OESP, Vida, p.A20
12 de Dez de 2004
Um líder ecologista em ascensão
Detentor do Prêmio Sasakawa da ONU, o mesmo concedido a Chico Mendes, Giovanini se dedica desde jovem ao ambientalismo
Evanildo da Silveira
Aos 37 anos, o carioca Dener Giovanini é uma liderança ecológica relativamente pouco conhecida no Brasil, mas seu reconhecimento está em ascensão no exterior. Prova disso foi o Prêmio Sasakawa, concedido pela Organização das Nações Unidas (ONU) a defensores do meio ambiente, que ele recebeu no ano passado. É o mesmo prêmio que deu projeção internacional ao seringueiro Chico Mendes, em 1988, pouco antes de sua morte.
Formado em Letras e com a matrícula no curso de Biologia trancada, Giovanini iniciou sua militância ecológica cedo, aos 16 anos, no município de Três Rios, no interior do Estado do Rio, onde se criou. Participou do movimento que resultou na fundação do Partido Verde e em 1998 assumiu a Secretaria do Meio Ambiente de Três Rios.
Sua maior ação ambientalista, no entanto, foi a criação, em 1999, da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), uma organização não-governamental, hoje com cerca de 900 voluntários, que luta contra o tráfico de animais e denuncia a crueldade no seu transporte e venda.
Para falar desses e outros assuntos, Giovanini concedeu uma entrevista ao Estado. Ele fala do que sentiu ao receber o mesmo prêmio dado a Chico Mendes, do tráfico de animais e das razões que o levaram a criar a Renctas e da política ambiental do governo federal, que ele considera "equivocada". Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
No ano passado você recebeu o Prêmio Sasakawa, concedido pela ONU a defensores do meio ambiente - o mesmo recebido pelo Chico Mendes. O que ele representou para você?
Quando recebi a notícia de que eu havia sido escolhido pela ONU não tive, naquele momento, a noção exata do que estava acontecendo e do que aquilo representava. Esse reconhecimento tem um peso enorme e, conseqüentemente, a responsabilidade do premiado aumenta muito. Sem dúvida é uma mudança radical na sua vida. Todas as portas se abrem e sua voz é ouvida com toda a atenção do mundo. Isso nos permite influenciar fortemente a comunidade internacional. Vou dar um exemplo prático: acabei de retornar da China, onde estive a convite do governo daquele país. Dentre os muitos almoços oficiais de que participei, um ilustra bem o que significa esse prêmio. Na mesa em que eu estava, havia seis pessoas, além de mim, o primeiro-ministro da China, o ex-primeiro-ministro do Japão, dois prêmios Nobel e Maneka Gandhi, ministra da Cultura da Índia. Todos prestando atenção no que falava aquele rapaz lá do interior do Rio.
Por que você resolveu criar a Renctas?
Eu nunca tive um projeto pronto, formatado. Na época eu tinha apenas a certeza de que algo precisava ser feito para combater o comércio ilegal de animais e uma idéia geral de como fazer isso. Tive a sorte de encontrar uma organização que acreditou na minha idéia e me ajudou a implementá-la, a Ashoka Empreendedores Sociais. Recebi uma bolsa que me permitiu dedicar-me em tempo integral à criação da Renctas. O Brasil é um país que possui muitas pessoas que têm idéias criativas, mas infelizmente a maioria desses projetos acaba no fundo de uma gaveta. Não existem incentivos que permitam a essas pessoas concretizar seus sonhos. No meu caso, eu tive essa chance.
Que tipo de trabalho a Renctas realiza e quais são os resultados obtidos?
O grande mérito da Renctas foi popularizar o tema tráfico de animais silvestres. Fomos os desbravadores. Antes esse assunto era restrito aos meios acadêmicos e nada de concreto existia para combatê-lo. Hoje temos muitas ONGs que desenvolvem projetos nessa área. É uma grande vitória para nós. O próprio governo foi obrigado a se posicionar. Nós arcamos com o bônus e também com o ônus de sermos os pioneiros nesse campo. Não tínhamos um modelo pronto para seguir, mas tenho certeza de que inovamos e estamos fazendo história.
