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A tragédia invisível dos mares

O Globo, Ciência, p. 34
29 de Jul de 2010

A tragédia invisível dos mares
Fonte de oxigênio, população de fitoplânctons cai 40% por conta do aquecimento

Steve Connor Do Independent

As plantas microscópicas que alimentam toda a vida marinha estão morrendo em ritmo drástico, segundo um estudo inédito conduzido pela Universidade de Dalhousie, no Canadá, e publicado esta semana na revista "Nature". A população oceânica de fitoplânctons, como estes seres são conhecidos, caiu cerca de 40% durante o século passado. Para os pesquisadores, a mudança está relacionada com o aquecimento global e as crescentes temperaturas da superfície do mar.

Os fitoplânctons são organismos marinhos microscópicos capazes de realizar fotossíntese, assim como as plantas terrestres. Encontrados nas camadas superiores dos oceanos, eles produzem uma quantidade significativa do oxigênio que respiramos.

Um declínio de 40% da população destes seres representaria uma mudança maciça na biosfera global. Se este índice for confirmado por outros estudos, poderá representar, de acordo com cientistas, um impacto maior do que a destruição de florestas tropicais e recifes de coral.

Impacto biológico sem precedentes

De acordo com o biólogo marinho Boris Worm, que participou do levantamento, as baixas populacionais foram constatadas principalmente na segunda metade do século XX.

- Se o ritmo de decréscimo permanecer o mesmo, algo realmente sério está acontecendo há décadas - alertou. - Tentei pensar em uma mudança biológica maior do que esta, mas nada me ocorreu. A confirmação de nosso estudo significaria que o ecossistema marinho de hoje está muito diferente daquele de poucos anos atrás, e boa parte dessa mudança está acontecendo no oceano, onde não podemos vê-la.

A equipe da universidade canadense estudou os registros populacionais de fitoplânctons realizados desde 1899, quando a clorofila do fitoplâncton (pigmentos verdes) passou a ser monitorada regularmente.

Cerca de meio milhão de medições, promovidas durante todo o século XX, foram analisadas.

As contagens aconteceram em dez regiões do mundo. Em oito, a população de fitoplânctons declinou em taxas preocupantes, em uma média global de 1% ao ano.

O declínio é correlacionado ao aumento da temperatura na superfície do mar - embora os cientistas não consigam provar que os oceanos mais quentes tenham sido a causa da morte dos fitoplânctons.

De acordo com os pesquisadores, o estudo optou pela análise de um período tão longo para eliminar as conhecidas flutuações naturais de fitoplânctons que ocorrem de uma década para outra. Estas mudanças são normalmente atribuídas a oscilações na temperatura do oceano.

- Os fitoplânctons são um importante ator no suporte da vida no planeta - ressaltou Worm. - Eles produzem metade do oxigênio que respiramos, retiram CO2 da superfície e ainda servem de alimento para todos os peixes.

Líder da equipe de pesquisa, que demorou três anos para concluir o estudo, Daniel Boyce também sublinhou a importância dos fitoplânctons e o impacto de sua população para o homem.

- Os fitoplânctons, base da vida nos oceanos, são essenciais na manutenção da saúde do mar - ponderou. - Eles representam um combustível, e seu declínio afeta toda a cadeia alimentar, incluindo os seres humanos. Precisamos, por isso, nos preocupar com o seu declínio. Fizemos uma descoberta muito robusta e temos confiança em nossas conclusões.

Os fitoplânctons são afetados pela quantidade de nutrientes que vêm do fundo dos oceanos. No Atlântico Norte, eles "florescem" naturalmente na primavera e no outono, quando as tempestades levam estes alimentos para a superfície.

Um efeito das temperaturas crescentes foi deixar a coluna de água de algumas regiões equatoriais mais estratificadas, com água mais aquecida sobre camadas mais frias, dificultando a chegada de nutrientes para os fitoplânctons na superfície do mar.

Mares mais quentes nas regiões tropicais também são conhecidos por ter um efeito direto em limitar o crescimento de fitoplânctons.

Calor extra do planeta é absorvido pelos oceanos
Temperatura aumentou 0,56 graus em 50 anos

Segundo a mais nova e abrangente análise do clima do planeta, todos os indicadores de mudanças climáticas apontam para o fato de que o aquecimento global é verdadeiro e não foi interrompido, como sugerem os céticos.

Também já se sabe que cerca de 93% do calor extra é absorvido pelos oceanos; portanto, não provoca surpresa ver esse aquecimento adicional prejudicando a vida de plantas microscópicas que constituem a base da cadeia alimentar marinha.

O relatório do clima divulgado no ano passado pela Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (Noaa, na sigla em inglês) dos EUA reuniu, pela primeira vez, cerca de 50 documentos globais independentes, que abordam dez aspectos da mudança climática - entre eles, o aumento da temperatura da terra e dos oceanos e o tamanho das geleiras.

Quando compilados em um estudo, aparece claramente um planeta que experimenta um aquecimento consistente, especialmente desde a metade do século passado, e sem sinais de que dará lugar, em breve, a um "esfriamento", como alardeado pelos céticos do clima.

A quantidade de calor que entra hoje nos oceanos como um resultado do aquecimento global é, segundo estimativas, equivalente à energia de 500 lâmpadas de 100 watts para cada um dos 6,7 bilhões de habitantes do planeta.

- É uma quantidade absurda de calor - avalia Peter Stott, um dos colaboradores do relatório.

- Quando seguimos a evolução dos indicadores coletados, década por década, vemos sinais claros e infalíveis de um mundo cada vez mais quente.

A temperatura global aumentou, em média, 0,56 graus Celsius nos últimos 50 anos. Parece pouco, mas esta mudança já provoca alterações no planeta.

O Globo, 29/07/2010, Ciência, p. 34

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