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Traficantes levam ovos exóticos do Brasil para Europa

OESP, Vida, p. A14
22 de Fev de 2012

Traficantes levam ovos exóticos do Brasil para Europa
Principal porta de entrada é Portugal, país que registrou recorde de apreensões em 2011; apesar disso, estimativa é de que tráfico seja maior

JAMIL CHADE

No bilionário comércio ilegal de animais exóticos brasileiros, a Europa descobre um novo fenômeno: a explosão do transporte de aves raras em ovos, antes mesmo de nascerem. Em 2011, foram 152 ovos descobertos em malas, roupas e sacolas de traficantes, que se passam por turistas. O número de apreensões é recorde, mas estima-se que ele represente apenas 5% das aves brasileiras que entram ilegalmente no continente.
O volume recorde de apreensões foi registrado pelos serviços aduaneiros portugueses, com passageiros em voos entre o Brasil e Portugal. Os ovos foram coletados na maioria das vezes por indígenas, muitas vezes enganados, que repassam a traficantes internacionais (mais informações nesta página). São de espécias como papagaios, araras e tucanos, que, grandes, podem ser comercializados por até 70 mil euros cada um.
As autoridades europeias admitem que estão pegando apenas uma fração do que de fato entra no continente. Com base em escutas telefônicas, investigações policiais e depoimentos, a estimativa é de que pelo menos 2 mil ovos de pássaros raros brasileiros entraram na Europa driblando a fiscalização. Tudo isso apenas no ano passado. No total, os pássaros que nasceriam desses ovos gerariam lucros de milhões de euros aos traficantes.
A lei proíbe a exportação, salvo com o aval do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Mas isso não tem freado os traficantes. Segundo o Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB), em Lisboa, a última grande descoberta foi realizada em novembro. No aeroporto de Lisboa, um passageiro carregava 30 ovos de papagaio-de-cauda-curta. O passageiro, que havia saído originalmente do Tocantins, havia enrolado os ovos em meias e os escondido em sua cintura.
Outros casos incluíram uma portuguesa que, em agosto, tentou entrar no país com 29 ovos de papagaios, vinda de Belo Horizonte. Em setembro, foram apreendidos 11 ovos de araras e 58 ovos de tucanos, fenômeno que se repetiu em outubro.
Rota. Em entrevista ao Estado, o coordenador da Unidade de Aplicação das Convenções Internacionais no ICNB, João Loureiro, confirmou que Portugal tem sido a porta de entrada de aves e outras espécias traficadas entre o Brasil e a Europa, por ser o país que mais voos tem entre o velho continente e as cidades brasileiras.
Segundo ele, o tráfico sempre ocorreu entre os dois continentes. Mas foi apenas nos anos 1990 que começou a atrair grupos criminosos internacionais. "Num primeiro momento, o tráfico era de aves vivas. Mas muitas chegavam mortas."
Foi a partir de 2001 que se registrou o início do tráfico de ovos, mas ainda em quantidades pequenas. Atualmente o crime explodiu e identificar esse tipo de tráfico é considerado "muito difícil". "Os ovos são resistentes e, ao chegar em meias e na cintura de um passageiro, a temperatura do corpo acaba atuando como incubadora", diz Loureiro.
Combate. Desde 2010 o governo português reforçou os controles e passou a exigir mais documentos para regularizar uma ave. Além disso, as operações de escuta e investigação foram ampliadas. Alguns dos traficantes, que fazem parte de redes internacionais, hoje cumprem prisão em Lisboa, com penas de até quatro anos.

Indígenas são usados para fazer a coleta

A rede de tráfico de ovos de aves exóticas brasileiras começa na relação entre intermediários e tribos indígenas no Brasil. "Há uma encomenda vinda da Europa e cabe a um intermediário fazer o trabalho no Brasil", conta João Loureiro, do Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB), de Lisboa.
São os indígenas que fazem a coleta nos ninhos, na maioria das vezes sem saber que os ovos serão alvo do tráfico. Muitos são informados de que estão ajudando em pesquisas científicas e ganham valores insignificantes pelo trabalho.
A maioria dos ovos não fica em Portugal, seguindo para outros países europeus. Nesses locais, criadores de pássaros emitem certificados falsos, indicando que o pássaro que estava nos ovos é cria de um casal que já estava regularizado na Europa.

OESP,22/02/2012, Vida, p. A14

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