OESP, Metrópole, p. C1
06 de Jul de 2010
Três anos após despoluição, córregos de SP voltam a arrastar lixo e esgoto
Um dos símbolos do programa de R$ 2 bilhões, o Carajás, que cruza o Parque da Juventude, exala mau cheiro e espanta frequentadores
Diego Zanchetta, Rodrigo Burgarelli
Três anos depois de ser despoluído pelo governo do Estado, o Córrego Carajás voltou a espantar os frequentadores do Parque da Juventude, na zona norte de São Paulo. Carregado de esgoto e lixo, o curso d"água espalha um forte odor dentro de uma das principais áreas de lazer da cidade, por onde passam cerca de 15 mil pessoas todos os dias. Moradores da região dizem ter desistido de correr na pista de cooper do parque por causa do mau cheiro.
A situação do Carajás também é observada em outros três córregos da capital cuja despoluição já foi concluída pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), na primeira fase do Programa Córrego Limpo. Em 2007, o projeto foi lançado com a meta de limpar cem córregos paulistanos até dezembro de 2010. A etapa inicial terminou em março de 2009, com 28 córregos revitalizados e obras em trechos de outros 14.
No caso dos moradores de Santana, a limpeza do Carajás parecia uma conquista irreversível. Foram aplicados R$ 9,7 milhões na limpeza, incluindo 141 novas ligações de esgoto em residências que ainda lançavam dejetos direto no manancial, por meio de fossas sépticas. O "Riacho das Corujas", como é chamado por usuários do parque por causa das tocas dessas aves em sua margem, não fedia mais e desaguava no Rio Tietê.
Logo após a despoluição, em junho de 2007, o índice de Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO) do córrego caiu para 9 miligramas por litro; na medição feita em setembro de 2004, um ano após a inauguração do parque, o mesmo índice chegou a 193 mg/l ? uma água considerada limpa tem DBO de 30 mg/l. O feito tornou a intervenção um modelo para o Córrego Limpo, com a divulgação em universidades do Rio e de Minas Gerais sobre o sucesso da ação.
Mas segundo o administrador do parque, Paulo Pavan, o problema nunca desapareceu totalmente. E não foi só a estiagem que agravou o cheiro, de acordo com Pavan. Como outros moradores da Avenida Zaki Narchi, ele suspeita de ligações clandestinas de esgoto feitas diretamente no córrego por moradores do vizinho conjunto habitacional Cingapura, onde moram 6 mil pessoas. A Sabesp vai investigar se existem ligações clandestinas na bacia do córrego.
Contraste. O forte cheiro e a sujeira visível do córrego, de cor cinza, são contrastes no meio de um parque com limpeza, segurança, acessibilidade e atividades de lazer elogiadas em tom unânime pelos frequentadores. Inaugurado em 2003 no espaço onde funcionou por quase meio século a antiga Casa de Detenção (Carandiru), o Parque da Juventude custou R$ 11 milhões e foi instalado em uma área verde de 240 mil metros quadrados.
"Tudo no parque é bem cuidado", defende o promotor de Justiça João Batista Ferreira, de 53 anos. Com a advogada Rosane da Costa Silva, de 51, o promotor corre três vezes por semana no parque. "O cheiro ruim é o único problema que incomoda."
Para Júlio Cerqueira César Neto, engenheiro ambiental e ex-presidente do Comitê da Bacia do Alto Tietê, o programa tem pouco efeito prático. "O projeto é quase desprezível se for olhado o tamanho da rede hídrica e a quantidade de esgoto de São Paulo. Mas serve para a Sabesp fazer propaganda da ação aos seus acionistas", avaliou o especialista César Neto.
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100706/not_imp576956,0.php
Sabesp investiga esgoto clandestino na zona norte
A Sabesp informou que vai realizar uma inspeção na rede coletora de toda a bacia do Córrego Carajás para descobrir se foram feitas ligações clandestinas de esgoto no curso de 8,7 km do manancial. Segundo a companhia, na última vistoria, realizada em abril, havia 16 miligramas de oxigênio por litro, o que insere o curso de água na classificação "limpo".
Em relação ao Córrego Armênio Soares, a empresa afirmou que vazamentos de esgoto ocorreram "por conta de problemas operacionais", e prometeu fazer uma varredura na rede coletora para executar a manutenção corretiva. Mas reafirmou que o Córrego Arboreto foi despoluído e que o Limoeiro foi apenas parcialmente recuperado. "Vale ressaltar que, mesmo tendo sido despoluídos, lançamentos clandestinos de esgoto podem surgir nos córregos recuperados. Tão logo esses problemas são identificados, a Sabesp e a Prefeitura atuam para a sua regularização."
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100706/not_imp576967,0.php
Coleta da Sabesp tem defeito, dizem moradores
Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que um dos principais motivos que levam moradores a refazer as ligações clandestinas de esgoto após obras de saneamento é a má qualidade da rede de coleta instalada no local. Foi o que aconteceu em outro córrego que consta na lista de totalmente despoluído pelo Córrego Limpo: o Armênio Soares, no Itaim Paulista, zona leste da cidade. Moradores dizem que tiveram de voltar a lançar seu esgoto no córrego porque havia refluxo nos encanamentos feitos pela Sabesp. "O esgoto sempre entupia. E é melhor sujar o rio do que a pia da cozinha", afirma a catadora Cidália Correa do Nascimento.
Há também relatos de córregos onde a própria Sabesp voltou a lançar os dejetos no curso d"água. Um exemplo é o Arboreto, que nasce no Horto Florestal, no Jardim Pery, na zona norte. Na lista oficial do Córrego Limpo, o riacho foi dividido em dois ? o Ciclovia, que teria sido totalmente despoluído, e o Pedra Branca, cujos principais trechos teriam sido recuperados.
No entanto, há esgoto sendo despejado no curso d"água e lixo acumulado nas margens. Segundo moradores, a Sabesp teria canalizado o esgoto de um conjunto de residências que o despejava diretamente no rio, mas, em vez de conectar o cano na rede de coleta, continuou lançando os dejetos no córrego. "Faltaram só dois metros de encanamento, que tentei negociar mas não consegui. Essas pessoas agora pagam taxa de esgoto mas, se você olhar, não mudou nada", diz o líder comunitário e conselheiro do Horto, Rubens Ferreira.
A situação é parecida no Córrego Limoeiro, em São Miguel Paulista, na zona leste. Ele também consta na lista dos 14 córregos que tiveram os principais trechos recuperados, mas há lixo no leito e dezenas de canos despejando dejetos ? e mau cheiro ? por quase toda a extensão. "De que adianta limpar parcialmente se para a gente não muda nada?", questiona o cabeleireiro José Aparecido Campos. / D. Z. e R. B.
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100706/not_imp576972,0.php
OESP, 06/07/2010, Metrópole, p. C1
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.