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Turistas pagam para cacar sapos

OESP, Vida, p.A18
21 de Nov de 2004

Turistas pagam para caçar sapos
ONG americana introduz no Brasil o conceito de turismo científico. Voluntários têm ajudado pesquisadores no Pantanal
Evanildo da Silveira
Pagar para se embrenhar na mata atrás de morcegos ou chafurdar em pântanos à caça de sapos e cobras é uma idéia no mínimo estranha. Pelo menos no Brasil. Mas por estranho que pareça há gente fazendo isso. Nos últimos quatro anos, pelo menos 700 pessoas, de 16 a 80 anos, das mais variadas profissões, a maioria de estrangeiros, se dispuseram a pagar US$ 2.400 para ajudar cientistas em pesquisas de campo no Pantanal.
Quem organiza as excursões dessa espécie de turismo científico é a Organização Não-Governamental Earthwatch Institute (EWI), que atua em cerca de 50 países. No Brasil, ela trabalha em parceria com outra ONG, a Conservação Internacional, que cede sua Fazenda Rio Negro, que tem uma área de reserva ambiental de 7 mil hectares, no município de Aquidauana, no pantanal de Nhecolândia, em Mato Grosso do Sul, para os estudos de campo.
Segundo o biólogo americano Don Eaton, diretor do Centro de Pesquisas do EWI no Pantanal, o objetivo das excursões é envolver a sociedade na ciência. "Queremos que as pessoas passem a dar valor à atividade científica", explica. "Além disso, nosso objetivo é transformar esses voluntários que participam das pesquisas em embaixadores da conservação do Pantanal."
Para a bióloga brasileira Ellen Wang, coordenadora do EWI no Pantanal, o envolvimento do público é uma das maneiras mais eficientes de abordar questões ambientais complexas em todo o mundo e conscientizar mais pessoas em relação a elas. "Participando de estudos científicos, elas percebem a necessidade da preservação dos recursos renováveis e não renováveis", diz. "Assim, elas podem ajudar na busca de soluções pelo desenvolvimento sustentável."
PARCEIROS
Além das pessoas que pagam uma taxa para participar das expedições científicas, que já somam mais de 65 mil em todo o mundo, o EWI também tem parcerias com empresas multinacionais, como o banco HSBC, a Shell, a British American Tobacco Company, a Diageo e a Alcoa e a mineradora Rio Tinto, que pagam para seus funcionários participarem das pesquisas. Assim como os voluntários individuais, eles trabalham com os cientistas por, no máximo, duas semanas.
Foi o caso do engenheiro florestal Paulo Augusto Bueno Rocha, da Mineração Corumbaense Reunida S.A. (MCR), empresa do Grupo Rio Tinto. Em dezembro de 2002, ele participou, durante uma semana, de três projetos de pesquisa. Durante a experiência, Rocha realizou diversas atividades, como preparar o material para a pesquisa no campo e a instalação de redes para captura."Foi espetacular", diz. "Participei de estudos sobre morcegos, onça-pintada e catetos e queixadas. A experiência foi ótima, pois aprendi muita coisa sobre a fauna."
Sua colega de empresa Tânia Shirley Sousa, secretária-executiva da gerência-geral da MCR, também não se arrepende de ter participado de um programa de turismo científico. Durante cinco em dias, em janeiro deste ano, Tânia participou das pesquisas sobre répteis e anfíbios da bióloga Vanda Lúcia Ferreira, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) "Adorei", diz. "Recomendo a qualquer pessoa. Participamos do Projeto Saving the Pantanal. O envolvimento e a preocupação foram contagiantes."
Sem nenhuma ligação anterior com ciência ou pesquisa, Shirley diz que aprendeu muito com a sua participação no trabalho dos cientistas. "Aprendi a entender que sem preservação não temos como desfrutar o meio ambiente", conta. "Seria bastante interessante que o projeto se estendesse às escolas de educação infantil e aos fazendeiros (os que mais degradam o meio ambiente, não todos, mas a maioria). Os anfíbios e os répteis são grandes indicadores de qualidade do meio ambiente."
Assim como eles, que saíram com novos conhecimentos da experiência, a empresa para a qual trabalho também teve ganhos. "Como parte do trabalho realizado na MCR fazemos a 'revegetação' das áreas mineradas", explica. "O conhecimento mais específico da fauna que adquiri ajuda nessa tarefa, pois o uso de espécies que atraem os animais para esses locais contribui, e muito, para o processo de sucessão natural das espécies vegetais e, portanto, na reintegração dessas áreas à paisagem natural."
APROVAÇÃO
Os cientistas, que a princípio estavam receosos de trabalhar com leigos, também aprovaram a experiência. "No começo achei que não iria dar certo", lembra a bióloga Vanda Lúcia. "Mas acabei me rendendo e adorando. Os voluntários são pessoas que não reclamam de entrar no mato, na água ou de desatolar um carro."
O ecólogo George Camargo, da mesma universidade, que realiza pesquisas sobre morcegos, é outro cientista que gostou da ajuda dos turistas científicos. Entre abril de 2002 e março deste ano, ele trabalhou com cerca de 60 voluntários de vários países e do Brasil, como Rocha, em grupos de três ou quatro, em períodos intercalados de 7 a 14 dias. "É um pessoal interessado e sempre bem-disposto", elogia. "Com a ajuda deles, capturei 690 morcegos de 25 espécies."
Outro aspecto que faz com que os turistas científicos sejam bem-vindos é o dinheiro. Parte dos US$ 2.400 que eles pagam para o EWI vai para os projetos de pesquisa. "É uma ajuda financeira importante", diz Camargo. "Com ela a gente pode comprar o material de consumo das pesquisas, como combustível, papel, tinta para impressora e até passagens aéreas."
Para sua colega Vanda, seria impossível realizar suas pesquisas sem o dinheiro dos voluntários. "Para chegar aonde realizo meus estudos é preciso ir de avião", explica. "O dinheiro deles permite pagar as passagens, além de outras despesas."
É por isso que Eaton, da EWI, espera que a idéia de usar voluntários em pesquisas pegue no Brasil. "Para o brasileiro ainda é meio esquisito ser um voluntário pagante", reconhece. "Mas aos poucos isso vai mudar. No futuro pretendemos abrir um escritório no Brasil."

