O Globo, Rio, p.15
12 de Ago de 2004
Testes sísmicos podem estar afetando baleias
Fernanda Pontes, Paulo Roberto Araújo e Túlio Brandão
As baleias viraram prioridade para o Ibama. A morte de uma jubarte na terça-feira, depois de passar três dias encalhada em Niterói, e a aparição, ontem, de uma minke desorientada na Praia dos Ossos, em Búzios, fez com que o órgão anunciasse uma operação para investigar a prospecção sísmica irregular de petróleo em toda a costa do Sudeste. Especialistas temem que a atividade esteja influenciando o comportamento de baleias que chegam ao Brasil para a atividade reprodutiva. Walter Plácido, assessor do Ibama no Rio, diz que os fiscais iniciarão hoje uma fiscalização na costa:
- Vamos investigar atividades suspeitas no litoral sudeste. Na Bahia e no Espírito Santo, só é possível realizar a atividade de julho a novembro, para não afetar a presença das jubartes na região. No Rio, porém, não há restrição de períodos. O estado atravessa um ótimo ciclo econômico graças à indústria do petróleo, mas, se estudos associarem a prospecção a problemas com baleias, devemos tomar todas as precauções possíveis para minimizar os impactos, até porque o Brasil é signatário de todos os tratados de preservação de mamíferos aquáticos.
A prospecção sísmica, para rastrear petróleo no mar, é feita com um canhão que emite um forte ruído de 180 decibéis, perceptível aos cetáceos num raio de 10km. A indústria petrolífera nega que o ruído cause problemas, mas a diretora do Instituto Baleia Jubarte, Marcia Engel, mostrou em recente reunião da Comissão Internacional de Baleias um trabalho sobre o encalhe desse tipo de cetáceo associado às prospecções:
- Foram oito adultos encalhados num curto período durante as atividades e apenas dois durante a proibição. Não podemos, no entanto, afirmar ainda que os dois casos no Rio têm relação com a atividade.
Pesquisadores acreditam que a baleia pode voltar
A minke que apareceu ontem em Búzios quase encalhou na Praia dos Ossos - que tem esse nome, segundo histórias locais, justamente devido aos ossos de baleias encontrados em suas areias. O animal aproximou-se da costa com a boca e a cauda levemente feridas, mas os bombeiros conseguiram afastá-lo para fora da enseada usando cordas e uma embarcação.
Em pouco tempo juntou uma multidão na praia. Os bombeiros tentaram evitar que a baleia chegasse mais perto da areia. Como não conseguiam, já que ela continuava nadando na mesma direção, ataram o animal com cinco mangueiras do Corpo de Bombeiros.
- Ela estava sem direção - disse o prefeito de Búzios, Mirinho Braga, que acompanhou a operação.
Em seguida, usaram um cabo preso num bote e ligaram o motor com o objetivo de levá-la para fora da enseada, mas a tentativa fracassou.
- Usamos um bote no resgate e seguimos uns 300 metros, mas acabamos sendo rebocados pela baleia, que voltou para a posição inicial - disse o comandante da operação, Ademerval Gomes.
Na segunda tentativa, os bombeiros usaram uma escuna para fazer o salvamento. Quando estavam próximos da saída da enseada, soltaram o cabo e a baleia seguiu em direção ao mar aberto.
Especialistas acreditam, entretanto, que a baleia voltará para alguma enseada de Búzios.
- Ela estava ferida - disse a veterinária Elisa de Oliveira, que trabalha na prefeitura.
Segundo o pesquisador Salvatore Siciliano, especialista em animais marinhos da Fiocruz, a rota da minke é semelhante à da jubarte. Ambas migram da Antártica para o Nordeste nesta época do ano. A diferença é que a minke costuma nadar em águas oceânicas, distante da costa.
O Globo, 12/08/2004, Rio, p. 15
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