OESP, Nacional, p.B19
28 de Out de 2004
Terceiro setor é disputado por executivos de empresas
Instituições não governamentais precisam de profissionais dispostos a mudar o rumo de suas carreiras
Marina Faleiros
A atuação das instituições do terceiro setor vem ganhando força no Brasil e no mundo. Na mesma proporção, cresce a demanda por mão-de-obra especializada para gerir organizações não-governamentais (ONGs) e institutos, atraindo executivos dispostos a mudar o rumo de suas carreiras e alcançar maior realização profissional.
"Surgiu um novo tipo de profissional para esta área que, diferentemente dos que atuam no setor privado, tem uma visão mais ampla e entende mais de economia, políticas públicas e arrecadação de recursos, afirma Rosa Maria Fischer, diretora do Centro de Empreendedores e Administração do Terceiro Setor da Universidade de São Paulo (Ceats-USP).
Com a proliferação de fundações ou institutos mantidos por empresas, um fenômeno muito recorrente é a migração de executivos para funções voltadas a trabalhos na comunidade e ações sociais. No caso de Lírio Cipriani, a opção de ir para o terceiro setor surgiu quando ele ia se aposentar, em 2002. Depois de passar toda sua carreira na Avon, a empresa ofereceu a ele a direção executiva de seu instituto.
"Era interessante ter alguém que conhecesse a dinâmica da organização. Agora continuo participando de todas as movimentações internas da companhia e mostro que o bom investimento social traz resultados positivos também para a empresa", diz.
Caso semelhante aconteceu com Christine Fontelles. Ela trabalhava na área de comunicação da fabricante de celulose e papel Suzano Bahia Sul quando sugeriu que, em vez de a empresa realizar grandes festividades em comemoração aos seus 75 anos, aplicasse o dinheiro na criação de um instituto, o Ecofuturo. A idéia foi aceita pelos investidores e hoje ela é diretora de Educação da ONG.
"Como o Ecofuturo é uma organização fundada e mantida dentro de uma empresa, trabalhamos com uma pressão muito parecida. Temos de ter controle de custos, transparência e tudo nos é cobrado constantemente", afirma. A grande diferença, diz ela, é que se empresta a competência para melhorar a qualidade de vida das pessoas.
Nas organizações que não são ligadas a uma empresa específica, a realidade de trabalho não muda muito. Paulo Veras, atual diretor de Operações do Instituto Endeavor, sempre trabalhou no setor privado e tinha vontade de atuar no terceiro setor.
A oportunidade de mudança aconteceu quando uma agência de recrutamento o encontrou e o indicou para o cargo. "A gestão dentro da Endeavor é bastante profissional e não se trabalha menos. Não há diferenças nas cobranças, somente que buscamos, no nosso caso, a geração de empregos, e não o lucro".
Marcelo Linguitte, diretor de Relações Institucionais e Internacionais do Instituto Ethos, fazia um MBA em gestão urbana na USP quando esbarrou com duas matérias sobre terceiro setor. "Comecei a pensar na possibilidade de mudar, abdicar de algumas seguranças e trilhar este caminho". Depois de um tempo, ele recebeu o convite para trabalhar no Ethos.
"Foi uma decisão difícil, pois isso aconteceu em 1998 e o tema da responsabilidade social era muito recente no País. Acabei aceitando ganhar um salário menor e partir para o novo projeto", lembra.
As oportunidades no terceiro setor, de acordo com Rosa Maria, estão crescendo, mas não devem ser criadas expectativas para um boom de contratações. "O aumento de ofertas de vagas neste segmento é um movimento lento e constante, mas sem ligação com a economia", diz, explicando que um aquecimento do mercado nem sempre tem impactos dentro das ONGs.
Ela também chama a atenção para o fato de que muitos já disseram que o terceiro setor seria a grande solução para o desemprego de executivos, "mas a estrutura das organizações é bem enxuta e ele nunca terá a mesma capacidade empregadora da indústria e comércio".
