O Globo, Rio, p. 22
31 de Mai de 2008
Um alerta para os movimentos de cidadania
Organizações se espalham pelo país, e coordenadores do Rio e de São Paulo advertem para envolvimento com política
Selma Schmidt
Rio, São Paulo, Teresópolis, Maringá. E ainda Vitória, Januária, Ilhabela, Ribeirão Bonito, Belém. Começam a se espalhar por cidades brasileiras movimentos da sociedade civil voltados para a melhoria da qualidade de vida, muitos inspirados no modelo implantado em Bogotá. São pelo menos nove já funcionando. Outros três estão em fase de estruturação em São Luís, Recife e Goiânia.
Com as organizações se espalhando em ano de eleições municipais, representantes de entidades alertam para os perigos de os movimentos serem contaminados pela política:
- O dia em que um movimento apoiar um candidato ou um de seus membros sair candidato, será a morte desse movimento - advertiu Oded Grajew, da secretaria executiva do Nossa São Paulo, no primeiro Fórum Nossa São Paulo, realizado este mês.
Celina Carpi, diretora-executiva do Rio Como Vamos (RCV), concorda. Mais que isso: anuncia como um dos projetos do movimento este ano dialogar com todos os candidatos a prefeito:
- Queremos que os candidatos se comprometam, se eleitos, a apresentar um plano de governo baseado em metas. O RCV é apartidário e vai brigar para que esse compromisso seja assumido, seja qual for o vitorioso.
A secretária-executiva do Nossa Teresópolis, Rita Telles, é mais uma voz a enfatizar a necessidade de o movimento ser apartidário, além de independente e inter-religioso. A cidade, de 150 mil habitantes e belas paisagens, tem como um de seus grandes problemas o crescimento desordenado de construções, afirma Rita:
- Sonhamos com uma Teresópolis diferente.
Diante da dimensão dos problemas a serem enfrentados, os municípios começaram a discutir no fórum de São Paulo a criação de uma rede para a troca de experiências e informações -- inicialmente nacional, mas que poderia, no futuro, ser estendida para a América Latina. Para Celina Carpi, a rede facilitaria o conhecimento e o entendimento do que acontece em outras cidades: -- Há movimentos que trabalham com indicadores, outros com pesquisas de percepção ou mobilização, mas o objetivo é sempre conhecer o meio em que se vive. Seja Cáli, na Colômbia, o Rio ou Ilhabela, na realidade há grande sinergia e semelhança entre essas cidades e suas realidades locais.
Entusiasmado com a rede de cidades, Oded Grajew acha que ela deve avançar pela América Latina:
- As soluções para os problemas acontecem quando a sociedade se mobiliza e a democracia participativa avança. A sociedade cobra, exige, participa, coopera e controla o poder público. Uma rede na América Latina permite troca de experiências e aprendizado.
Em São Paulo, segundo Grajew, houve mudanças positivas nos indicadores de saúde, de educação e na taxa de homicídios. Por outro lado, têm piorado os indicadores ambientais e de mobilidade: -- São Paulo pode estar perto de um colapso, por falta de planejamento, de visão do futuro.
O Nossa Ilha Mais Bela é mais um movimento surgido num município paulista:
- É necessário juntar os cidadãos para que eles exerçam o peso de sua união - observa Georges Henry Grego, um dos dirigentes do movimento.
Já Lizete Berilo, da Amigos Associados de Ribeirão Bonito (Amarribo), do interior de São Paulo, lembra que a entidade tem como meta o combate à corrupção:
- Fomos os primeiros a conseguir a cassação de um prefeito, em 2002.
Inspirada na Amarribo, a Associação dos Amigos de Januária (Minas Gerais) tem também como foco a corrupção. Fábio Oliva, um de seus dirigentes, conta que a organização foi responsável por denúncias que derrubaram cinco prefeitos:
- A corrupção nos ocupa 24 horas por dia.
A corrupção é ainda o principal enfoque da Transparência Capixaba, de Vitória, no Espírito Santo:
- É preciso integrar os órgãos de combate à corrupção, haver uma política de transparência pública e a ampliação dos mecanismos sociais de controle - diz Eduardo Simões, da direção do movimento.
Para movimentos em formação, o médico Daniel Becker, que dirige o escritório do Synergos no Brasil, informa que o instituto está desenvolvendo uma metodologia com o objetivo de incluir representantes de comunidades carentes, desde o início, nas discussões.
- É importante promover a inclusão. Os setores populares devem apresentar propostas e acompanhar o desenvolvimento de ações, para que as mudanças que venham a ocorrer atendam às suas necessidades - diz Daniel Becker, um dos coordenadores do RCV.
