VOLTAR

Terror na previsão climática

OESP, Vida, p. A26
Autor: DIXON, Thomas Homer
29 de Abr de 2007

Terror na previsão climática

Thomas Homer-Dixon

As mudanças climáticas ameaçam a paz e a segurança internacionais? O governo britânico acha que sim. Como líder neste mês do Conselho de Segurança da ONU, a Grã-Bretanha convocou um debate sobre o assunto. Um em cada quatro países da ONU se fez representar na discussão - um recorde para esse tipo de debate temático.

Países ricos e pobres, grandes e pequenos, de todos os continentes - Bangladesh, Gana, Japão, México, muitos da Europa e, de modo mais pungente, as numerosas pequenas ilhas em risco pela elevação dos mares - reconheceram que as mudanças climáticas têm implicações na segurança. Alguns outros países em desenvolvimento - Brasil, Cuba e Índia e muitos dos maiores produtores de combustíveis fósseis e dióxido de carbono, incluindo China, Qatar e Rússia - questionaram a própria idéia desse elo ou afirmaram que o Conselho de Segurança não é o local para discutir o assunto.

Mas eles estão errados. Rapidamente se acumulam as evidencias de que nossos filhos sofrerão com as secas severas, as tempestades e as ondas de calor provocadas pela mudança climática, que poderão desmantelar as sociedades de um lado ao outro do planeta. O stress climático pode representar um desafio para a segurança internacional tão perigoso - e mais refratário - do que a corrida armamentista entre os Estados Unidos e a União Soviética durante a Guerra Fria ou a proliferação de armas nucleares entre os Estados renegados.

O Congresso e líderes militares do alto escalão americano estão atentos a isso. Senado e Câmara estudam legislação dispondo que o diretor da inteligência nacional deve informar sobre as implicações geopolíticas das mudanças climáticas. Na semana passada, um painel composto de 11 generais e almirantes aposentados alertou que essas mudanças já são um "multiplicador de ameaças" em regiões frágeis do mundo, "exacerbando as condições que provocam a falência dos Estados - terrenos férteis para o extremismo e o terrorismo".

Abordando a questão das incertezas científicas sobre as mudanças do clima, o general Gordon R. Sullivan, ex-chefe de gabinete do Exército americano, hoje aposentado, disse: "Falando como soldado, nunca tivemos 100% de certeza. Se esperarmos até chegarmos a uma certeza total, algo vai acontecer no campo de batalha".

No futuro, esse campo de batalha provavelmente será complexo e arriscado. As mudanças climáticas vão colaborar para o surgimento de desafios militares que hoje já são difíceis de resolver pelas forças convencionais, como insurgência, genocídio, guerrilhas, guerras de gangues e terrorismo global.

Na década de 90, uma equipe de pesquisa liderada por mim na Universidade de Toronto examinou as relações entre as várias formas de stress ambiental nos países pobres - a degradação das terras agrícolas, o desflorestamento e a escassez de água doce, por exemplo - e conflitos violentos. Em lugares tão diversos como Haiti, Paquistão, Filipinas e África do Sul, concluímos que o stress ambiental severo multiplicou o sofrimento resultante de conflitos étnicos e da pobreza.

Os moradores das zonas rurais, que dependem dos recursos naturais para sua subsistência, ficarão ainda mais pobres, enquanto as elites poderosas passarão a controlar - obtendo lucros exorbitantes - as terras, as florestas e a água cada vez. Como esses recursos nas áreas interioranas devem diminuir, as pessoas se unirão em rebeliões locais contra proprietários de terra e autoridades do governo.

Em outros períodos, as pessoas migrarão para regiões onde os recursos são mais abundantes, lutando com as pessoas que já estão ali. Ou então migrarão para as favelas das regiões urbanas, onde os jovens desempregados podem estar prontos para se juntar às gangues ou a grupos políticos radicais.

As mudanças climáticas terão efeitos similares se as nações não limitarem vigorosamente as emissões de dióxido de carbono e não desenvolveram tecnologias e instituições que permitam às pessoas enfrentar um planeta mais quente.

O relatório recente do Grupo de Trabalho II, do Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (IPCC), identificou os vários modos como o aquecimento afetará as pessoas pobres e prejudicará o desenvolvimento econômico de maneira mais geral. Grandes extensões de terra nas latitudes subtropicais experimentarão uma seca mais severa, serão mais prejudicadas pelas tempestades; nessas áreas aumentarão os índices de mortalidade por causa das ondas de calor; novas pestes atingirão a agricultura; doenças infecciosas terão um recrudescimento.

O impacto potencial sobre a produção de alimentos é uma preocupação particular: nas regiões semi-áridas onde já existe escassez de água e as áreas cultiváveis são submetidas a um uso extensivo, as mudanças climáticas podem devastar a agricultura. Muitas plantações de cereais nas zonas tropicais já estão perto dos seus limites de tolerância ao calor, e temperaturas alguns graus mais altas podem fazer com que as colheitas definhem.

Enfraquecendo as economias rurais, aumentando o desemprego e prejudicando a subsistência das pessoas, o aquecimento global aumentará as frustrações e a ira de centenas de milhões de pessoas nos países vulneráveis.

Especialmente na África, mas também em algumas partes da Ásia e da América Latina, a mudança climática deverá debilitar governos que já são frágeis - e tornar mais prováveis os desafios de grupos violentos - diminuindo as receitas, subjugando as burocracias e revelando como esses governos são incapazes de ajudar seus cidadãos.

Nos últimos anos, aprendemos que esse fracasso pode ter conseqüências em todo o mundo e que as grandes potências não conseguirão ficar sempre isoladas delas. É hora de colocarmos as mudanças climáticas na agenda de segurança do mundo.

Thomas Homer-Dixon É diretor do Centro Trudeau para Estudos da Paz e dos Conflitos, da Universidade de Toronto, é autor do livro 'The Upside of Down: Catastrophe, Creativity and the Renewal of Civilization'

OESP, 29/04/2007, Vida, p. A26

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.