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Tribos dispensam porta-vozes e querem mais participação direta; cidades em MG e BA terão índios candidatos a prefeito

Folha de S. Paulo-São Paulo-SP
Autor: PAULO PEIXOTO
22 de Mai de 2004

Nova geração indígena busca espaço político

Dizendo-se cansados das administrações "brancas" e não
mais querendo que seus direitos sejam defendidos
apenas por porta-vozes, uma nova geração de índios,
aos poucos, está ingressando na vida
político-partidária. Eles querem ser os "donos" do
poder local para que seus "parentes" indígenas possam participar ativamente na tomada de decisões. São pré-candidatos a prefeito o xacriabá João Nunes de Oliveira, 28, no município de São João das Missões (MG), e o pataxó hã-hã-hãe Agnaldo Francisco dos Santos, 36, em Pau Brasil (BA). Índios também devem ser candidatos a prefeito em São Gabriel da Cachoeira (AM) -que concentra 20 povos indígenas, formando cerca de 90% da população local- e em Uiramutã (RR). Em 2000, de acordo com o Cimi (Conselho Indigenista Missionário), vinculado à Igreja Católica, apenas um índio se elegeu prefeito no país. Foi em Baía da Traição (PB). A Funai (Fundação Nacional do Índio) considera que dois foram eleitos prefeitos naquele ano, por incluir também a prefeita de Uiramutã (leia texto abaixo). A nova geração indígena é caracterizada por ter emergido das salas de aula indígenas. João Nunes formou-se professor e é diretor de escola indígena. Comanda 13 das 29 unidades escolares na reserva dos xacriabá. Agnaldo foi o primeiro índio de Pau Brasil, no sul da Bahia, a estudar. Concluiu o ensino médio e o curso técnico de enfermagem. Em 2000, Agnaldo debutou na política e foi eleito vereador. Descobriu então a "necessidade de os índios ocuparem seu espaço" na vida pública. Ao chegar à Câmara Municipal de Pau Brasil, não teve o direito de discursar em plenário. "Para poder exercer o meu direito de falar, tive que ir à Justiça e obter um mandado de segurança. Só assim pude fazer os meus discursos. Isso mostra que o preconceito ainda é grande", disse. João Nunes teve outra experiência. Desde a emancipação, em dezembro de 1995, de São João das Missões, município pobre na carente região norte de Minas, os xacriabá se aliaram aos políticos locais e garantiram os dois mandatos do atual prefeito, Ivan Correia (PDT). Nessa composição política, os índios indicaram o vice-prefeito. O cacique Rodrigo Oliveira, o Rodrigão, morreu doente, aos 63 anos, há um ano. "O que a gente percebeu durante esse tempo todo é que o nosso povo só foi usado, sempre foi discriminado. Agora chegou o momento de lutar pelo nosso povo", afirmou João Nunes, que, com outros índios xacriabá, fundou e comanda a comissão provisória do PT na cidade mineira. Um dado significativo difere Pau Brasil de São João das Missões. No segundo, os xacriabá são 63% da população de 10,2 mil habitantes e ao menos 48% do eleitorado local (cálculo sobre dados de 2003), o que dá boas chances ao candidato indígena, se o povo xacriabá se mantiver unido. Isso porque Correia tentará eleger seu sucessor de novo com um xacriabá como vice na chapa, procurando, assim, dividir os índios..

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