No Nordeste, São Luís e Recife estão articulando a criação de movimentos. Para o presidente do Instituto de Cidadania Empresarial do Maranhão, Ted Lago, as redes possibilitam ganhar tempo:
- Aprende-se com os projetos tentados que deram e não deram certo - afirma ele. - Estamos num bom momento, um ano eleitoral. É um momento para fazermos os candidatos assumirem compromissos e lembrá-los de que serão cobrados, de maneira técnica e transparente, sobre o que prometerem.
Outra defensora da rede, Suzana Leal, do Instituto Ação Empresarial pela Cidadania, de Pernambuco, está preocupada com o fato de Recife estar despontando no mapa da violência:
- Vivemos um clima de guerra. O momento é de se mobilizar para começar a acompanhar indicadores de qualidade de vida.
Na Colômbia, uma rede de 5 cidades
Mudança na Constituição permite o acompanhamento e a cobrança de metas
Na Colômbia, onde nasceu em 1997 o Bogotá Como Vamos, cinco movimentos se interligam através de uma rede. Depois de Bogotá, surgiram organizações em Barranquilla, Cáli, Cartagena e Medellín. Com o respaldo da Constituição colombiana - que foi mudada, passando a determinar que os prefeitos se comprometam com um plano de governo -, os movimentos de cidadania acompanham a gestão e cobram metas. Segundo Carlos Córdoba, do Bogotá Como Vamos, na capital os números refletem melhorias nas áreas de educação, saúde e segurança pública:
- Há 15 anos tínhamos uma taxa de homicídios de 84 casos por cem mil habitantes. Hoje, estamos em 18. A meta é chegarmos a 12 por cem mil -- conta ele, que participou do primeiro Fórum Nossa São Paulo.
Córdoba explica que o Bogotá Como Vamos foi criado essencialmente por empresários: a Casa Editorial El Tiempo (que edita o principal jornal do país), a Fundação Corona e a Câmara de Comércio de Bogotá.
- Somos um grupo interessado em monitorar a qualidade de vida, sem tendências políticas.
Hoje, os candidatos sabem que tem alguém acompanhando as propostas. Por isso, eles têm que ser mais objetivos.
Moradora: sensação de viver num lugar mais seguro
Também tendo como base instituições empresariais, em Medellín o movimento foi criado há três anos. A cidade é mais uma onde a taxa de homicídios caiu:
- Medellín era conhecida como uma das cidades mais violentas, com alta taxa de homicídios: 60 por cem mil. Terminamos 2007 com 28 por cem mil. A sensação dos cidadãos é de que vivemos num lugar muito mais seguro. Isso tem feito com que haja uma apropriação dos espaços públicos por parte dos cidadãos. A gente sai à noite, compartilha com amigos e a família -- diz Piedad Restrepo, do Medellín Como Vamos.
Piedad enfatiza a importância da integração entre cidades:
- O avanço de algumas cidades pode ser exemplo para outras -- diz ela, que esteve em São Paulo.
Uma posição compartilhada por Lake Sagaris, do Movimento Cidade Viva, de Santiago, no Chile, outra participante do fórum:
- As experiências são muito diversas, mas os problemas têm raízes comuns. Se pudermos saber das diversas experiências e enfrentar os problemas juntos, daqui a alguns anos as cidades vão ser tudo o que podem e que devem ser, porque são lugares com uma riqueza grande, às vezes escondida.
Rio Como Vamos monitora 13 áreas na capital
O Rio Como Vamos é um movimento de cidadania que monitora os indicadores de qualidade do município do Rio de Janeiro, acompanhando o desempenho da administração pública em 13 áreas: saúde; transporte; educação; segurança pública e violência; pobreza e desigualdade social; meio ambiente; lazer e esporte; habitação e saneamento; inclusão digital; trabalho, emprego e renda; cultura; vereadores; e orçamento.
Os resultados desse monitoramento, que são divulgados mensalmente pelo GLOBO e pelo Globo Online, podem ajudar os cidadãos a avaliar seus administradores e a lutar pela melhoria da qualidade de vida na cidade.
O movimento é apolítico e tem apoio das seguintes entidades: Fecomércio, Firjan, Associação Comercial, Synergos, Observatório de Favelas, Iser, Cedaps, CDI, Idac, Ethos, Ibcc, Iets, Santander, Terminal 1, Unicef e Fundação Avina. O trabalho pode ser acompanhado pelo site www.riocomovamos.org.br.
O Globo já publicou
Dezembro 2007: Pesquisa sobre a percepção dos cariocas em relação à qualidade de vida na cidade, feita pelo Iser.
Janeiro 2008: Avaliação de todas as áreas da administração municipal, com base no desempenho no período 1996-2006.
Fevereiro 2008: Análise do ensino fundamental, com base em dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2005.
Março 2008: Primeiros resultados de pesquisa de percepção da população sobre a cidade.
Abril 2008: Novos números da pesquisa de percepção.
O Globo, 31/05/2008, Rio, p. 22
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