OESP, Especial, p. X2 a X5
22 de Set de 2012
Tratar esgoto é maior desafio para despoluir o Tietê
Situação é mais crítica em dez municípios da Região Metropolitana, que até 2011 não tinham tratamento de dejetos, segundo a Cetesb
Bruno Deiro
Um estudo com os 176 municípios que fazem parte da Bacia do Rio Tietê revela que menos de 30% têm sistema de coleta e tratamento total de esgoto. Outros 31 (quase 20%), boa parte na região da Grande São Paulo, não realizam nenhum tipo de processamento nos dejetos que lançam no complexo hidrográfico.
Os números estão no Relatório de Qualidade das Águas Superficiais no Estado de São Paulo, da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), divulgado neste ano, com dados de 2011. O ponto mais crítico está em dez cidades da Região Metropolitana, ao norte e oeste da capital, que até o ano passado não tratavam o esgoto.
"Cidades como Barueri e Osasco são as que vamos atacar na terceira fase do Projeto Tietê", explica Carlos Eduardo Carrela, superintendente de projetos especiais da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). "Até 2015, o projeto prevê que nenhum desses municípios tenha menos de 50% de coleta e 60% tratamento."
Carrela diz que em alguns o porcentual de tratamento já subiu - Barueri, por exemplo, está com 30%. Em outros, no extremo norte, haverá um projeto especial. "Em Francisco Morato e Franco da Rocha será feito um sistema isolado, pois o esgoto não chega às cinco estações existentes na região metropolitana."
No interior, a maioria dos municípios sem sistema de tratamento está em áreas próximas a Araraquara e Bauru. "As cidades recebem investimentos em proporção diferente. Não há muitos projetos integrados, cada município lida com a questão conforme a vontade do prefeito", diz Édison Carlos, presidente do Instituto Trata Brasil.
Ele lembra que, muitas vezes, o plano de saneamento de uma cidade da Bacia do Rio Tietê é prejudicado pela falta de investimentos do município vizinho. "Como o meio ambiente não tem fronteira, a poluição percorre vários pontos da bacia e os resultados acabam sendo pequenos, Não adianta uma cidade tratar 100% se a outra não trata nada. Grandes municípios como Guarulhos, por exemplo, têm níveis de tratamento muito baixos."
Historicamente apontada como umas das cidades menos compromissadas com a questão do saneamento, Guarulhos despejava todo o esgoto de seu 1,2 milhão de moradores direto no Rio Tietê. Há pouco mais de dois anos, porém, conseguiu pôr em prática o projeto de uma década e saltou para 35% de tratamento.
"Em abril, fechamos acordo para a construção da terceira estação de tratamento. Em um ano, pretendemos tratar 50% do esgoto da cidade", diz Afrânio de Paula Sobrinho, superintendente do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae), empresa responsável pelo saneamento do município. Segundo o engenheiro, mesmo fora do Projeto Tietê, Guarulhos tem a meta de chegar a 80% de tratamento até 2016.
100%. Na Região Metropolitana, os únicos municípios que têm 100% de coleta e tratamento de esgoto são Salesópolis, onde fica a nascente do Rio Tietê, e São Caetano do Sul. No total, 51 cidades da bacia têm esse status - a maioria fica em regiões próximas a Jaú e Araçatuba. Esta última, por sinal, é a mais populosa da lista, com pouco mais de 180 mil habitantes. Os dois córregos da cidade, Ribeirão Baguaçu e Córrego Lafon, estão preservados. "A cidade não tem problemas com a destinação do esgoto, a não ser em casos pontuais de vazamentos, que são logo resolvidos", diz José Luiz Fares, presidente do Departamento de Água e Esgoto de Araçatuba (Daea). / Colaborou Rodrigo Burgarelli
Limpeza pode não estar completa até o final da década
Para responsável pelo Projeto Tietê, universalização do tratamento até 2020 não garante rio limpo
Giovana Girardi
Mesmo se todo o Projeto Tietê for cumprido - cuja meta máxima é chegar a 2020 com a universalização do tratamento de esgoto -, o rio pode não estar limpo ao final da década. O alerta foi feito por Carlos Eduardo Carrela, superintendente de projetos especiais da Sabesp e responsável pelo Projeto Tietê.
O programa de despoluição, iniciado em 1992, já teve concluídas duas etapas, que consumiram US$ 1,6 bilhão e aumentaram o número de estações de tratamento de duas para cinco e a coleta de esgoto em 300%. Já o volume de tratamento passou de 26% para 70% em 2008.
A terceira etapa, que começou em 2009, deve contar com mais US$ 1,8 bilhão e ser concluída em 2015. A previsão é de que o tratamento salte para 84% na Região Metropolitana de São Paulo, chegando a 100% em 2020. O governo Geraldo Alckmin prometeu, nesta semana, que daqui a três anos não haverá mais o tradicional mau cheiro e o rio abrigará o trânsito de barcos de turismo.
O problema é que nem todas as cidades da Região Metropolitana estão filiadas à Sabesp e, assim, não participam do plano de metas (mais informações na página ao lado). Além disso, o esgoto só representa uma parte da poluição - apesar de ser a maior.
Há uma contribuição considerável também da poluição difusa, dejetos que são carregados pela chuva, como lixo, garrafas PET, a fuligem dos carros que passam pelas marginais. "Há uma tendência de que isso seja cada vez maior. Ainda não existe uma solução definitiva", diz.
"Quando falamos em universalização, não quer dizer que o rio vai ficar todo despoluído ao final da década. É executar todas as ações possíveis para o esgoto não chegar ao rio. É colocar rede de coleta onde é possível ter", diz. "Mas o problema do lixo tem de melhorar muito. Outros municípios têm de entrar. Ter um rio limpo depende do projeto, mas não só dele."
Sinais de melhora. Carrela pondera que, apesar de os avanços serem pouco perceptíveis na capital - a aparência e o cheiro continuam ruins -, há sinais de melhora em outros pontos da bacia.
O rio, que nasce em Salesópolis, corre para o interior, na direção do Rio Paraná. Quando passa por aqui, carrega a contaminação. Após 20 anos de programa na Bacia do Alto Tietê, o impacto está sendo observado nas outras bacias, diz. "Vemos resultados por exemplo, em Barra Bonita, onde já não tinha mais vida aquática como antigamente e agora voltou a ter. Famílias que dependiam da pesca voltaram a pescar."
Mesmo para São Paulo, ele arrisca dizer que a situação poderia ser muito pior se não tivesse ocorrido um aumento do esgoto tratado. "Hoje não sei se a gente conseguiria andar nas beiras dos rios se não fosse isso. Mas a carga de esgoto ainda é grande."
Tratamento crescente
24% do volume do Tietê eram tratados em 1992.
70% do volume do rio passaram a ser tratados em 2008;a meta é de chegar a 100% em 2020.
OESP, 22/09/2012, Especial, p. X2 a X5
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,tratar-esgoto-e-maior-desaf…
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