O Globo, Especial, p. 8
Autor: GOODENOUGH, Kathryn
05 de Jun de 2010
Um mundo lotado e vulnerável
Entrevista: Kathryn Goodenough
Pesquisadora o Instituto Geológico Britânico, um dos mais respeitados centros e estudo de geociências a Europa, Kathryn Goodenough acredita que o grande número de mortes e terremotos e os problemas provocados este ano por erupções vulcânicas não têm como motivo uma atividade irregular da Terra.
O problema, segundo ela, é a superpopulação e a pobreza. Com a Terra mais povoada, é natural que mais sismos ocorram em áreas habitadas.
E quando essas regiões são muito pobres e despreparadas para enfrentarem tremores, o resultado é quase sempre devastador. De acordo com Kathryn, os tempos modernos exigem da Humanidade uma nova forma de interagir com os fenômenos geofísicos.
O Globo: O grande número de mortos em terremotos e o caos aéreo causado pelo vulcão islandês geraram especulações sobre algo diferente estar em curso no interior do planeta. O que a senhora acha dessa afirmação?
Kathryn Goodenough: Não há nada na ocorrência de terremotos ou erupções vulcânicas que tenha chamado a atenção dos especialistas. Por ano ocorrem, em média, mais de seis mil terremotos - acima de 4 graus na escala Richter e mais de 120 tremores fortes, acima de 6 graus. O que faz as pessoas acharem que algo está errado é o fato de alguns fenômenos terem ocorrido em áreas densamente povoadas e em um curto intervalo de tempo. Quanto mais gente, mais mortes. A maior percepção de terremotos tem relação direta com o aumento da população. Se os terremotos do Haiti, do Chile e da China tivessem ocorrido em áreas totalmente desabitadas ninguém teria percebido. No Brasil (no Acre) ocorreu um terremoto de magnitude considerável, 6,5 na escala Richter, que poderia ter feito os brasileiros acharem que algo está errado, já que o país não tem muitos registros de tremores. No entanto, nada aconteceu, pois o abalo, normal, atingiu uma área desabitada. A Terra passa por mudanças no clima por ação humana e isso afeta nossas vidas. Sob o ponto de vista geológico, no entanto, não há nada fora dos padrão nem qualquer tipo de ação humana capaz de intervir. O acaso também contribui para acharmos 2010 anormal. Tivemos um terremoto moderado, no caso do Haiti, atingindo uma região superpovoada e miserável, e outros terremotos fortes em países não tão pobres assim, mas também densamente povoadas.
A senhora quer dizer que o problema, então, é a superpopulação?
Kathryn: O terremoto do Haiti não foi dos mais intensos, mas provocou uma grande catástrofe porque a capital não tinha condição de suportar um tremor até mesmo leve. No caso dos vulcões, muitos ainda ativos estão cercados de povoamentos - alguns pobres, o que dificulta a elaboração de estratégias de evacuação. Estamos falando de fenômenos naturais de grande energia e capacidade de destruição. Não podemos evitá-los. Eles fazem parte da máquina de destruição e de criação em nosso planeta. O que precisamos fazer é preparar melhor as cidades que estão em áreas de maior risco e, quando possível, evitar a ocupação de áreas de risco ainda desabitadas.
Não é possível evitar, mas é possível prever terremotos ou erupções vulcânicas com antecedência e reduzir o número de mortes?
Kathryn: Esse é um dos nossos grandes desafios. Sabemos pouco sobre a dinâmica desses fenômenos. Nossos melhores recursos de monitoramento nos dão sinais vagos e muitas vezes errôneos. Mas já temos boas informações sobre potenciais áreas de risco e isso pode ser usado por governos na prevenção de danos.
No caso dos vulcões, é mais fácil prever erupções?
Kathryn: Não é mais fácil. A diferença é que quando percebemos um sinal de atividade, muitas vezes isso acontece a tempo de acionarmos os alertas para evacuação. Mas sabemos que nem sempre isso será possível, especialmente em locais onde as comunidades são muito numerosas. Em torno do Vesúvio, na Itália, moram cerca de 3 milhões de pessoas. Na América Central temos situação semelhante, sendo que lá os governos têm menos condição de atuar diante de uma erupção iminente. Para onde levar tantas pessoas? Seria mais fácil impedir que as pessoas morassem perto de vulcões ativos do que retirá-las em um momento de emergência.
Mas há casos em que as autoridades nada podem fazer As cinzas que o vulcão islandês espalhou pela Europa não podiam ser evitadas com trabalhos de prevenção...
Kathryn: Sim, é verdade. Vivemos em um planeta bem diferente do mundo em que viviam nossos antepassados. Não somente somos em maior número, mas voamos, estamos em todos os lugares e temos uma economia interligada e muito complexa. Com isso, é natural que nossos problemas com fenômenos naturais deste tipo se tornem mais frequentes. Nós é que mudamos e não o interior da Terra. Vamos ter que nos habituar a isso, prevenindo o que for possível, mas sem achar que tudo o que acontece é sinal do apocalipse.
E quanto a eventos esperados, como o grande terremoto da Califórnia ou a erupção de Yellowstone, também nos EUA? É possível que os cientistas consigam prevê-los a tempo de minimizar os danos?
Kathryn: Acho muito difícil minimizar danos e mortes provocados por fenômenos desta magnitude. Talvez, no futuro, consigamos antecipá-los, mas mesmo assim muito pouco poderá ser feito. Eles não são indicadores de uma atividade anormal da Terra e nem temos indícios de que estão próximos. Quando acontecerem, no entanto, provocarão grandes alterações em todo o mundo.
O Globo, 05/06/2010, Especial, p. 8
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