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Um novo modelo de convivência

O Globo, Economia, p. 35
Autor: KLABIN, Israel
15 de Abr de 2012

Um novo modelo de convivência

Israel Klabin

Estamos degradando em alta velocidade o nosso planeta. A ação do homem vem alterando profundamente a estrutura básica da natureza. Extinção em massa, utilização intensiva de combustíveis fósseis, de recursos hídricos e mudanças no uso da terra são exemplos de alterações em larga escala de importantes sistemas naturais da Terra.
A humanidade, nos últimos 12 mil anos, viveu em relativa estabilidade climática e geológica, no período denominado Holoceno. No entanto, a ciência vem comprovando que os seres humanos, desde a revolução industrial, têm afetado o planeta em escala global, empurrando-o em direção a um novo período, o Antropoceno, mais instável e imprevisível. Passamos a ser o fator dominante de alterações planetárias e isto significou o fim do relativo equilíbrio com a natureza.
O primeiro limite planetário é climático. O clima vem se modificando para fora dos padrões do Holoceno. Podemos observar diminuição da camada de gelo durante o verão no Ártico, retraimento de glaciares montanhosos pelo mundo, perda de geleiras na Groenlândia e Antártica, aumento do nível do mar, avanço de desertificação em várias áreas e aumento no número de eventos extremos, como grandes inundações e furacões.
O segundo limite é a perda da biodiversidade. A atual taxa de extinção de espécies já constitui o sexto maior evento de extinção em massa na história da vida na Terra. Extinções em massa interferem com os padrões climáticos, hidrológicos e biológicos dos quais dependemos.
Outro fator crítico de limite planetário é o uso intensivo de recursos hídricos. A humanidade já é o fator dominante de alteração, em escala global, das águas fluviais e subterrâneas. Aproximadamente 25% dos rios do mundo hoje já chegam secos aos oceanos. Devemos diminuir a pressão sobre os estoques de água doce que restam. A tecnologia de dessalinização da água do mar pode ser uma boa estratégia para tanto.
O quarto item, a mudança no uso da terra, diz respeito ao problema brasileiro, pois grande parte das emissões de gases de efeito estufa no nosso país é oriunda do desmatamento. O motor principal dessa mudança é a expansão agropecuária. Não precisamos desmatar mais para produzir mais e melhores alimentos, mas sim aumentar a produção via desenvolvimento tecnológico. Esta é a razão pela qual nos opomos à nova legislação que está sendo discutida para o Código Florestal, que alargará os limites agrícolas sem compensações às emissões de gases de efeito estufa.
Os Limites Planetários são fatores que atingem toda a humanidade. Chegou a hora de ultrapassar o que Isaiah Berlin chamava de "crooked timber of humanity", o nacionalismo isolacionista. Precisamos reconsiderar alguns aspectos do que seja o interesse nacional.
Desmatamentos em grande escala na Amazônia podem alterar drasticamente o equilíbrio energético na atmosfera. O enfraquecimento de determinadas correntes de ar causaria mudanças nos fluxos de vapor dos sistemas climáticos de média latitude, influenciando o clima no Tibet. Mudanças no clima do Tibet afetam os recursos hídricos na Ásia, acelerando o derretimento das geleiras, com consequências catastróficas. Então, o abate de uma árvore na Amazônia pode ser o gatilho para uma inundação na Índia.
Do mesmo modo, a abertura de mais uma termelétrica a carvão na China pode afetar, via emissão de carbono e aumento da temperatura global, as correntes oceânicas que levam calor dos trópicos até a Europa, como a Corrente do Golfo. Queimar carvão na China, então, pode causar uma grande onda de frio na Europa, como a que ocorreu poucos meses atrás.
Para alcançar uma situação de sustentabilidade, temos que levar em conta os parâmetros dados pelo Sistema Terra. O paradigma dominante de desenvolvimento econômico e social ignora os riscos de desastres em escala planetária induzidos pelo homem. Sustentabilidade, ao contrário, implica respeitar os limites do planeta. Esta é a urgência do nosso presente e a base das discussões que vamos ter durante a Rio+20.

* Presidente da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS)

O Globo, 15/04/2012, Economia, p. 35

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