Gazeta de Cuiabá-Cuiabá-MT
19 de Set de 2004
Com a construção da aldeia turística fora do Parque, o cotidiano das tribos e suas tradições não sofre interferências
Os povos xinguanos Waras e Trumais, duas das 14 etnias existentes no Alto Xingu, formaram a Associação Puwixa Wene para desenvolver projetos de turismo indígena na borda Oeste do Parque Nacional do Xingu, em Mato Grosso. Embora existam inúmeras tentativas do gênero, a iniciativa é considerada inédita no país, pois beneficia as comunidades indígenas mas é desenvolvida fora da reserva.
O primeiro passo foi a criação de uma aldeia turística, implantada em área externa, de propriedade particular, porém próxima ao Parque. É nessa estrutura -inspirada nas tradicionais aldeias das comunidades indígenas do Xingu, onde serão recepcionados os turistas. No local foram construídas cinco ocas. Duas são reservadas à exposição e comercialização do artesanato xinguano; uma é a Casa dos Homens, destinada a reuniões e manifestações culturais; outra acomoda as famílias indígenas que se revezam no local de forma a não gerar impactos no cotidiano das tribos e a quinta oca serve para acomodação dos turistas, com limite de no máximo dez pessoas por grupo.
De forma alternada e com subgrupos de duas ou três pessoas, o roteiro proporciona contato com os índios, pernoite na aldeia turística e, durante o dia, aprendizagem de técnicas de pesca indígena, do preparo do tradicional bijú e da produção do sal de aguapé, uma das especialidades dos índios Trumai, além da confecção de artesanatos com argila.
O projeto visa divulgar as tradições indígenas do Xingu por meio de um turismo ecológico e consciente e promover o desenvolvimento sustentável da região, criando alternativas econômicas com mínima interferência no cotidiano das aldeias. O recurso arrecadado com a venda de artesanato e visitação à aldeia turística será aplicado pela associação Puwixa Wene em programas de saúde indígena, transporte e fiscalização das fronteiras do Parque, entre outras.
O empreendimento segue o modelo bem sucedido de turismo "indígena já praticado em países como Chile, Canadá e Equador", explica o consultor turístico e ambiental Lúcio Antônio Machado, responsável técnico pelo projeto. "Para não haver interferência no dia-dia das aldeias, a opção das comunidades foi a construção da Aldeia Turística fora do Parque", afirma.
O Governo de Mato Grosso, representado pela Secretaria de Desenvolvimento do Turismo e pela Superintendência de Políticas Indígenas de Mato Grosso, fez visita técnica ao projeto em agosto e começa a auxiliar na sua divulgação em eventos turísticos nacionais e internacionais. "A iniciativa ajuda a afastar invasores e posseiros das margens do Xingu, a preservar a natureza do entorno do Parque e ainda gera uma alternativa sustentável de subsistência para as comunidades indígenas", avaliou Yêda Marli de Oliveira Assis, Secretária de Turismo de Mato Grosso. Para Idevar Sardinha, Superintendente Estadual de Políticas Indígenas, "o importante é que o contato do turista com o índio acontece fora do Parque", disse.
O projeto foi apresentado também ao Cacique Aritana, uma das mais importantes lideranças do Alto Xingu, que se encarregou de levar a idéia a outras comunidades. O resultado será informado por Aritana em nova reunião a ser agendada com o Governo e idealizadores do projeto e operadores de turismo que planejam fazer o lançamento do produto nacional e internacionalmente, ainda este ano.
Há sete anos o empresário do setor de turismo João Vicentini busca alternativas para viabilização sustentável de projetos de turismo que beneficiem comunidades indígenas do Parque Nacional do Xingu. Dono de terras na região, ele investiu na construção de um hotel localizado às margens do rio Von Den Steinen, em Feliz Natal, há dez quilômetros do Parque Indígena do Xingu e planeja transformar parte da área em Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN).
Parque Nacional do Xingu - É o 3o maior parque indígena do Brasil e do mundo. Possuiu área de aproximadamente 2 milhões e 800 mil hectares e população atual de 5 mil índios, integrantes de 204 tribos e 14 etnias.
As línguas faladas no Parque são o Kamaiurá, o Kaiabi (família Tupi-Guarani); o Juruna (tronco Tupi); Aweti (tronco Tupi); Mehinako, Wauja e Yawalapiti (família Aruak); Kalapalo, Ikpeng, Kuikuro, Matipu e Nahukwá (família Karib); Suyá (família Jê) e Trumai.
Após a 2ª Guerra Mundial, com a entrada do homem branco para desbravar a Amazônia, o governo brasileiro criou a Expedição Brasil Central, liderada pelos irmãos e sertanistas Villas Boas (Cláudio, Leonardo e Orlando), que trabalharam arduamente por muitos anos para desenvolver um programa de demarcação e preservação das terras indígenas do Xingu.
Desde sua criação, em 1961, o Parque manteve-se relativamente isolado, mas com o avanço da fronteira agropecuária e a constante descoberta de riquezas minerais em suas proximidades, a manutenção de seus recursos naturais tem sido ameaçada por invasões de madeireiros, garimpeiros e conflitos com posseiros.
A implantação de projetos de desenvolvimento sustentável nas regiões do entorno do Parque é apontada por ambientalistas, antropólogos e lideranças indígenas como uma possível solução para a manutenção de sua integridade física e cultural
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