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Um Brasil cheio de gás

O Globo, Economia, p. 37
29 de Abr de 2012

Um Brasil cheio de gás
ANP descobre grandes reservas em terra que devem quadruplicar oferta. Preço cairá mais de 50%

Ramona Ordoñez
ramona@oglobo.com.br
Bruno Rosa
bruno.rosa@oglobo.com.br

RIO - Visto como a nova fronteira energética do país, o gás natural pode colocar o Brasil em um novo patamar no cenário internacional. Até então associado à exploração de petróleo no mar, o gás virou tema de estudos profundos, feitos pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) e por empresas, que indicam enorme potencial em bacias terrestres. Para especialistas, o país tem reservas gigantescas de gás natural do porte das de petróleo no pré-sal da Bacia de Santos. Com isso, a oferta ao mercado deve aumentar 360%, passando dos atuais 65 milhões para 300 milhões de metros cúbicos por dia entre 2025 e 2027. Para 2020, a Petrobras, principal produtor, trabalha com um cenário de 200 milhões de metros cúbicos por dia. O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, vai mais longe. Em entrevista ao GLOBO, prevê a autossuficiência do país no setor em cinco anos. Depois, pode até se tornar exportador:
- O país vai viver a era de ouro para o gás.
É tanto gás que em áreas como nas bacias dos Parecis, em Mato Grosso, e do São Francisco, em Minas Gerais, o gás chega a borbulhar, num fenômeno denominado exsudação. Em certos pontos, como na pequena Buritizeiro, em M8inas Gerais, na água que jorra do solo, com apenas um fósforo, se acende uma chama intermitente.
- Na Bacia dos Parecis, em Mato Grosso, no Rio Teles Pires, há 800 metros de rio borbulhando gás e, em certos pontos, se pode até gravar o som. Podemos deixar um Brasil desses para trás? - pergunta Magda Chambriard, diretora-geral da ANP.
Mas, para aproveitar todo esse potencial, é preciso que o governo defina uma nova política para o uso do gás e que a ANP, que já investe R$ 120 milhões por ano no estudo das bacias sedimentares, volte a fazer as rodadas de licitações, paradas desde 2008, com a descoberta do pré-sal.
Especialistas acreditam que, com mais matéria-prima e novas técnicas de exploração, a indústria nacional pode ganhar competitividade. E, hoje, o preço do gás, acima da média mundial, pode convergir para patamares internacionais nos próximos oito anos, reduzindo em 53% o valor cobrado do setor, estima a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan).
O potencial é enorme. Hoje, 96% das bacias ainda não foram exploradas. Estudos geológicos da ANP indicam grandes reservatórios em seis bacias, do Norte ao Sul. O diretor do Instituto de Eletrotécnica e Energia (IEE) da USP e ex-diretor da Petrobras Ildo Sauer vai mais longe: para ele, o Brasil está à beira de uma revolução energética. Segundo o especialista, estimativas do Departamento de Energia dos EUA dão conta de que o Brasil pode ter reservas de 7 trilhões de metros cúbicos, contra os 395 bilhões de metros cúbicos atuais. O volume é equivalente a quatro milhões de barris de petróleo por dia.
- É uma verdadeira revolução. Com o desenvolvimento de tecnologia na produção, haverá redução dos custos e menores impactos ambientais. Mas o governo tem que traçar uma política para isso - destaca Sauer.
Transição para uma matriz limpa
Marco Tavares, da consultoria Gas Energy, diz que a exploração de gás em parte das bacias ganhou nova dimensão com a descoberta de uma nova técnica, pelos americanos, que torna os campos economicamente viáveis:
- Assim, os EUA, que importavam 20% do seu consumo de gás, produzem hoje 100% da sua demanda. Lá, o mercado é 30 vezes maior que o do Brasil. O gás é mais limpo que outros combustíveis e pode alavancar o desenvolvimento industrial do país.
Entre os ambientalistas, o gás não associado ao petróleo também é visto como uma opção a carvão, diesel e óleo combustível, por ter menos impactos ambientais. Segundo Ricardo Baitelo, coordenador da Campanha de Energias Renováveis do Greenpeace, o gás é o elo entre as energias de baixa emissão, como a eólica e renovável, e os mais poluentes:
- O gás tem um papel importante, que é servir de transição do atual cenário para uma matriz energética limpa. Por isso, é fundamental essa transição, que vai durar até 2050. Se comparar as emissões do gás com o óleo combustíveis, a emissão cai até pela metade.
Rodolfo Landim, presidente da petroleira YXC e da Mare Investimentos, lembra que o gás aparece como a melhor opção frente a outras fontes de energia envoltas em polêmica. Por outro lado, Landim destaca a importância de o Brasil voltar a fazer os leilões:
- O mercado reage às decisões do governo. Vemos tantos problemas para a aprovação das hidrelétricas, a usina nuclear é um tabu, o carvão tem uma série de problemas (ambientais) e as energias solar e eólica não geram energia suficiente. E o Brasil vai continuar crescendo. Por que não se usa o gás para produzir diesel, o derivado mais consumido no país? Em todas essas bacias, o potencial precisa ser avaliado. Não adianta deixar lá embaixo.
Além dos leilões, é preciso pesquisa. Sauer lembra que o gás em São Francisco e Solimões está em um reservatório diferente (chamado folhelho) dos até então conhecidos:
- Estamos estudando a tecnologia, os custos e o impacto ambiental para a produção desse tipo de gás. Os EUA têm um gás semelhante, o chamado gás de xisto, para o qual foi desenvolvida uma tecnologia que reduziu os custos, para cerca de US$ 2 por milhão de BTUs (unidade internacional do gás), contra os mais de US$ 8 do gás produzido pela Petrobras e o que vem da Bolívia.
Magda brinca com o tamanho das reservas:
- Existe uma profecia de um colega nosso petroleiro que diz que o Brasil ainda vai achar gás natural embaixo do gasoduto Brasil-Bolívia.
É por esse gasoduto que vêm os 30 milhões de metros cúbicos que o país importa por dia do vizinho.
Os recursos da ANP para os estudos das bacias vêm do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), para evitar que esse dinheiro seja contingenciado pelo governo. Nos últimos quatro anos, foram destinados R$ 500 milhões. A agência diz que já está com todos os estudos prontos para realizar a 11ª rodada de licitações, em áreas acima do Rio Grande do Norte. Só falta a presidente Dilma Rousseff autorizar.
Cristiano Prado, da Firjan, acredita que o aumento da oferta de gás vai elevar a competitividade das empresas brasileiras. Hoje, o preço do gás está 17,3% acima da média mundial, com valor de US$ 16,84 por milhão de BTUs:
- Com mais gás, e uma política de governo, o preço pode convergir para o padrão internacional, fazendo com que o preço final à indústria caia 53%.
A abundância de gás já foi até mencionada, em 1956, por Guimarães Rosa em suas caminhadas pelo sertão. Em "Grande Sertão Veredas", fica clara a referência na região de Minas. "Em um lugar, na encosta, brota do chão um vapor de enxofre, com estúrdio barulhão, o gado foge de lá, por pavor."

