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Um plantador de florestas

GM, Opiniao, p.A3
Autor: GUIMARAES, Durval
29 de set de 2005

Um plantador de florestas
Quem combate o carvão vegetal não pode usufruir de qualquer conforto da vida moderna.
Durval Guimarães
Tomo conhecimento de uma má notícia para nós mineiros: o professor Laércio Couto, da Universidade Federal de Viçosa, depois de décadas de uma vida dedicada ao trabalho com florestas, aposentou-se da vida acadêmica e se transferiu para São Paulo. Tenho a pretensão de resumir a sua magnífica trajetória de educador numa única frase: plantou árvores para evitar a destruição das matas.
O professor tem uma concepção muito simples e clara da sua missão: "É impossível evitar o abate das árvores que irão atender à atividade industrial. Então, temos de desenvolver espécies de crescimento rápido e, assim, retirar o jacarandá, o mogno e a aroeira da frente dos machados e das motosserras", dizia ele. A argumentação parece banal, hoje. Mas não era há 40 anos, quando a Mata Atlântica em Minas foi devastada para alimentar os fornos das usinas siderúrgicas por falta de alternativas.
De acordo com o professor Laércio, trata-se de gigantesco atraso intelectual condenar a produção do carvão que alimenta os altos-fornos. Da mesma forma, só indivíduos desorientados combatem a construção das barragens que irão produzir energia. Aos seus olhos – interpretação que considero muito apropriada – quem combate o carvão não pode trafegar em automóveis ou usufruir de qualquer conforto da vida moderna.
Tudo é feito do aço. E o aço é produzido num alto-forno, através da mistura, em partes praticamente iguais, do minério de ferro com o carbono retirado do carvão vegetal. Quanto aos que consideram os grandes lagos das usinas hidrelétricas como o pior mal que aflige a humanidade, sua sentença é igualmente peremptória: todos deveriam ser condenados ao banho frio, em qualquer tempo.
A demanda por madeira é gigantesca em Minas. As necessidades anuais da siderurgia e da indústria de celulose (também o papel vem da madeira) requerem uma área plantada superior à do Estado de Alagoas. As reservas locais são menores e os industriais buscam carvão até no Mato Grosso e Maranhão, a milhares de quilômetros de distância.
A escolha do professor Laércio e de outros pesquisadores do seu tempo recaiu sobre o eucalipto. Trata-se de uma árvore que pode ser abatida em apenas sete anos, contra cinqüenta, ou mais, das magníficas espécies nativas. A planta rebrota duas vezes. Como a perfeição é inexistente entre todos os seres da terra, o eucalipto não produz frutos, circunstância que impede a presença de animais nas áreas reflorestadas.
É no reino vegetal uma similar da trágica princesa Soraya, do antigo império persa, que foi rejeitada em decorrência da sua incapacidade de gerar. Mas a Irmã Dulce e a Madre Tereza de Calcutá igualmente não geraram frutos e são, merecidamente, benfeitoras da humanidade.
O professor Laércio prosseguirá, em São Paulo, na presidência da Sociedade Brasileira de Agrossilvicultura, entidade que se dedica especialmente ao plantio de grãos e pastagens entre as fileiras de eucalipto.
Durval Guimarães - Secretário de Redação na sucursal da Gazeta Mercantil em Belo Horizonte.E-mail: dguimaraes@gazetamercantil.com.br)
GM, 29/09/2005, p. A3

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