CB, Brasil, p. 13
Autor: LIMA, Geddel Quadros Vieira
11 de Nov de 2007
"A transposição é irreversível"
Ministro da Integração Nacional garante que obras não vão prejudicar interesses de nenhum estado
Entrevista: Geddel Vieira Lima
Gustavo Krieger
Da equipe do Correio
O ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, já foi um duro crítico da transposição das águas do Rio São Francisco. Hoje, mais que o gerente do projeto, transformou-se numa espécie de apóstolo.
"Será a redenção do Nordeste", jura. Nessa entrevista, ele assegura que a obra vai deslanchar e que o primeiro trecho será inaugurado ainda no mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Geddel continua brigão, mas agora volta sua ira para os que combatem a transposição. Atribui essa resistência ao desconhecimento ou a interesses políticos. E jura que não adianta ser contra.
"Essa obra tem começo, meio e fim."
Para discutir a viabilidade e a eficácia da obra, a maior até agora já anunciada pelo presidente Lula, três jornais do Grupo Associados - Correio Braziliense, Estado de Minas e Diário de Pernambuco - vão promover, a partir do próximo dia 13, o projeto São Francisco, que vai deflagrar um debate em torno do tema, com a participação de vários setores do governo e da sociedade. O ministro Geddel participa da abertura do seminário.
A transposição das águas do Rio São Francisco é uma daquelas obras das quais se fala há muito tempo. Não dá para fugir da primeira pergunta. Desta vez a obra sai?
Eu não tenho dúvida nenhuma. Meu principal papel aqui no ministério talvez seja desmitificar essa questão. Mostrar que, ao contrário do que tentaram fazer no início, essa não é uma questão ideológica ou política. É uma questão de absoluta necessidade. Na medida em que fizemos um longo roteiro de viagem da nascente do rio até a sua foz, percebemos que não havia também essa resistência que tentaram vender das comunidades ribeirinhas. As pessoas tinham preocupações, apresentaram suas críticas e essas críticas foram incorporadas. O que vejo hoje é uma expectativa muito favorável em relação à obra. Nós estamos abrindo esta semana as propostas de preço para declararmos os vencedores do primeiro lote da parte privada, o que vai transformar a obra, de maneira definitiva, em algo irreversível.
O senhor pode garantir que nenhum estado será prejudicado?
Nenhum. O que nós precisamos é criar um entendimento político entre os estados. Lideranças políticas têm que ter coragem de fazer os enfrentamentos necessários para criar um grande entendimento sobre o uso da água e a forma como ela será distribuída. Temos estudos da Fundação Getúlio Vargas com apoio do Banco Mundial, mas o próximo passo é tratar dessa questão de forma política com os governadores.
Quais são os maiores focos de resistência à obra?
Aqueles mais ideologizados. Alguns setores da Igreja, liderados pelo dom Cappio (o bispo de Barra - BA -, Luís Flavio Cappio, que fez greve de fome contra a transposição). É bom frisar que o dom Cappio não representa a Igreja como um todo. Há outros bispos com a mesma influência dele no Nordeste que defendem a transposição. As comunidades ribeirinhas reclamavam que a água seria levada para longe enquanto cidades "beiradeiras" do Rio São Francisco continuavam sem abastecimento. Esse sim é um argumento honesto do ponto de vista intelectual. Levamos o problema ao presidente Lula e ele nos autorizou a dar início ao programa Água para Todos, que é levar água a todas as cidades localizadas a 15 quilômetros das duas margens do rio. Só este ano vamos empenhar projetos na ordem de R$ 50 milhões de um total de R$ 307 milhões em quatro anos. Estamos fazendo um amplo projeto de revitalização do São Francisco. Estamos botando em prática iniciativas que durante anos ficaram no discurso. É uma obra com começo, meio e fim.
Alguns estados ainda resistem?
Resistem por falta de informação. Vou dar um exemplo. Como você pode conceber que Sergipe seja contra a transposição das águas do São Francisco se Aracaju (capital do estado) é abastecida por uma obra da mesma concepção. Aracaju era abastecida pela bacia do Rio Sergipe, que foi perdendo as condições de abastecer a cidade quando ela se transformou em uma grande metrópole. A solução encontrada foi a transposição de águas. Se foi a Propriá, uma cidade a 100 quilômetros de Aracaju, e foi feita uma transposição de águas do São Francisco para a bacia do Rio Sergipe. Eu não vejo como essas resistências residuais possam se sustentar.
O senhor já foi contra a obra.
Já. E me penitencio. Eu não conhecia o projeto. Tinha a visão aligeirada de que ele prejudicava a Bahia e o Nordeste. Depois de conhecer o projeto, não há como ficar contra.
O que mudará na Região Nordeste com a transposição?
Em primeiro lugar, você oferece expectativas e esperanças para quem não tem hoje água de beber. Você tem a expectativa de acabar com essas imagens de famílias de retirantes saindo da terra onde nasceram por falta de água de beber, de cuidar da lavoura e dos animais. A transposição permite que uma ampla região do Brasil, o Nordeste Setentrional, tenha a possibilidade de administrar melhor seus insumos hidrológicos e assim incentivar a agricultura e a indústria. Permite trazer essa região a uma situação de igualdade com o restante do país. É a redenção do Nordeste.
E qual o efeito para Minas Gerais?
Nenhum. O rio nasce na Serra da Canastra, atravessa o estado de Minas Gerais qual impávido colosso irrigando terras mineiras e a água só será retirada perto da foz. Portanto, não há nenhum prejuízo para Minas Gerais. O que Minas tem feito é usar essa retórica para obter mais e mais benefícios.
Uma das críticas ao projeto é que existiriam alternativas mais baratas, como a implantação de um programa de cisternas. Não havia mesmo uma saída mais simples?
Se houvesse, nós estaríamos adotando. Esse é o projeto mais discutido da história do Brasil. Vem desde o Império. Quando eu ouço falar em poços artesianos, em cisternas, aproveitamento de aquíferos, pequenas barragens, só posso compreender isso como algo complementar. A solução definitiva passa pela transposição.
Qual o estágio das obras hoje?
Estão bem avançadas. A parte referente ao Exército, que são os canais de aproximação e as estações de bombeamento do primeiro trecho, e as barragens estão bem adiantados. E vão ganhar celeridade com a entrada das empresas privadas nos trechos subseqüentes. A idéia é inaugurarmos o trecho leste no governo do presidente Lula e deixarmos o trecho norte de forma absolutamente irreversível, para que qualquer presidente que venha a sucedê-lo esteja comprometido com essa obra.
CB, 11/11/2007, Brasil, p. 13
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