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Um mundo mais verde

CB, Pensar, p. 6
10 de Fev de 2007

Um mundo mais verde

Com cerca de 7 milhões de km2, a Floresta Amazônica poderá tornar-se ainda mais densa nos próximos anos, por culpa do aquecimento global. A constatação é de Aziz Nacib Ab'Saber, um dos mais respeitados geomorfologistas do Brasil e professor honorário da Universidade de São Paulo. Ao contrário das previsões pessimistas sobre o impacto do aquecimento global num dos biomas mais ricos do planeta, o especialista de 82 anos é incisivo: "É completamente errado afirmar que o aquecimento global ocasionará desertificação, savanização ou interrupção natural das florestas". De acordo com ele, o aumento progressivo das temperaturas médias intensificará o calor e as precipitações. "As ilhas de cerrado que restaram na Amazônia foram formadas num tempo em que havia menos floresta e mais cerrados, entre 15 mil e 20 mil anos atrás", explicou ao Correio.

Para validar sua tese, Ab'Saber recorre à história geológica da Terra. Durante o Período Quaternário, entre 12 mil e 22 mil anos atrás, as mudanças climáticas deflagraram um rigoroso período glacial, quando o mar recuou cerca de 95m. "Os oceanos 'baixaram' por causa do excesso de gelo nos pólos norte e sul", comentou. Entre 11 mil e 12,7 mil anos atrás, um aquecimento global intenso fez com que as águas retornassem para os mares e penetrassem em rios. O professor da USP batizou essa época de "retropicalização" e acredita que ela foi a responsável pela formação da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. O aquecimento perdurou por cerca de 6 mil anos, até que o mar subiu mais de 3m. "Enquanto o clima semiárido e frio da glaciação fez o mar recuar e ampliou as áreas de caatinga, a retropicalização cobriu o chão de pedras. Por isso, acredito que qualquer elevação do nível do mar por causa do aquecimento tornará o solo mais úmido", acrescentou.

Segundo Ab'Saber, as transformações previstas pelo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) não serão catastróficas para a Amazônia. Ele prevê que, com o aquecimento global e um aumento de até 3m no nível das águas, o estreito de Breves será restaurado. No passado, esse canal situado no norte do Pará e a sudoeste da Ilha de Marajó tinha cerca de 22km de largura. "Quando o mar subir, embocará ao norte nas áreas da Baía de Marajó, Rio Pará e Breves. Marajó perderá metade de seu território a nordeste, que será alagado", disse o especialista. "O aquecimento global fará a floresta crescer, se adensar e multiplicar sua biodiversidade."

Interferência humana

Ab'Saber não tem dúvidas em apontar os grandes vilões da Floresta Amazônica. "Quem destrói a Amazônia são os fazendeiros, madeireiros, sojicultores e loteadores, que vendem partes da mata para pessoas incautas, sob promessa de dinheiro", acusou. Ganhador do 1o Prêmio Brasil de Meio Ambiente - uma espécie de Oscar do ambientalismo - no mês passado, o especialista da USP é um crítico ferrenho da política ecológica do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. "Tenho dúvidas em relação à marcha da devastação. Lula disse que a Amazônia não pode permanecer intocável porque lá vivem 20 milhões de pessoas. Uma declaração idiota", atacou. Para ele, técnicos e cientistas precisam estudar como a Amazônia pode ser tocada para se eliminar a pressão humana sobre a região. "Do jeito que está, daqui a 100 anos teremos apenas de cuidar das praias e do avanço do mar", alertou.

Apesar de considerar o relatório do IPCC como uma importante ferramenta de alerta para a humanidade, Ab'Saber vê um sério erro no documento. De acordo com ele, o dossiê da ONU desconsidera a influência das correntes marítimas no clima. O geógrafo explicou que, durante a glaciação, as correntes Falkland - no sul do continente - subiram bastante até a Bahia e impediram a passagem de umidade do Atlântico. Essa migração contribuiu com o alargamento das caatingas, o recuo das florestas e o surgimento de semidesertos nublados no litoral. "Sem levar em conta as correntes marítimas, os idiotas fazem considerações de bobos", ironizou, referindo-se aos cientistas membros do IPCC. Com o aquecimento global, Ab'Saber aposta que as correntes quentes se estenderão mais ao sul. Por sua vez, a Região Nordeste passará a gozar de um clima de tropicalidade relativa, especialmente na Zona da Mata - entre Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Norte. "Se não houvesse homens ocupando essas áreas e cultivando o solo, poderíamos presenciar algumas projeções de florestas."

Pesquisador premiado

Natural de São Luís do Paraitinga (SP), Aziz Nacib Ab'Saber é um dos mais respeitados geomorfologistas do Brasil. Foi o primeiro a classificar o território brasileiro em domínios morfoclimáticos.Professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), acumula uma série de prêmios por sua atuação como cientista.Autor de oito livros, incluindo as obras Ecossistemas Brasileiros,Litoral Brasileiro e Paleoclimas.

CB, 10/02/2007, Pensar, p. 6

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