O Globo, Panorama Carioca, p. 20
Autor: VIEIRA, Márcia
23 de Ago de 2014
Triste Baía
Márcia Vieira
Há pelo menos duas décadas o carioca convive com a promessa de que a Baía de Guanabara será despoluída. Durante boa parte desse período, os habitantes dos 15 municípios banhados pelas águas que formam uma das paisagens mais bonitas do mundo mantiveram a esperança de que ela um dia se tornasse realidade. Com a proximidade das Olimpíadas, a esperança cresceu. Afinal, os Jogos ajudaram a tornar realidade outra velha proposta que cansava os ouvidos do carioca. A revitalização do Porto do Rio ganhou contornos de realidade. É verdade que os custos têm sido altos. O trânsito ficou caótico, e muita gente viu a derrubada da Perimetral como um desperdício de dinheiro público. Apesar disso, a área está prestes a mudar. E a baía?
Não parece ser falta de dinheiro o que impede a Baía de Guanabara de deixar de ser uma latrina a céu aberto. Rememoremos. Ao longo de todo esse tempo, os financiamentos jorraram. O governo japonês e o Banco Interamericano de Desenvolvimento despejaram uma quantia em torno de US$ 1,7 bilhão, e esses não foram os únicos recursos. Mas a baía continuou um receptáculo de esgotos. Agora mesmo está sendo gasta outra montanha de dinheiro, e já se fala em empréstimo mais à frente.
Mas o cheiro de podre e a água turva continuam ali. E, como admitem até mesmo autoridades estaduais, continuarão ali por outros 20 anos. Também não parece ser uma questão de impossibilidade técnica. Afinal, o mundo conhece exemplos bem-sucedidos de despoluição. Basta lembrar a Baía de Sydney, na Austrália, aliás, um projeto também vinculado aos Jogos Olímpicos.
Recentemente, o secretário estadual de Meio Ambiente, Carlos Portinho, alegou que, enquanto todos os 15 municípios que cresceram no entorno da baía não tiverem sua rede de saneamento completa, a poluição não terá fim. Admitamos que o argumento é forte.
Mesmo assim, para além do absurdo de em pleno século XXI ainda existirem no estado tantos municípios sem uma rede satisfatória de saneamento básico, como admitir que ainda existam galerias despejando esgoto não tratado na Marina da Glória, sede das provas de vela dos Jogos Olímpicos, e na Praia de Botafogo, uma das paisagens mais importantes desta cidade, situadas a apenas três quilômetros da sede do governo estadual?
Foi Torben Grael, chefe da equipe de vela brasileira nos Jogos, quem chamou atenção para o descalabro, ao comentar as condições da baía há duas semanas, durante o evento-teste: "Temos despejo de esgoto dentro da Marina da Glória, o que é um absurdo. Nós ganhamos a indicação dos Jogos em 2009, e é um absurdo que pelo menos isso não tenha sido feito ainda". Tem toda a razão.
Vale aqui uma lembrança. Os mais antigos, especialmente aqueles que são (ou foram) fãs da belíssima atriz italiana Claudia Cardinale, podem recordar que no filme "Uma rosa per tutti", de 1967, ela não apenas mergulhava, como dava gostosas braçadas nas águas da Praia de Botafogo, com o Pão de Açúcar servindo de moldura. A cena, desnecessário dizer, é inimaginável nos dias atuais. Serve, no entanto, para uma reflexão: por que nos acostumamos com a perda de uma paisagem reconhecidamente tão maravilhosa? Talvez, fazendo aqui uma citação enviesada da música "O estrangeiro", de Caetano Veloso, porque tenhamos nos tornado cegos de tanto vê-la.
O biólogo Mario Moscatelli, um ambientalista que denuncia há sete anos a situação nesses dois pontos nobres da cidade, acha que não há um verdadeiro interesse das autoridades em recuperar a baía. "Se isso acontecer, a mamata acaba. Dinheiro não falta. Daqui a pouco, vão anunciar outro programa de despoluição, outro empréstimo.... e o esgoto continua jorrando." Talvez o desabafo seja apenas o desespero de um ambientalista apaixonado, que começa a perder as esperanças. Se esse for o caso, está mais do que na hora de as autoridades provarem que ele está errado.
Despoluir a Baía de Guanabara não é apenas uma questão de recuperar a balneabilidade de suas águas. Não é só permitir o prazer de mergulhar em Botafogo, Icaraí, São Francisco ou Ramos. Trata-se da recuperação de um símbolo fundamental para fortalecer a autoestima do carioca, e mostrar ao mundo, em 2016, que temos competência para cuidar da natureza que ganhamos de presente.
O Globo, 23/08/2014, Panorama Carioca, p. 20
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