Marcos Sá Corrêahttp://marcossacorrea.com.br -
10 de Set de 2010
Os guaxes andam tão ocupados com a tecelagem de seus ninhos nas palmas das jerivás que, neste começo de setembro, o presidente Lula e sua candidata Dilma Rousseff conseguiram lotar por dois dias, com suas comitivas, o hotel das Cataratas, sem abafar a voz desses pássaros, em plena campanha de acasalamento.
Eles, sim, sabem se esgoelar sem marqueteiro nem horário gratuito. Qualquer galho lhes serve de palanque, mesmo que seja de cabeça para baixo. Sobretudo, eles cumprem suas promessas antes de serem eleitos. Tudo indica que é um trunfo nupcial decisivo entre os Cacicus haemorrhous a habilidade pegar primeiro a melhor ponta da palmeira, para costurar na palha um ninho pênsil que pareça, ao mesmo tempo, resistente ao vento e mais comprido que o temível bico dos tucanos.
Isso é pura especulação de jornalista. Mas, pelo menos nas jerivás do Porto Canoas, no final da trilha das Cataratas, até agora os ninhos mais espaçosos e bem situados abrigavam casais. Continuavam solteiros os retardatários, que se esfalfavam sozinhos para improvisar a instalação de um domicílio modesto lá no alto.
Lá em cima, aparentemente, ficam os barracos dos guaxes. São notoriamente mais acanhados e expostos aos inconvenientes da construção irregular em lugares perigosos. Presume-se que chegue primeiro à ponta das palmeiras os predadores. Sem contar que não há como dobrar aquelas palmas ainda novas, apontadas para o céu, nos arcos elegantes em que se penduram os cestos alongados, típicos dos endereços mais valorizados na confraria dos guaxes.
Pior, só lá embaixo. Junto ao tronco das jerivás pendem, vazios, os ninhos do ano passado. Guaxo nenhum se arrisca a ocupá-los em segunda locação, talvez porque as folhas que lhes servem de alicerces, agora secas, tendem a cair de uma hora para outra, na primeira tempestade.
Os solitários ficam também mais sujeitos que os casados a perder um pedaço de seu patrimônio imobiliário assim que viram as costas para buscar mais fios no mato para tecer seus ninhos. O roubo do material de construção, entre os guaxes, parece comum. Ou natura. Mas provoca brigas ruidosas a até combates aéreos, com manobras que lembram os malabarismos alados da Primeira Guerra Mundial. Só que, no caso, sem baixas a festejar ou lamentar.
São bichos paradoxais, os guaxes. Pássaros negros, porém coloridos, com berrantes bicos amarelos, olhos azuis e uma viva mancha vermelha no dorso, que os denuncia à distância, cada vez que abrem as asas. São grandes, porém tímidos, senão pusilânimes. Vivem juntos em comunidades numerosas, porque essa não deixa de ser sua maneira de se esconder.
Sua única reação de defesa é o barulho atordoante que produzem sob ataque. Não resistem a invasões. E muito menos enfrentam inimigos jurados. Preferem a presença humana ao risco de viver num mato povoado por tucanos. Devem confiar na probabilidade estatística de que, juntando muitos ninhos, não haverá tucano que dê conta de todos os filhotes. Se é assim, a vítima pode ser a prole do vizinho, não a sua.
Vivem em condomínio. E todo mundo que já viveu em condomínio sabe que isso é um bate-boca permanente, a serviço da hierarquia e da demarcação de território. Pelo menos é assim a vida social dos corvos, que passou a ser minuciosamente esquadrinhada pelos ornitólogos desde que Konrad Lorenz encontrou dentro daquelas pequenas cabeças negras cérebros capazes de malícias e cálculos assombrosos.
Entre os corvos, as disputas essenciais da existência, seja por comida ou reprodução, ficam previamente acertadas entre vencedores e perdedores vitalícios. Essas prerrogativas se derramam em cascata pelo bando abaixo, via parentesco, amizade ou aliança política. Quem é amigo de quem manda manda em quem obedece. E isso vale inclusibe nas menores bicadas cotidianas. Mais ou menos como acontece no país com os empregos públicos, quando um partido chega ao poder.
Dois ou três dias de nariz para cima debaixo das jerivás apinhadas, vendo os guaxes se ajeitar para a próxima primavera, não dá a ninguém o direito de insinuar que, como os corvos, eles convivem estreitamente num regime de castas. Mas não há dúvida que estão empenhados o tempo todo em debates vitais. Há muito tempo o presidente Lula não passava tão perto de uma autêntica corrida pelo poder, quanto em sua breve hospedagem no parque do Iguaçu.
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