Marcos Sá Corrêa - http://marcossacorrea.com.br
Autor: Marcos Sá Corrêa
12 de Out de 2010
Ufa! O parque nacional do Iguaçu passou por uma semana de testes. Uma tromba d'água lambeu-o furiosamente na madrugada de quinta-feira. Foi anunciada à tarde pelo rádio como um autêntico tornado. Veio uma espécie de ciclone tropical, que despejou boa parte de sua fúria na Argentina, onde passou primeiro. Invadiu o Brasil no meio da noite, roncando a 95 quilômetros por hora.
Os vendavais fazem parte da história da região e do parque nacional. Mas estão ficando, a cada ano, mais comuns e mais fortes. Caíram, do lado de cá, as vítimas de sempre - árvores, ninhos, orquídeas, bromélias e, como não poderia deixar de ser, a energia elétrica. A devastação florestal abriu um lanho impressionante na floresta, à beira da BR-469, na altura do quilômetro 29. Ali onde as copas mais altas e a vegetação rasteira formavam dias atrás uma parede vegetal praticamente opaca, agora se vêem nacos de céu e nuvens através da mata rala, como se tivesse passado por ali um gigantesco trator de esteira, trabalhando no atacado pela devastação.
O tamanho exato da cicatriz aberta pela ventania ainda não foi avaliado. Mas a eletricidade voltou ao parque nacional do Iguaçu em poucas horas, antes mesmo do amanhecer. E até que a quinta-feira começou, pelo menos sob o ponto de vista dos pássaros, como um dia típico de primavera, inundado de cantos nupciais.
Mas vinha outro vendaval pelo caminho. Dessa vez, um vendaval humano. Ou turístico. Alinharam-se nesse feriadão de outubro festas religiosas, cívicas e pagãs, além de nacionais e continentais, com potência de sobra para jogar em seus portões pelo menos 29 mil pessoas. A previsão dos administradores do parque e dos operadores de turismo era uma enxurrada de 25 mil turistas. Ambos erraram bastante. E erraram para menos.
Só no domingo vieram 12.400 pessoas. Não chegou a ser s um recorde histórico de bilheteria, que continua, por uma diferenta de mais de 100 ingressos, com novembro do ano passado. Mas esses recordes de público estão durando cada vez menos no parque. São quebrados com freqüencia crescente, como a dos grandes temporais. E 2010 tem sido um ano de parque cheio, a começar pela média de cinco mil visitas diárias, registradas nas férias do verão passado. Tende a fechar dezembro na marca de 1 milhão e 200 mil visitantes. Se não ultrapassá-la. A cidade de Foz do Iguaçu, que vive principalmente do turismo, aposta em 1 milhão e 300 mil.
É um número ambíguo, que aponta ao mesmo tempo para a popularidade internacional das cataratas e a fragilidade do parque nacional como reserva natural. Seus planos de manejo, os relatórios dos pesquisadores, até os guias de fauna ou flora e os dossiês da Unesco, que reavaliam periodicamente seus trunfos como sítio do patrimônio natural da humanidade, torcem os narizes para essa multidão cada vez maior, zanzando lá dentro. Já havia essa tendência a tratar os recordes como problemas em 1979, quando a conta bateu em 712.327 pessoas.
Não podendo barrar a maré turística, o remédio prescrito na ocasião foi tentar espalhar ao máximo os visitantes, oferecendo-lhes como opção programas menos batidos. Senão, eles marcham em filas compactas pela trilha das Cataratas. Deixam para trás, na pressa ou na falta de tempo para entender que aquele ambiente superlotado é, apesar de tudo, natural, garrafas PET, latas de refrigerante e invólucros de lanches rápidos pelo quilômetro e meio do trajeto.
Um dos desvios que vieram para atender esse chamado é o Macuco Safari. Com nome de ave esquiva e sobrenome que ainda ressoa a caçadas afrucanas, a empresa movimenta, só no parque, sete barcos como motores de popa menos poluentes, dois botes de rafting, nove carros elétricos, jipes Willys, que são autênticas relíquias da indústria automobilística brasileira, convertidos com tecnologia própria ao consumo de etanol. Há na frota do Macuco até um jipe Willys experimental, de motor elétrico.
A maior parte desse equipamento nasceu ou renasceu na oficina que a Macuco mantem em Porto Meira. Seus botes de rafting se inspiraram, à moda oriental, nos Zodiacs franceses. Em outras palavras, copiaram-nos. Mas, ao copiá-los, tornaram as imitações irreconhecíveis. Até a liga da câmera de borracha com náilon resistente foi inventada em casa. E seu sistema de blindagem para diariamente há mais de dez anos pelo grande laboratório de testes que são nas corredeiras do rio Iguaçu.