Especialistas e empresários dizem que é preciso criar política para setor
Objetivo é estabelecer novo papel do gasoduto Brasil-Bolívia e preço para indústria

Ramona Ordoñez
ramona@oglobo.com.br
Bruno Rosa
bruno.rosa@oglobo.com.br

RIO - Apesar do enorme potencial das reservas no Brasil, especialistas e empresas são unânimes em afirmar que o governo precisa criar uma política para o uso do gás natural e, assim, estimular o desenvolvimento de uma infraestrutura para o setor. Hoje, apenas uma pequena parte (cerca de 4%) do gás é usada como matéria-prima para a produção de fertilizantes e metanol.
- É necessário ter uma visão de integração desse gás para as indústrias. As reservas podem ser inócuas sem planejamento. Por não ter gás suficiente, o Brasil não tem conhecimento real de sua demanda. A indústria da Argentina, por exemplo, consome 50% mais gás que a brasileira - diz Marco Tavares, da consultoria Gas Energy.
Com as novas reservas, o gasoduto Brasil-Bolívia continuará em uso, mas pode ganhar um novo papel, levando o gás a regiões onde não há oferta. Cristiano Prado, gerente de Competitividade Industrial e Investimentos da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), ressalta que é importante definir o uso do combustível e oferecer incentivos às indústrias, para acelerar os investimentos. Segundo ele, para esse gás ser absorvido no mercado, é preciso planejamento.
- A política para o setor inclui ainda o preço pelo qual o governo vai ofertar esse gás. Por isso, é importante escolher os setores. Hoje, há iniciativas livres do mercado privado - diz Prado.
Com gás, Eike vai criar empresa de fertilizantes
Com o gás no Maranhão explorado pela OGX, cujo potencial é de 15 milhões de metros cúbicos por dia - metade do que o Brasil importa da Bolívia -, a EBX, de Eike Batista, vai investir em fertilizantes nitrogenados. Para isso, Eike pretende criar uma empresa só de fertilizantes no segundo semestre. Constrói ainda, via MPX, um Complexo Térmico no Maranhão para receber o gás. Em Minas Gerais, a Petra, que tem entre os sócios o BTG Pactual, também levantará uma usina térmica.
Mas o setor tem pressa. A Petra, por exemplo, só agora começa a descobrir gás na Bacia de São Francisco, cuja rodada foi feita em 2005. E a produção deve começar apenas entre 2014 e 2015. A HRT, no Norte do Brasil, também ainda está explorando as áreas.
A urgência das novas rodadas fica nítida se levar em conta que os contratos atuais de concessão terminam no fim de 2015.
- A área em exploração no Brasil vai acabar, ficar zerada no fim 2015 e início de 2016. Ou essas áreas ofertadas viram descobertas ou elas se extinguem - destaca Magda Chambriard, diretora-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP).
Analistas ressaltam ainda que, apesar de importante, a Lei do Gás precisa ser regulamentada. Um exemplo é o uso do gasoduto da Petrobras por outras empresas. Segundo uma fonte, a HRT, por exemplo, descobriu gás na Amazônia, mas não vai conseguir usar a estrutura da estatal. Conclusão: analisa diferentes hipóteses para usar o gás.
Segundo especialistas, o gás tem diversas aplicações, como a transformação de minérios e o uso de fertilizantes nitrogenados. Hoje, lembra Tavares e Prado, o Brasil importa 80% dos fertilizantes consumidos no país:
- É possível ainda usar o gás no lugar do carvão para gerar o aço e para processar a bauxita (que faz o alumínio). Hoje, o gás não é competitivo porque não tem quantidade suficiente. A oferta de 200 milhões de metros cúbicos por dia em 2020 será um esforço muito grande justamente pela falta de política.
Nos EUA, com mais reservas, o governo já estabeleceu a parcela que vai para as novas termelétricas. Além disso, a indústria química vem ganhando impulso, com mais investimentos.

Corpo a Corpo
Autossuficientes em 5 anos

EDISON LOBÃO

O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, não esconde seu entusiasmo em relação ao potencial de reservas de gás natural no país. Para o ministro, em cinco anos, o Brasil poderá se tornar autossuficiente em gás. "O país vai viver a era de ouro para o gás."

O GLOBO: O gás natural pode se tornar tão importante quanto o petróleo no pré-sal?

EDISON LOBÃO: Sim. Os estudos e perfurações que vêm sendo feitos indicam um grande potencial em algumas bacias terrestres como a do Parnaíba e a do São Francisco, a ponto de nos tornar autossuficientes em gás natural e exportadores.

Quando isso pode ocorrer?

LOBÃO: Dentro de cinco anos podemos ser autossuficientes, quando a produção deverá estar na faixa dos 170 milhões de metros cúbicos por dia. O mundo e o Brasil vão viver a "era do ouro para o gás".

Como será?

LOBÃO: Com o desenvolvimento de novas tecnologias para produção do chamado gás de xisto, ou gás de folhelhos, que se encontra em reservatórios diferentes dos até então conhecidos.

E, nas bacias brasileiras em estudos, se encontra esse tipo de gás?

LOBÃO: Sim, e essas novas tecnologias vão permitir a redução dos preços do gás.

O Brasil poderá deixar de importar o gás da Bolívia?

LOBÃO: Não vamos deixar de importar da Bolívia. Temos o gasoduto que custou caro. O gás boliviano continuará sendo importante como segurança adicional, além do que a Bolívia é um país amigo. Temos que ajudar.

Mas para se desenvolver as reservas, o governo tem que fazer novas rodadas de licitação de áreas pela ANP.

LOBÃO: Com a aprovação no Congresso da Lei dos Royalties no primeiro semestre, espero que a ANP venha a fazer a 11 Rodada de Licitações ainda no segundo semestre do ano.

E quanto aos blocos no pré-sal na Bacia de Santos?

LOBÃO: Acredito que vamos fazer o primeiro leilão de áreas do pré-sal ainda neste ano.(Ramona Ordoñez e Bruno Rosa)

O Globo, 29/04/2012, Economia, p. 37

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