Idéia será adotada por mais instituições
ONG e Embrapa planejam levar a experiência a Minas e ao litoral da Bahia
Evanildo da Silveira
O trabalho do Earthwatch Institute ainda é único no Brasil, mas não por muito tempo. Já há instituições e organizações não-governamentais com planos de seguir o exemplo da ONG americana. É o caso, por exemplo, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e da ONG Conservação Internacional (CI), parceira do EWI no turismo científico no Pantanal Mato-Grossense.
O projeto da CI é nacionalizar a experiência do EWI. "O valor de US$ 2.400 é muito para os brasileiros", diz Alexandre Prado, responsável pela Fazenda Rio Negro, da CI. "Queremos criar um programa semelhante ao do EWI, mas mais barato. Devemos iniciar um projeto no próximo ano em Caratinga, Minas Gerais. A idéia é estudar os macacos muriquis."
Para isso, a CI já tem parceria com uma operadora de turismo local e com duas ONGs que atuam numa reserva que existe no município. "Além disso, temos um acordo com a faculdade de Caratinga, que fará capacitação da comunidade local para trabalhar no projeto", afirma Prado.
No caso da Embrapa, a idéia é criar um programa de turismo científico no Sítio do Descobrimento, no litoral sul da Bahia, para proteger orquídeas e bromélias. "Hoje essas plantas são retiradas ilegalmente das matas para ser vendidas", denuncia o engenheiro agrônomo Sérgio Coutinho, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen). "Queremos criar um esquema para coibir essa exploração. Também vamos montar um banco de germoplasma (material de reprodução das plantas) para proteger essas plantas."
É na montagem desse reservatório de germoplasma que entram os turistas científicos. "A idéia é organizar excursões para a coleta de orquídeas e bromélias para formar o banco", explica Coutinho. "Essa coleta poderia ser feita por turistas voluntários, orientados por especialistas e com autorização do Ibama."

Números
2.400 dólares é o que custa a temporada como turista científico na Fazenda Rio Negro (MS), da ONG Conservação Internacional, que a cede para a ONG Earthwatch Institute, responsável pelas excursões
700 pessoas, a maioria estrangeiros, de 16 a 80 anos, pagaram essa quantia para ajudar os cientistas em pesquisas de campo no Pantanal Mato-Grossense
65 mil pessoas em todo o mundo participam dessas expedições
50 países já contam com o programa do Earthwatch Institute
690 morcegos de 25 espécies foram capturados em dois anos por cerca de 60 turistas científicos para pesquisa de ecólogo
2 semanas é o tempo máximo de estada no local das pesquisas

OESP, 21/11/2004, p. A18

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