Salários
Mesmo com metas a cumprir, orçamentos apertados e a necessidade de uma gestão qualificada, os profissionais do terceiro setor ainda não conquistaram o mesmo patamar de salários que seus colegas de empresas privadas. Christine conta que a exigência de profissionais de extrema competência é a mesma, principalmente dentro das fundações mantidas por empresas. Isso porque o gestor tem de gerar resultados para seus investidores e patrocinadores. "Mas por mais que eu necessite de conforto, quando penso numa remuneração alta vejo que é mais coerente que maior quantidade de dinheiro seja aplicada na causa", diz.
Luiz Carlos Merege, coordenador do Centro de Estudos do Terceiro Setor, da Fundação Getúlio Vargas, conta que na Europa e Estados Unidos, onde o terceiro setor movimenta bilhões de dólares, os salários já são compatíveis com as funções exercidas. "E existem casos de primeiros executivos de grandes instituições ganharem mais do que um presidente de empresa", comenta.
No Brasil, isto não chega a acontecer, mas muitas ONGs já oferecem remunerações de acordo com o mercado. "O Ethos tem um salário bastante competitivo, mas não temos benefícios como participação nos lucros, 15.o salário ou automóvel. Seria difícil justificar este tipo de abono, sendo que todo o dinheiro arrecadado deve ser direcionado para nossa missão", diz.
De acordo com Marcelo Braga, vice-presidente da Fesa, empresa especializada em recrutamento, os salários para cargos de primeiro executivo em instituições estão nos mesmos níveis do setor privado, o que ainda não ocorre em outras funções. "Nos casos das empresas que migram um executivo interno para sua fundação, também é mantido o nível que este profissional tinha anteriormente", diz. Veras acrescenta que somente com este reconhecimento e salários próximos ao do mercado os bons executivos serão atraídos.
Trabalho se associa à realização pessoal
Trabalhar no que se gosta e ainda ganhar por isso é, geralmente, o sonho de qualquer profissional. E quando o assunto é terceiro setor, o ponto de convergência entre trabalho e prazer costuma ser grande, pois a maioria dos profissionais já entra no segmento com a intenção de fazer o que traga satisfação pessoal. "Hoje sou uma pessoa realizada e faço o que gosto. Com certeza, o cartão de visitas mais importante que possuí em toda a vida foi o de diretor executivo do Instituto Avon", diz Lirio Cipriani.
Para Veras, do Endeavor, o sentimento é o mesmo: "O retorno pessoal é muito importante, e este nível de satisfação eu não consegui ter em nenhum outro lugar. Sinto que estou ajudando no desenvolvimento de outras pessoas, o que dá uma motivação extra".
Leno Silva, do Ethos, também acredita que a sua vontade de construir um país mais justo foi conciliada com seu trabalho. "Agora contribuo para a instituição crescer, ao mesmo tempo em que ela garante o meu sustento", diz.
Segundo Luiz Carlos Merege, da FGV-SP, esta sensação de ser útil à sociedade é recorrente nos profissionais de instituições sem fins lucrativos. "Esta pessoa sempre é mais respeitada e reconhecida como alguém de caráter nobre. É recompensador para ele trabalhar com quem precisa de ajuda, e não só pelo resultado financeiro".
Rosa Maria, da FEA-USP, porém, alerta: "Vendeu-se a idéia de que trabalhar no terceiro setor dá mais qualidade de vida, mas lá se encontram os mesmos problemas de uma empresa normal, como competição e pressão".
Números
220 Mil é o número aproximado de organizações não-governamentais atualmente em atividade no Brasil
2,8 Mil pessoas já fizeram cursos focados no terceiro setor dentro da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo desde 1995
450 Executivos se formaram pela Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP) a partir de 2002 para trabalhar no terceiro setor
30% Menos, em média, é o que ganha um executivo do terceiro setor, se comparado ao mesmo cargo numa empresa privada
OESP, 28/10/2004, p. B19
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