocada como uma reunião de chefes de Estados, a Rio + 20 tem tudo para repetir o sucesso da Rio 92. Mas por motivos menos nobres: a crise ambiental, nos últimos 20 anos, recrudesceu, em vez de arrefecer. A Rio 92 é considerada um marco importante nas discussões sobre mudança climática, porque foi a primeira vez em que polos, até então vistos como opostos, se encontraram: o desenvolvimento econômico passou a ser discutido a partir de variáveis ambientais.
Além da Agenda 21 - um roteiro alentado em prol do desenvolvimento sustentável -, aprovou-se a convenção Quadro sobre Mudança Climática, além das de biodiversidade e combate à desertificação. Em 2002, foi a vez de Johannesburgo, na África do Sul. A Rio + 10 não teve desfecho tão favorável e acabou virando "Rio menos 10".

O Globo, 20/03/2011, Economia, p. 42

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