JT, Editoriais, p. A3
09 de Jan de 2004
Tensão gerada por inabilidade
A reação do presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Mércio Gomes - "a área está demarcada, não há mais retorno", disse ele -, reafirma a forma precipitada com que o governo federal trata a delicada homologação da demarcação (de 1998) da área indígena de Raposa Serra do Sol, em Roraima. A inábil forma com que a autarquia, ligada ao Ministério da Justiça, trata a drástica desocupação de 1,7 milhão de hectares, nos quais estão localizados dois municípios com intensa atividade agrícola - grandes fazendas de arroz disputadas por agricultores não índios que vivem delas e comunidades indígenas que as ambicionam -, só poderia gerar toda a tensão que está causando ali.
Os moradores não índios, revoltados com a perspectiva de terem de se mudar de terras das quais tiram o sustento das famílias há pelo menos 20 anos sem sequer terem ouvida sua reivindicação de as fazendas produtivas e os dois centros urbanos existentes ficarem de fora da reserva, partiram para a violência. Assim que foi noticiada a homologação, fecharam estradas na divisa dos Estados de Roraima e Amazonas, na fronteira do Brasil com a Venezuela e na cidade de Bonfim. Além disso, uma horda depredou a sede da missão indígena do Sumuru e agrediu os padres Ronildo Pinto França e César Avellaneda, o irmão leigo Juan Carlos Martinez. E sete estudantes de Manaus teriam sido mantidos como reféns, a se dar crédito às denúncias do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), tão comprometido com a causa demarcatória quanto os índios interessados e a Funai.
A parcialidade do Cimi é evidenciada pelo fato de seus membros estarem liderando as reivindicações em nome dos índios interessados. E, se alguém tivesse alguma dúvida da postura também parcial da Funai, ela seria imediatamente dirimida pelas declarações dadas por seu presidente, ao repercutir o noticiário sobre o barril de pólvora prestes a explodir por culpa de sua precipitação. Este tentou reduzir os óbvios problemas de deslocamento de contingentes populacionais que habitam a área aos interesses de sete rizicultores e ainda acusou os índios que se juntaram à resistência de terem sido "aliciados" pelos ruralistas. O líder desses índios dissidentes, Silvestre Leocádio, contudo, tem uma boa razão para recusar a forma desastrada escolhida pelo governo para resolver as tensões ocorridas no local. "Desejamos viver em paz com o homem branco. Índio não pode ficar isolado e jogado à sua sorte", disse, dando um tapa de luva de pelica nos burocratas politicamente corretos que decidem intervir drasticamente na vida das pessoas, ignorando-as.
Para atender às exigências fundiárias de 15 mil índios macuxi, ingaricó, taurepangue, uapichana e patamona o governo federal passou por cima de regras elementares do convívio civilizado e apregoadas como princípios basilares da gestão petista. Por que a cultura "assembleísta" de negociar conflitos até a exaustão não tem aplicação em rincões longínquos do território nacional? Por que limitá-la a São Paulo, Brasília e Rio?
JT, 09/01/2004, Editoriais, p. A3
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