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Tubarão passa de fera a vitima no mar do Rio

O Globo, Rio, p. 26
23 de Out de 2005

Tubarão passa de fera a vitima no mar do Rio
Estudo do Instituto Aqualung revela que dez das 28 espécies capturadas no estado estão ameaçadas pela pesca

O tubarão deixou nos anzóis e nas redes do mar do Rio a fama de fera assassina. Agora, é vítima. Um estudo do Projeto Tubarões no Brasil (Protuba), do Instituto Ecológico Aqualung, revelou que a pesca predatória e a sobrepesca praticadas no estado ameaçam a sobrevivência de várias espécies do predador, como o cação-anjo e o martelo. Em 49 pontos de desembarque de pescado da costa fluminense, os pesquisadores concluíram que dez dos 28 tubarões capturadas com maior freqüência no Rio estão nas listas de animais ameaçados de extinção e de pescados em excesso.
Entrevistas feitas por pesquisadores do instituto revelaram que 88% dos 326 pescadores ouvidos observam uma queda no rendimento da pesca, inclusive a do predador, e 61% reconhecem a diminuição do tamanho médio do tubarão capturado. O biólogo Marcelo Szpilman, diretor do instituto, diz que os dados levantados, associados à situação reconhecidamente crítica de algumas espécies, revelam um quadro assustador:
- O estado pode ter espécies extintas em no máximo dez anos. Nosso levantamento denuncia a diminuição de tamanho dos tubarões e a queda na quantidade capturada. É ainda mais alarmante porque confirma outros estudos, como o da Universidade de Dalhousie, no Canadá, que mostra a diminuição de 50% do tamanho médio desses animais no Atlântico Sul nos últimos dez anos.
Pesca de filhotes agrava o problema
A captura de filhotes, cada vez mais comum, é um problema grave. Segundo o Instituto Aqualung, o tubarão pode levar 15 anos até a primeira gestação, tem um crescimento lento e sua taxa de mortalidade infantil chega a 50%. A bióloga Patrícia Salem, coordenadora do Protuba, explica que a pesca descontrolada de filhotes é predatória mesmo praticada de forma artesanal.
- Ainda que os barcos industriais, com grandes arrastos, sejam mais danosos, os berçários ficam muitas vezes perto da costa, onde as pequenas embarcações trabalham com redes - diz Patrícia.
O caso é mais agudo no Recreio. Um estudo dos biólogos marinhos Luiz Constantino da Silva Júnior e Amanda de Andrade, da UFRJ, constatou que 85% dos espécimes de cação-frango capturados naquela praia são neonatos (filhotes). Isso seria um indicativo de que o mar do Recreio é utilizado como berçário da espécie.
Os pescadores, que popularizaram a expressão cação para se referir aos filhotes de tubarão, confirmam que quase sempre a melhor carne, da cor branca, está nos animais novos. Eles reconhecem, no entanto, a escassez do animal. Sebastião Roberto Queiroz, de 50 anos, pesca desde criança na Praia do Pontal, no Recreio, local conhecido historicamente pela aparição de tubarões de grande porte. Hoje, diz ele, o que dá dinheiro é a corvina:
- Lembro de quando entrava cardume de peixe e, atrás, pintava tudo que é tubarão. O barco ficava a apenas cem metros da areia. Agora, para a gente encontrar alguma coisa, pescamos a até oito quilômetros da costa, com redes a 70 metros de profundidade.
Repórteres do GLOBO acompanharam a pesca do grupo num pequeno barco na Praia do Pontal, que recolheria o pescado de cinco redes de até 700 metros de comprimento, situadas em vários pontos da costa do Recreio. O mar não estava para peixe. Depois de cinco horas de pesca, não deu para encher sequer um caixote, com algumas corvinas, poucos linguados, uma raia e outras espécies. Nenhuma espécie de tubarão, filhote ou não, foi retirada das redes.
Depois do desembarque, o pescador Jorge André Queiroz, de 27 anos, reconheceu a mudança, mas identificou outras causas para a escassez do predador nas águas do Rio:
- O tubarão anda sumido por causa das pescas de arrasto, que chegam sem poder perto da praia e do despejo de lixo no mar. A gente tira quilos de sacos e embalagens plásticas em cada pescaria.
Ibama do Rio está sem barco de fiscalização
O Ibama nacional, através do Centro de Pesquisa e Extensão Pesqueira das Regiões Sudeste e Sul, promete intensificar a fiscalização do tamanho mínimo de captura de nove espécies de tubarão. Além disso, exigirá que redes de emalhar não sejam maiores que 2,5 Km. O órgão pretende monitorar também o desembarque de barbatanas para coibir a prática do finning (pesca para obtenção exclusiva de nadadeiras). O peso das barbatanas não pode exceder a 5% do peso das carcaças pescadas.
No Rio, no entanto, o sucateamento do órgão prejudica a fiscalização. A chefe de fiscalização da superintendência regional, Maria Léa Xavier, reconhece a deficiência do órgão:
- O monitoramento está prejudicado pela falta de instrumentos adequados Atualmente, no Rio, sede da superintendência, não dispomos de embarcação para fazer a fiscalização. Já encaminhei um documento a Brasília relacionando todas as nossas necessidades.

O Globo, 23/10/2005, Rio, p. 26

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