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Um mar de arroz desafia Lula na Reserva Raposa Serra do Sol

OESP, Nacional, p. A14
11 de fev de 2007

Um mar de arroz desafia Lula na Reserva Raposa Serra do Sol
Em Roraima, fazendeiros mantêm índices de produtividade semelhantes aos dos Estados do Sul do País

Roldão Arruda, de Pacaraima

Ao volante da picape com ar refrigerado e câmbio automático, o fazendeiro Paulo César Quartiero assobia trechos de uma ária de Carmen enquanto vistoria o arrozal - vasta e plana superfície irrigada, de tons ora verdes, ora dourados, contrastando com o fundo escuro das montanhas. Após cruzar uma pequena ponte, formada por duas toras, ele reduz a velocidade, contorna um canal de irrigação e adentra uma área acidentada, onde duas máquinas aplainam o terreno. "Estou ampliando a área de plantio", diz, em meio a espessa nuvem de poeira. "Vou iniciar um sistema rotativo de arroz, soja e gado."

Ele fala com determinação sobre o futuro. Nem de longe parece que suas terras estão no interior da Reserva Raposa Serra do Sol - vastidão de 1,7 milhão de hectares que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva entregou aos povos indígenas de Roraima no dia 15 de abril de 2005. Festejada na época como a mais notável intervenção de Lula em defesa dos índios, ela permanece no papel, quase dois anos depois.

As fazendas de arroz que operavam antes do decreto continuam
produzindo e investindo. Por estes dias é intenso o movimento de colheitadeiras e graneleiros. Carretas carregadas de arroz passam pela estrada poeirenta que liga o interior da reserva à BR-174 - e de lá ao porto de Boa Vista. Na capital o arroz é beneficiado, empacotado e despachado de barco para Manaus, Santarém e outras cidades da Amazônia.

"Vendemos tudo que produzimos", diz Quartiero. Dono de duas fazendas na região, nas quais planta arroz e cria gado, ele preside a Associação dos Arrozeiros de Roraima e é o principal porta-voz dos grupos que resistem à decisão presidencial.

Também é prefeito de Pacaraima, município quase virtual, com cerca de 8 mil habitantes, na fronteira do Brasil com a Venezuela. Quase virtual porque 98% do seu território foi engolido por outra reserva indígena da região - a de São Marcos, contígua à Raposa Serra do Sol - e tecnicamente já deveria ter desaparecido.

Não desapareceu devido em parte à resistência de Quartiero. Filiado ao PDT, ele tenta atrair gente e investimentos para a cidade, situada numa região de montanhas, com clima agradável, mas muito pobre.

Nesse momento o prefeito está às voltas com os preparativos do Mercofolia - carnaval temporão, realizado sobre a linha da fronteira, uma semana depois que a folia acaba no resto do País. É patrocinado pela Prefeitura de Pacaraima e pelas autoridades da província venezuelana do lado de lá.

No banco de trás da sua picape, Quartiero carrega uma pasta com mapas de Roraima e estudos para a construção de duas hidrelétricas na área da Raposa. Elas abasteceriam Pacaraima e os motores usados na irrigação do arroz, que hoje queimam diesel: "Estamos na região mais rica de Roraima, Estado que é quase do tamanho de São Paulo. Precisamos produzir, desenvolver. Se vier poluição, desequilíbrio ambiental, a gente resolve depois. Na formação de São Paulo ninguém ficou preocupado com questões ambientais. Se tivesse acontecido, os paulistas não seriam a potência que são."

Para o prefeito, o fato de seu município ter sido tragado pela reserva é ilegal: "A Constituição do Brasil inicia afirmando que a República Federativa é formada pela união indissolúvel dos Estados e dos municípios. Indissolúvel! O presidente, portanto, não tem o direito de extinguir meu município. Só se fosse por plebiscito."

Ele acredita que reverterá os processos de criação das reservas: "A homologação foi um golpe de força, que vamos reverter. É só questão de tempo. Estamos como os franceses em Dien Bien Phu, tocaiados, cercados, mas resistindo. Não temos medo da guarda pretoriana."

