O Globo, Opinião, p. 19
Autor: SILVA FILHO, Carlos
26 de Mar de 2014
Um mercado de US$ 10 bilhões no lixo
Carlos Silva Filho
Fatores como o crescimento populacional, a urbanização e os padrões de produção e consumo influenciam fortemente os sistemas de gestão de resíduos em todo o mundo e no Brasil.
Nas últimas quatro décadas, a população mundial aumentou 85%, e o Brasil cresceu de forma similar, com a população alcançando mais de 200 milhões de pessoas em 2013, e com a perspectiva de atingir 230 milhões até 2040. O processo de urbanização, que já é elevado no Brasil, onde mais de 85% das pessoas vivem nas cidades, deve se acentuar em âmbito global.
Além dos fatores populacionais, os fatores econômicos, como aumento do poder aquisitivo e os padrões de consumo, direcionados pelos processos produtivos atuais, influenciam a geração e gestão de resíduos. No Brasil, o crescimento econômico nos últimos 15 anos resultou em um maior consumo. O país já ocupa posição de destaque em vários setores (produtos de cuidados pessoais e perfumes, eletrônicos e pet care) e deverá ser o quinto maior mercado mundial de consumo em 2020.
Com isso, a demanda por materiais é cada vez maior. Segundo pesquisa da Global Footprint Network, o mundo precisa hoje de 1,5 planetas para atender suas demandas de recursos, e a geração de resíduos aumenta no mesmo ritmo.
Do total de resíduos gerados, 56,5 milhões de toneladas foram coletados nas áreas urbanas, e 10% dos resíduos sólidos urbanos foram deixados em ruas, terrenos e rios.
No entanto, a maior preocupação hoje é com a destinação final dos resíduos urbanos. Quase 24 milhões de toneladas por ano ainda vão para locais de destinação inadequados como lixões, enquanto 33 milhões de toneladas/ano vão principalmente para aterros sanitários, e apenas 3% são reciclados.
A indústria de resíduos representa hoje um mercado de quase US$ 10 bilhões, e estudo da Abrelpe mostra que o Brasil ainda precisa de cerca de R$ 7 bilhões em investimentos para que todo o lixo gerado seja coletado e tenha disposição correta. Para atingir essa meta, são necessários esforço e mudanças nas práticas atuais.
A Política Nacional de Resíduos Sólidos abre uma oportunidade única para se atingir os padrões adequados de gestão de resíduos, com a adoção de novos sistemas, equipamentos, tecnologias e práticas. Mas são necessárias conscientização e mudança de comportamento social para evoluirmos de um sistema de gestão de resíduos linear para outro cíclico, no qual reciclagem, reutilização e recuperação dos materiais descartados desempenhem os papéis principais.
É nessa direção que as iniciativas pública e privada devem trabalhar em parceria, para transformar em solução e recursos o que hoje é um problema.
Carlos Silva Filho é diretor-executivo da Abrelpe
O Globo, 26/03/2014, Opinião, p. 19
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