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Tilápias 'se mudam' por causa da seca

OESP, Economia, p. B10
08 de jun de 2014

Tilápias 'se mudam' por causa da seca
Empresas que criam peixes nos reservatórios de hidrelétricas levam viveiros para áreas mais cheias; perdas chegam a 30% da produção

Mariana Gazzoni - Enviada especial/ Santa Fé do Sul (SP)

A Piscicultura Carbone, produtora de tilápia no reservatório da hidrelétrica de Ilha Solteira, está de mudança. A empresa deslocou 150 tanques-rede cheios de peixe lago adentro por 2 km. O trajeto teve de ser percorrido lentamente e durou cerca de cinco horas. Antes disso, mergulhadores trabalharam por dez dias para cortar os tocos que estavam no caminho e liberar a passagem para os peixes. A medida foi tomada depois que o reservatório atingiu o nível mais baixo desde 1986, provocando uma queda de cerca de 30% na produção de peixes neste ano.
"Paguei pela concessão de uma área de 2 hectares no lago, que não vou mais usar", lamenta o produtor Oswaldo Carbone Junior. "Tive que gastar R$ 100 mil para transferir os viveiros e começar do zero em outro local. Era isso ou parar de produzir. Essa área vai secar nos próximos meses", diz, apontando para um lago esvaziado.
Os peixes já estão na "casa nova", mas a mudança ainda não acabou. Carbone ainda tem de transferir contêineres de ração e atualizar o endereço da empresa na Receita Federal para uma nova sede. O empresário teve de gastar R$ 40 mil no arrendamento de um terreno mais próximo ao novo local dos viveiros para montar a infraestrutura de suporte à produção.
Assim como Carbone, uma série de aquicultores donos de concessões para cultivar peixes em reservatórios de usinas estão transferindo os viveiros para áreas mais profundas. A "mudança" foi autorizada pela primeira vez pelo Ministério da Pesca e Aquicultura no fim de maio. Foi uma medida emergencial para minimizar prejuízos com a redução do volume do reservatório de Ilha Solteira, que encerrou o mês passado operando com 4,6% do volume útil para geração de energia, segundo dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico. No lago da usina está o maior polo produtivo de tilápias do País, com produção anual de 25 mil toneladas, cerca de 10% do total nacional, segundo estimativas da ABTilápia, associação do setor.
Os prejuízos aos pescadores são mais uma dentre muitas dores de cabeça ocasionadas pela atual seca, que também encarece a produção de energia e ameaça o abastecimento de água em diversas cidades, especialmente na região Sudeste. Dos 22 maiores reservatórios de hidrelétricas, 19 tiveram queda no volume de água em maio, na comparação com o mesmo período do ano passado, e dez deles operam abaixo de 30% da capacidade (veja quadro abaixo), de acordo com dados do ONS.

Investimento. A seca pegou os aquicultores desprevenidos e reverteu um movimento de expansão da atividade. O cultivo de peixes começou a se desenvolver de forma profissional na região há menos de dez anos e a produção de tilápia no polo de Santa Fé do Sul (SP), município vizinho a hidrelétrica de Ilha Solteira, crescia historicamente cerca de 25% ao ano.
O produtor Fabio Brandão pretendia ampliar de 90 para 240 o número de tanques de criação de tilápias em sua propriedade. Ele já tinha encomendado 80 deles quando viu o reservatório secar, a ponto de não ter espaço na água que restou nem para os tanques em operação - parte deles ficou na parte do lago que secou.
"Suspendi o projeto de ampliação e só vou colocar os tanques na água quando o reservatório subir", disse Brandão, que estima um prejuízo de cerca de R$ 300 mil no ano com a seca.
Brandão e os demais produtores querem uma sinalização do governo sobre qual, exatamente, é o fundo do poço em Ilha Solteira. A ABTilápia entregou na semana passada um ofício para o Ministério da Pesca pedindo informações. "Precisamos dessa resposta para saber quanto vamos produzir", disse o produtor Tito Capobianco Junior, presidente da ABTilápia. A perspectiva na região é que o reservatório seque ainda mais, já que o período de secas vai até setembro ou outubro.
A Cesp, dona da concessão da usina, disse, em nota, que a decisão de esvaziar mais ou menos o reservatório é do ONS, mas estima que deve chegar a níveis mais baixos até o fim do período de seca. Já o ONS informou que faz recomendação técnica sobre o volume de operação e a decisão é tomada no Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico, presidido pelo Ministério de Minas e Energia. A próxima reunião será quarta-feira.

Perdas com a seca vão da fábrica de ração à criação de alevinos
Consumidor deve sentir impacto da redução da produção nos preços até o fim do ano; peixe leva seis meses para crescer

Mariana Gazzoni - Enviada especial/ Santa Fé do Sul (SP)

A seca impactou toda a cadeia produtiva do pescado- da produção de alevinos até a fábrica de ração. O produtor de alevinos Emerson Esteves, estima queda de 25% nas vendas após a seca. Ele mantém a produção das espécies, de cerca de milhões de alevinos ao mês, e está fazendo "estoque" de peixe. "Vamos criar o peixe juvenil para vender aos produtores quando a seca acabar." Acompanhando o crescimento na região, ele investiu na construção de 3 hectares de viveiros para criação de alevinos, que hoje funcionam abaixo da capacidade.
Outros fornecedores também sentiram o impacto da queda na produção de tilápia. Com menos peixe na água, a venda de ração caiu cerca de 30%, conta o empresário Ramon Amaral, sócio do Grupo Ambar Amaral. Além da fábrica de ração, o grupo também é dono de frigorífico e viveiros para produção de tilápias em Santa Fé do Sul.
Em reação à crise, a empresa demitiu cerca de 20% da equipe, suspendeu os investimentos para dobrar a criação de tilápias e não ligou máquinas novas na fábrica de ração.
Segundo Amaral, o negócio menos impactado foi o frigorífico, já que os peixes grandes foram colocados nos viveiros antes da seca. "A queda na produção deve refletir no supermercado no fim do ano. O preço da tilápia tende a aumentar."
Apoio. A crise aumenta a pressão dos aquicultores para a regularização da atividade. Os produtores aguardam a publicação de um decreto, anunciado em novembro de 2012, que flexibiliza as regras do licenciamento ambiental no Estado de São Paulo para se regularizar.
Sem a licença, eles não têm acesso às linhas de crédito oferecidas ao setor. "É mais difícil enfrentar a seca sem crédito", diz Esteves. A Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo diz que o decreto será anunciado ainda este mês. / M.G.

Seca pode brecar concessões em lagos de usinas

A atual escassez de água pode fazer o governo segurar as licitações para conceder novas áreas para aquicultura em reservatórios de usinas hidrelétricas.
O projeto da construção de parques aquícolas nessas regiões, uma espécie de condomínio para cultivo de peixes, foi criado em 2009, mas a maioria dos contratos foi fechada a partir de 2012. Só neste ano, o governo pretendia oferecer 428 áreas em seis Estados, capazes de produzir 6 mil toneladas de pescado ao ano.
"Estamos atentos a questão da seca e podemos segurar as concessões em áreas que se mostrarem inviáveis. Já fizemos isso em alguns reservatórios do complexo Furnas", disse Maria Fernanda Nince, secretária nacional de planejamento e ordenamento da aquicultura. / M.G,

OESP, 08/06/2014, Economia, p. B10

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