OESP, Economia, p. B4
10 de Jan de 2013
Termoelétricas dão prejuízo à Petrobrás
Companhia paga mais para comprar gás natural liquefeito e cumprir contratos de fornecimento, e chega a perder R$ 240 milhões por mês
Sabrina Valle / RIO
Os baixos reservatórios das usinas hidrelétricas também têm afetado a Petrobrás. A companhia precisa comprar no mercado superaquecido gás natural liquefeito (GNL) para abastecer as usinas termoelétricas flexíveis, acionadas durante o período seco. No cálculo da consultoria Gas Energy, o prejuízo é de cerca de R$ 240 milhões por mês.
Somado com o prejuízo da companhia com a importação de diesel e gasolina, a Petrobrás tem perdido US$ 1,12 bilhão por mês com a importação de combustíveis a preços mais altos do que os de revenda.
A Petrobrás refuta o cálculo da consultoria sobre o gás, mas não revela quanto perde. A companhia diz que o negócio das térmicas flexíveis precisa ser avaliado num "horizonte de tempo compatível com a duração dos contratos, de 15 a 20 anos", diz, em nota à Agência Estado.
O desconto no GNL acontece porque a Petrobrás fechou, em 2006,2007e2008,porexemplo, contratos flexíveis para entrega (despacho) a termoelétricas a preços predeterminados.
A companhia fica com o risco de arcar com possíveis altas de preço no mercado spot(livre)de GNL, em momentos em que o setor está em alta no mundo, como agora.
O presidente da Gas Energy, Marco Tavares, critica o modelo assumido pela Petrobrás, em que a companhia compra no mercado spot e vende no modelo flexível. " O problema está no modelo. Uma empresa privada não assumiria esse risco, pois pode não ser financiável. Não tem como prever, não tem como se proteger", disse. "No passado, o governo propôs e a Petrobrás aceitou."
Cálculo. A Gas Energy calcula que a Petrobrás tem recebido no máximo US$ 12 por milhão de BTUs no despacho flexível das termoelétricas, enquanto paga cerca de US$ 18 por milhão de BTUs no mercado spot. As perdas ocorrem em cima da diferença de US$ 6.Comonãoépossível prever a demanda, a Petrobrás também não tem como se proteger (hedge).
Até novembro de 2012, a Petrobrás importou 11,9 bilhões de metros cúbicos(m³) de gás, o maior volume em mais de uma década.
O engenheiro Luís Olavo Dantas, consultor e editor do site sobre gás natural Gasnet, lembra que o Brasil é abastecido por produção nacional (na casa de 70 milhões m³/dia), pelo gasoduto da Bolívia (30 milhõesm³/dia) e pelo gás natural liquefeito (GNL).
Foram em média 13 milhões de m³/dia de GNLem2012, chegando de navio ao Brasil na forma líquida a baixas temperaturas.
A Petrobrás esquenta o gás importado líquido para que volte ao seu estado inicial em dois terminais de regaseificação, no Rio e no Ceará, somando capacidade para 21 milhões de m³/dia.
No contrato flexível, a Petrobrás fornece o gás quando as termoelétricas precisam ser acionadas para compensar a produção insuficiente das usinas hidrelétricas. "Não há demanda firme o ano inteiro, por isso o contrato é flexível, não há necessidade de contrato firme", disse Dantas.
A Petrobrás defende o modelo: "As termoelétricas flexíveis têm papel de grande importância uma vez que são acionadas em complemento às hidrelétricas, nos momentos de baixo nível de reservatório e/ou baixas afluências".
Em 2010, também houve despacho térmico elevado, embora em menor nível do que hoje. No entanto, o gás no mercado internacional estava em cerca de US$ 8 a US$ 10 por milhão de BTUs, segundo a consultoria.
Segundo Tavares, o prejuízo da Petrobrás foi evidenciado em novembro com o aumento do despacho e a situação não deve se alterar antes de março. "Mesmo com chuvas, as usinas movidas a gás são as últimas a serem desconectadas. Primeiro são as movidas a diesel e a óleo combustível", disse Tavares.
OESP, 10/01/2013, Economia, p. B4
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