Como está o tráfico de animais no Brasil? E no mundo? Diminuindo ou aumentando?
Não posso afirmar que esteja diminuindo, pois ainda não concluímos nosso segundo relatório com os dados, mas, com certeza o tráfico não está aumentando. A sociedade está mais conscientizada sobre o problema. A prova disso é a maneira pela qual o traficante se comporta hoje. Antes você ia numa feira livre no Rio ou na Bahia e via os vendedores de animais expondo sua "mercadoria" como outra qualquer. Hoje isso quase não existe. Os animais ficam escondidos e os traficantes estão mais cautelosos. E não é por medo da polícia, não, mas da reação da população. Sabem que serão hostilizados por quem agora conhece o significado da atividade deles.
É possível acabar com essa atividade ou ao menos diminuí-la, controlá-la?
Sim, é perfeitamente possível. Não é fácil, pois depende de diversos atores nesse processo. O governo precisa fazer a sua parte, adotando uma política pública concreta para resolver o problema. De outro lado, a sociedade deve se engajar nessa causa, pois, enquanto existir a demanda, existirá o traficante de animais. A maior dificuldade está nos colecionadores particulares. Esses querem as espécies mais raras, as mais ameaçadas de extinção. A dona de casa que tem um papagaio pode ser conscientizada para não comprar outros animais. Já o colecionador age movido pela vaidade. E contra a vaidade não existe sensibilização que dê jeito. Só uma lei eficiente pode detê-lo.
Como é a política do Brasil para a área? E as ações da polícia?
Ainda estamos longe de uma situação ideal, mas já conseguimos alguns avanços importantes. A Polícia Federal, por exemplo, criou uma divisão especializada em combater os crimes ambientais. Isso foi um avanço. O Ibama, por ter um papel ativo, tem sido muito cobrado, porém ele é apenas o órgão executor da política ambiental. Quem determina o que tem que ser feito é o Ministério do Meio Ambiente, que tem se mostrado inoperante. Há um grande conflito entre a política ambiental e a política econômica. A verdade é que o meio ambiente não esta sendo uma prioridade para o governo. Querem pagar o nosso passivo social com os nossos ativos ambientais. E a credibilidade que a ministra Marina Silva tem dá sustentação a essa política equivocada. Ou a ministra é uma pessoa muito fria ou ela deve ser a pessoa mais infeliz do mundo neste momento. Acho que falta a ela a iniciativa de uma Heloisa Helena ou de um Fernando Gabeira. A lealdade dela ao presidente não pode ser maior do que a lealdade dela para com o meio ambiente.
Qual é a sua opinião sobre a política ambiental em geral do atual governo?
O Brasil tem a oportunidade e, ouso dizer, o dever de liderar uma reação mundial contra os crimes praticados contra a biodiversidade. Somos os líderes em diversidade de espécies, possuímos os requisitos necessários para cobrarmos uma posição mais coerente das nações ricas. Quem tem as maiores reservas naturais do mundo é o nosso país. Nesta área somos os credores. Se o governo brasileiro deixar essa oportunidade passar, vamos perder a chance de virar o jogo no cenário internacional.
Números
900 voluntário trabalham na ONG Rede Nacional de Combate ao tráfico de animais Silvestre (Renctas)
10 % é a participação do Brasil no trafico internacional de animais silvestre
262 mil animais silvestres foram apreendidos no período entre 1992 e 2000
US$ 1 bilhão de dólares é o prejuízo do Brasil com a venda ilegal de animais, segundo uma CPI instaurada pala Câmara dos Deputados e concluída em 2003
OESP, 12/12/2004, p. A20
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