Guarda pretoriana é a Polícia Federal. Quanto a Dien Bien, trata-se do vale onde franceses e vietnamitas se enfrentaram em 1954, na célebre batalha da luta anticolonialista da Indochina.

Aos 52 anos, Quartiero gosta de livros de história, especialmente biografias. Na estante em uma das sedes de suas fazendas avistam-se títulos de Che Guevara, Ernesto Geisel, Visconde de Mauá. Sobre a mesa, um dos volumes da série que o jornalista Elio Gaspari escreveu sobre a ditadura militar.

Gaúcho, migrou em 1976 para Roraima, onde se tornou um dos principais produtores rurais do Estado. Não possui título de propriedade dos 9.200 hectares que compõem suas fazendas, mas diz não se preocupar, porque teriam sido adquiridos de posseiros.

Quartiero não mostra simpatia pelas reivindicações dos índios, ou indiaida, como diz, por mais terras. Na opinião dele, estariam a serviço de um conluio de interesses, que envolve o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), organizações não-governamentais do exterior, grupos ambientalistas e os Estados Unidos: "Roraima é uma região estratégica do ponto de vista geopolítico, especialmente com o agravamento das tensões entre Bush e Chávez."

Um dos principais alvos de seus ataques é o Cimi: "Os padres tocam a indústria da demarcação. Trouxeram índios de outras regiões para mostrar que isso era terra indígena. Quase 35% dos índios de Roraima vieram da Guiana Inglesa. "

GORJETA

No fundo, o prefeito deseja negociar. Quer que o governo abra mão de 197 mil hectares, na borda da reserva, onde ficariam as fazendas de arroz e o município de Pacaraima: "Diante de 1,7 milhão de hectares, isso é a gorjeta do garçom."

Na reserva as tensões aumentam. Certos grupos indígenas já não conversam com os arrozeiros, que consideram intrusos. Na placa fincada na entrada de uma das fazendas de Quartiero, com o nome da propriedade, alguém escreveu: "Fora. Finado Paulo César."

Ele não ignora. Acompanha os movimentos dos índios e da Polícia Federal e parece se preparar para a batalha final: "Não vão me tirar daqui, tchê."

Em Dien Bien Phu, os franceses sitiados perderam. Mas em Roraima será diferente, acredita Quartiero.

Antes, pecuária dominava região

A maior parte das terras de Roraima é coberta por florestas tropicais, úmidas e exuberantes. Não se vê nada disso, porém, quando se adentra o território indígena Raposa Serra do Sol, especialmente a parte ocupada por arrozais. O que se avista ali é uma savana - planícies a perder de vista, cobertas por vegetação rasteira e arbustos. O que mais se destaca nessa vastidão são as aléias de buritis, margeando os pequenos rios.

Tudo lembra os cerrados do Centro-Oeste. Mas em Roraima o nome popular é lavrado.

Como em outras regiões da Amazônia, o ano se divide em duas estações: inverno e verão, ou chuva e estiagem. A diferença é que no lavrado e em outras partes do Estado, que fica no Hemisfério Norte, o inverno começa mais tarde. Agora chove no Pará, Amazonas, Acre, mas é tempo de estiagem em Roraima.

O lavrado estende-se por uma área de 4 mil quilômetros quadrados. No passado predominaram ali fazendas de gado. Mas, por causa da pobreza do solo e das prolongadas estiagens, a pecuária migrou para as áreas de florestas. Para o lugar dela seguiram os arrozeiros, atraídos pelas planuras e pelas águas perenes do Rio Uraricoera - um dos mais importantes do Estado. Com sistemas avançados de irrigação, muito adubo e agrotóxico, conseguiram índices de produtividade próximos aos do Sul.

Quando saírem de lá, os arrozais devem ser abandonados. Segundo lideranças indígenas, os agrotóxicos usados no seu cultivo causam a morte de aves e peixes e intoxicações em humanos. Os índios vão criar gado e manter lavouras de subsistência.

Atualmente, 52% das terras de Roraima são controladas por grupos indígenas.

OESP, 11/02/2007, Nacional, p. A14

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