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Tudo para arrecadar ainda mais

CB, Política, p. 6
11 de Mai de 2008

Tudo para arrecadar ainda mais
A questão ambiental é deixada em segundo plano pelo governo do Rio Grande do Sul quando o assunto é incentivo para ampliar os investimentos das grandes empresas papeleiras no estado

Lúcio Vaz
Da equipe do Correio

A geração de empregos e o aumento na arrecadação de impostos são os principais argumentos do governo do Rio Grande do Sul para abrir as portas do estado à expansão das florestas de eucaliptos e à implantação de novas fábricas de celulose. As três papeleiras em atuação no estado, Aracruz, Votorantim e Srota Enso, pretendem produzir 4,1 milhões de toneladas de celulose por ano. Considerando o preço desse produto no mercado internacional, a renda anual será de R$ 5,4 bilhões. Pela alíquota básica (17%) do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS), R$ 900 milhões ficariam nos cofres no governo estadual. Mas cerca de 93% da produção será destinada à exportação, que tem isenção total de ICMS. Assim, restariam R$ 57 milhões para o estado.
Uma série de reportagens publicada pelo Correio na semana passada mostrou o empenho do governo de Yeda Crusius (PSDB) para viabilizar a operação das papeleiras. A governadora trocou o comando da Secretaria do Meio Ambiente para acelerar a concessão de licenças ambientais e aprovou um zoneamento ambiental de silvicultura que não impõe limites à implantação de florestas de eucaliptos, segundo interpretação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama-RS) e de entidades ambientalistas do estado. A reportagem também mostrou que as papeleiras fizeram contribuições eleitorais no valor total de R$ 2 milhões a políticos gaúchos em 2006, sendo R$ 500 mil para Yeda.
Questionado sobre os benefícios da silvicultura, com a conseqüente produção de celulose, o governo gaúcho informou que os investimentos das três empresas somarão R$ 10,7 bilhões até 2011. Desse total, R$ 2,4 bilhões serão empregados na formação de florestas (440 mil hectares), R$ 5,2 bilhões nas instalações industriais e R$ 3,1 bilhões na operação industrial. Como esses investimentos teriam um fator multiplicador de 2,29, o efeito real na economia gaúcha seria de R$ 24,6 bilhões no período. O estado estima a geração de 816 mil novos empregos.
O governo de Yeda Crusius faz as suas contas. O secretário do Desenvolvimento e dos Assuntos Internacionais, Luiz Fernando Záchia, enviou nota ao Correio informando que a carga tributária média do ICMS no Rio Grande do Sul representa 6,6% do Produto Interno Bruto (PIB). Considerando que esses investimentos gerarão um PIB adicional de R$ 6,5 bilhões no período, o potencial desse imposto é de R$ 430 milhões.
Mas a nota destaca: "Vale ressaltar que, caso os produtos sejam destinados à exportação, ocorrerá isenção de tributos, conforme previsão constitucional". O governo gaúcho lembra, porém, que os empregos gerados pelo setor resultarão em salários, que serão gastos com alimentos, vestuário, automóveis, que, por sua vez, vão gerar ICMS e outros impostos.
Exportação
O Correio conferiu com as empresas quanto do seu produto será destinado ao mercado externo.
A Votorantim investirá US$ 2 bilhões na instalação da base florestal e da indústria de celulose.
Pretende plantar 140 mil hectares na Zona Sul do estado. Já aplicou R$ 250 milhões em aquisição de terras. A fábrica de celulose da empresa deverá ser inaugurada em 2011, provavelmente em Rio Grande (RS) ou Pelotas, pela proximidade do porto de Rio Grande. A planta industrial vai produzir 1,3 milhão de toneladas de celulose, sendo 80% destinadas ao mercado externo.
A Stora Enso investirá R$ 920 milhões até 2014 na implantação de 100 mil hectares de eucaliptos na fronteira oeste. Incluindo a indústria com capacidade de produção de 1 milhão de toneladas/ ano, a multinacional vai investir US$ 1,3 bilhão no Rio Grande do Sul. Todo o produto será destinado ao mercado externo.
Mas essa é apenas uma pequena parte dos negócios da multinacional sueco-finlandesa. As vendas da Stora Enso atingem R$ 40 bilhões por ano. Instalada em 40 países nos cinco continentes, tem capacidade de produção de 16,5 milhões de toneladas/ano. No Brasil, mantém uma joint venture com a Aracruz, a Veracel Celulose, no Espírito Santo.
A Aracruz já produz cerca de 500 mil toneladas de celulose por ano, mas a sua produção será quase quadriplicada com a ampliação da fábrica de Guaíba (RS), chegando a 1,8 milhão de toneladas ano. O investimento da empresa somará US$ 2,6 bilhões.

Geração de empregos

As empresas produtoras de celulose apontam a geração de milhares de empregos e a ativação das economias locais como fatores que justificam a implantação de seus empreendimentos, mesmo que tenham a produção voltada para o mercado externo. A multinacional Stora Enso afirma que a implantação da fábrica e a expansão das atividades florestais da Veracel no extremo sul da Bahia, entre 2003 e 2006, contribuíram com 60% de todo crescimento econômico nos municípios da região. A Veracel também teria sido responsável diretamente por 19,2% dos novos postos de trabalho gerados no período.
A Votorantim afirma que a implantação da sua base florestal e o funcionamento da fábrica de celulose na Zona Sul do Rio Grande do Sul vão gerar 30 mil postos de trabalho na região. A Aracruz, que ampliará a sua produção de celulose de 500 mil para 1,8 milhão de toneladas ao ano, afirma que a implantação do seu projeto representará a contratação de mais de US$ 300 milhões em serviços terceirizados de empresas da região, com forte geração de renda e emprego no estado.(LV)

CB, 11/05/2008, Política, p. 6

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