Sua operação, só no parque, eenvolve mais de 60 funcionários, entre motoristas, barqueiros, guias e monitores. A equipe inclui uma bióloga residente. E conta ultimamente com um candidato ornitólogo, que treina para a especialização acadêmica levando grupos de forasteiros para conhecer a mata. O Macuco também contrata com freqüência caçadores clandestinos e ladrões de palmito, porque eles conhecem a floresta melhor do que ninguém e, trocando de lado, passam a defendê-la.
Quem quiser ver a fauna e a flora da região por dentro da floresta, encharcar-se nas quedas d'água dentro do rio ou descer os 70 metros do cânion por rapel terá que procurar um de seus serviços. Dessa base, a empresa lançou-se ultimamente por mares nunca dantes navegados, como os da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, ou do litoral nosdestino. Mas sua origem não poderia ser mais local.
Ela pertence a Ademir dos Santos, um ex-balseiro, que não tira as mãos do leme nen quando se trata esticar o expediente nos feriados, para ver de perto como as coisas estão funcionando na empresa. Ele herdou do pai a queda para o transporte fluvial. A família operava a balsa que ligava o Porto Lupion, em Capanema, à Estrada do Colono, um corte ilegal pelo parque nacional.
Tinha tradição no ramo. Era uma dinastia de balseiros desde o tempo em que sua base ficava em Chapecó, fazendo a travessia do Rio Grande do Sul a Santa Catarina. E, antes de chegar ao extremo oeste do Paraná, ajudou a transportar madeira nativa pelo rio Uruguai, levando toras para o exterior.
Ademir dos Santos mal passava dos 7 anos quando seu pai comprou uma parte na sociedade que controlava a balsa da Estrada do Colono. A essa altura, já sabia manobrar um rebocador. "Nasci na beira do rio, longe dele eu não sei viver", diz ele. Ou, pelo menos, longe da água. Sua experiência no ramo inclui as chatas que levam areia entre Foz do Iguaçu e Guaíra, atravessando os quase 200 quilômetros do lago artificial de Itaipu.
Trocou a Estrada do Colono pelo cânion do Iguaçu antes mesmo que aquele caminho no meio do parque fosse fechado de vez pela justiça, as forças armadas e a polícia. Assim como hoje inventa carros elétricos, na época Ademir tirou quase do nada a idéia de navegar entre as cataratas, conduzindo turistas em parceria com o guia norte-americano Alexander Peter Shorsch. E prosperou.
Para alguém com seus antecedentes profissionais, explorar as cataratas foi mais que um simples pulo. Ou seja, foi um salto qualitativo. No Macuco, desenhou a torre para observação de pássaros num braço fechado do rio Iguaçu. Da copa de um ingá, mas sem se escorar nos galhos da árvore, fechada com persianas removíveis e balançando suavemente com o vento, ela se debruça sobre um alagado cheio de aningas, socós, jaçanãs, martins-pescadores e outras aves nem sempre fáceis de ver em liberdade. Com sorte, aparecem antas por ali. E jacarés do papo amarelo são comuns.
É um lugar onde se tem vontade de passar o dia inteiro, porque cada hora trás suas novidades, embora a maioria dos freqüentadores se contente com uma breve pausa no mirante, para satisfazer sua curiosidade ornitológica. Cerca de 8 a 10% dos turistas que vão ao parque do Iguaçu só para conhecer as cataratas enveram pelos desvios que o Macuco oferece. Parece pouco.
Mas isso significa uns 100 mil clientes por ano. Ou mais de mil pessoas só no domingo passado, para o passeio de barco no cânion. A 140 reais por cabeça, parece ser um bom negócio, mesmo que a maioria dos turistas continue embalada nos pacotes que economizam o gasto nas cataratas, para investi-lo nas lojas do Paraguai, nas churrascarias com show latino e outros pratos feitos dessa florescente indústria, que ocupa o primeiro lugar na economia de Foz do Iguaçu e também se considera parte inseparável de seus atributos naturais.
Com a pequena parte que lhe cabe nessa corrida rumo a recordes históricos, o Macuco Safari acaba de renovar seu contrato de concessão por mais 10 anos. E Ademir dos Santos, vindo de um ramal auxiliar da estrada que promovia a invasão da floresta, sente-se agora tão perto da conservação "que até as onças preferem nossas trilhas". Ele é um exemplo de que o crescimento do turismo pode até ajudar o parque. Mas é deitando raízes na unidade de conservação, em vez de tanger a clientela para uma olhada ligeira nas quedas d'águas, entre uma excursão e outra de compras noa Tríplice Fronteira.
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